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27/11/2015 16:11

Entrevista com Alcione Meira Amos

ALCIONEEm novembro, a Fundação Pedro Calmon/Secretaria de Cultura do Estado da Bahia (FPC/SecultBa) - por meio da Biblioteca Virtual Consuelo Pondé – e o Consulado Geral dos EUA no Rio de Janeiro trazem para Salvador a exposição “Gullah, Bahia, África”, que documenta a vida e parte da pesquisa desenvolvida por Lorenzo Dow Turner, primeiro linguista afro-americano.  A exposição será aberta no dia 24 de novembro, às 19h, e ficará em cartaz até 31 de janeiro de 2016, no Palacete das Artes (Graça). O #FPCEntrevista deste mês traz a curadora da exposição, Alcione Meira Amos, que fala do acervo de Turner, das relações com o Brasil e projetos futuros do Anacostia Community Museum do Instituto Smithsonian (EUA).

#FPCEntrevista – Como este acervo de Turner chegou ao seu conhecimento e de que forma o Smithsonian passou a trabalhá-lo?

Alcione Amos - Na verdade foi uma destas coincidências que acontecem e mudam a vida da gente. Eu estava pesquisando a história dos afro-brasileiros que voltaram para a África ocidental no século XIX, muitos deles partindo da Bahia, para escrever um livro. Uma amiga me encaminhou para o Anacostia Community Museum, pois o museu tinha recebido uma coleção de fotografias feitas na Bahia nos anos de 1940-41. Quando eu vi as fotos fiquei muito interessada. Não só a coleção do Dr. Turner tinha fotos de alguns retornados, mas também tinha muitas fotos de baianos inclusive do Candomblé. Isto foi em 2006. Eu ai me ofereci para trabalhar como voluntária, processando a coleção do Dr. Turner. Eu já estava aposentada da minha carreira de Bibliotecária no Banco Mundial nesta época. Fiquei trabalhando como voluntária e me tornando grande conhecedora do material entre 2006 e 2007. Em 2008 o Museu me ofereceu um contrato para fazer uma exposição sobe a vida e o trabalho do Dr. Turner. Em 2009 me ofereceu um posto permanente de curadora, e aqui estou ate hoje. A exposição em inglês, com o titulo de Word Shout Song, abriu aqui no Museu em 2010 e foi um grande sucesso. Depois viajou por varias cidades dos Estados Unidos entre 2012 e 2014.

 

#FPCEntrevista – O que diferencia estas pesquisas e experimentações de Turner a outros pesquisadores da cultura e religiosidade afro-brasileira, a exemplo de Verger?

Alcione Amos O Dr. Turner era linguista, e como tal estava interessado nas línguas africanas  faladas na Bahia. Ele também tinha consigo um gravador e pôde assim gravar muitas horas de entrevistas com religiosdos do Candomblé. Já Verger era etnógrafo que estava interessado na cultura baiana. Verger, claro, era um grande fotógrafo, mas as fotos de Turner são excelentes também. Eu diria que o trabalho de um e de outro são complementares.

 

#FPCEntrevista – O que religiosos de matriz africana poderão encontrar na exposição “Gullah, Bahia, África” que os remeta às memórias de seus antepassados?

Alcione Amos - A exposição tem uma parte que fala da visita de Turner à Bahia e mostra algumas das fotos que ele fez quando esteve lá. Uma destas fotos mostra a famosa Mãe Menininha do Gantois acompanhada de suas filhas de santo. O famoso babalaô Martiniano Eliseu do Bomfim também está na exposição, e ainda numa exposição complementar na qual mostramos várias outras fotos de Martiniano, inclusive uma com sua esposa, e uma gravação onde ele conta para o Dr. Turner a sua vida em iorubá.

 

#FPCEntrevista – Quais relações o Smithsonian Museum vem estabelecendo com o Brasil e quais as perspectivas futuras destas relações?

Alcione Amos - A viagem de Gullah Bahia África pelo Brasil, como você sabe a exposição já esteve em São Paulo no Museu Afro Brasil, é uma grande oportunidade para o Anacostia Community Museum da Smithsonian Institution mostrar o seu trabalho, e expandir os seus contatos internacionais. Esperamos que estes contatos venham a trazer grandes frutos no futuro. O Museu está sempre interessado em trabalhar com comunidades nos Estados Unidos e no exterior.

 

turner#FPCEntrevista – Na Bahia, a senhora se encontrará com bibliotecários e museólogos baianos. Qual a proposta a ser discutida com estes profissionais?

Alcione Amos - Farei parte de uma mesa redonda para a troca de informações e experiências. Quero contar como trabalhamos aqui no Anacostia Community Museum e quero ouvir deles como trabalham nos seus museus. O meu colega Josh Gorman vai falar sobre a história do nosso Museu e sua evolução em quase 50 anos de existência.

 

#FPCEntrevista – Também na programação está uma palestra sobre os afro-brasileiros retornados ao solo africano, fundando comunidades. O que o público pode esperar desta palestra?

Alcione Amos - Este tema me é muito grato. Tenho estudado e publicado sobre os retornados por mais de 20 anos. Eu, como imigrante, fiquei fascinada com a história destas pessoas, quase todas elas que haviam sido escravizadas, e que conseguiram adquirir a sua liberdade e formar comunidades bem sucedidas nos territórios que hoje são conhecidos como os países de Gana, Benin, Togo e Nigéria na África ocidental. Na palestra eu vou contar esta história através de fotos, mapas e documentos. Algumas das fotos vieram da coleção fotográfica do Dr. Turner. Eu acho que o publico vai tomar conhecimento de uma historia até de certo modo desconhecida, mas que tem muito a ver com a Bahia.

 

menininha#FPCEntrevista – A coleção fotográfica de Lorenzo Dow Turner, qual importância deste e acervo do linguista para as comunidade africana e da Diáspora?

Alcione Amos - A coleção fotográfica do Dr. Turner relativa à Bahia mostra um momento em que a comunidade afro-baiana estava em transição. Os mais antigos, os que sabiam falar as línguas africanas, tinham estado na África como Martiniano, guardavam as tradições mais antigas do Candomblé, ainda estavam vivos. Algumas das fotos parecem ter sido tiradas na África, tão intensa ainda era a tradição africana na Bahia. Com o passar do tempo, inevitavelmente esta cultura foi diluída pela perda destas pessoas. Então eu acho que esta coleção de fotografias e as gravações que o Dr. Turner fez, são de grande importância para a história da Bahia. As fotografias dele são como uma janela para este tempo, e também de grande importância para qualquer estudante da historia da Diáspora Africana no Brasil.


Confira aqui toda programação desta exposição em Salvador.

Fonte: Fundação Pedro Calmon

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