Dossiê Revoltas: Levante dos Malês

malês

O Levante dos Malês

Ana Luiza Caribé / Lucas Borges

Os malês, como ficaram conhecidos os africanos mulçumanos na Bahia, eram parte de um grupo Oétnico chamado de haussá, proveniente do norte da África e que compunha várias nações. Além de partilhar a religião, este grupo tinha hábitos comuns como o uso do abadá, tipo de roupa branca, que cobria a maior parte do corpo. Para se identificarem em público discretamente, os malês utilizavam o kendé ou anel de malê como ficou conhecido na Bahia do século XIX. Após o levante de 1835 o uso dessas jóias foi banido. 

João Reis destaca que a facilidade de circulação dos escravos favoreceu a expansão do islamismo na Bahia. Os que sabiam ler e escrever árabe se encarregavam de ensinar os iniciantes tanto o a escrita quanto na religião tornando-se mestres. Como religião universal o islamismo conseguiu agregar libertos e escravos dandolhes uma perspectiva semelhante independente de sua origem étnica ou social. Mesmo tendo um nome de “batismo”, normalmente dado pelos senhores, os malês se tratavam e eram conhecidos por nomes vinculados à sua religião.

O movimento, que durou em torno de três horas, com os revoltosos percorrendo uma grande área urbana de Salvador e protagonizando conflitos com a polícia, demonstrou que os escravos tinham grande poder de mobilização e mobilidade, além de significativo conhecimento dos hábitos senhoriais e da cidade que passaram a habitar. A rebelião havia sido programada estrategicamente para o amanhecer do dia 25 de janeiro de 1835. O dia 25 de janeiro além de ser uma data estratégica no calendário de festas católicas – a festa de Nossa Senhora da Guia, que levaria uma multidão ao seu festejo, esvaziando a cidade – janeiro, como destaca João Reis, coincide com o mês do Ramadã no calendário islâmico. Desta forma, os rebeldes escolheram uma data coberta de significados e presságios para o momento que significaria sua liberdade.

A agitação dos escravos foi percebida, no dia anterior, por alguns africanos libertos que ouviram rumores no cais, local onde trabalhavam, sobre as articulações para um levante e a vinda de escravos de Santo Amaro, cidade do Recôncavo, para participarem de um movimento. Alguns deles buscaram avisar seus antigos senhores, que não tomaram maiores providências. Porém, a teia delatora prosseguiu alcançando o Juiz de Paz do 1º distrito da Freguesia da Sé, José Mendes da Costa Coelho, que imediatamente fez saber ao Presidente da Província, Francisco de Souza Martins, que deu ordens para uma revista completa na Freguesia da Conceição da Praia em todas as casas de africanos.

Por volta da uma hora da madrugada os soldados chegaram ao sobrado de Domingos Marinho de Sá, que sublocara a parte de baixo do sobrado a dois africanos libertos: Manoel Calafate e Aprígio. Alguns dos rebeldes estavam concentrados neste local aguardando o momento planejado para a sublevação, mas ao perceberem que o confronto era iminente uma parte dos amotinados se insurgiu contra os soldados e a outra escapou através dos quintais de casas vizinhas. Os revoltosos que saíram do sobrado se dividiram e partiram em varias direções. Percorrendo as ruas da cidade os insurgentes se apressavam em bater às portas convocando outros escravos e libertos a se unirem àinsurreição. Mesmo tendo seus planos frustrados pela delação é notável o alcance obtido pelo Levante dos Malês no que diz respeito à mobilização e adesão dos escravos, incluindo tentativas de assalto a vários prédios públicos estratégicos, como quartéis e a Casa de Câmara e Cadeia.

Após vários confrontos com a força policial em diferentes pontos da cidade, o movimento foi contido, mas um clima tenso permaneceu na cidade de Salvador. Os boatos não paravam de surgir sobre uma outra grande revolta que aconteceria na cidade ou em áreas do Recôncavo. Em vista disso, o presidente da província, Francisco de Souza Martins, pediu ao chefe de polícia, Francisco Gonçalves Martins, que fosse ágil no inquérito, julgamento e condenação dos acusados. Para atender tal solicitação, o chefe de polícia ordenou que os juízes de paz e policiais das 10 freguesias de Salvador, invadissem casas e lojas de libertos e escravos para procurar provas de participação no levante do dia 25, além de autorizar os senhores para que agissem da mesma forma com seus escravos. Qualquer objeto religioso islâmico ou mesmo do candomblé, ou a existência de armas no recinto, além dos escritos em árabe eram o suficiente para a prisão dos habitantes do local. No entanto, muitas pessoas foram presas unicamente por serem negras.

Nesta rebelião, a justiça, que normalmente privilegiava a preservação da propriedade senhorial, sobrepôs a punição exemplar ao interesse privado e condenou vários escravos à morte. Sendo que, três destes e um liberto foram executados ainda em maio de 1835. Mas boa parte dos condenados teve sua pena comutada após apelação. Muitos escravos tiveram acompanhamento legal, na maioria das vezes garantido pelos seus senhores, cujo interesse era preservar seu patrimônio.

O Levante dos Malês, além da série de rebeliões ocorridas no século XIX, seja escravas, federalistas ou populares, expuseram a fragilidade do sistema agro-exportador e escravocrata do Império Brasileiro e as fissuras na s o c i e d a d e  s e n h o r i a l , encerrando o ciclo de revoltas africanas que sacudiu a Bahia desde início do referido século.

Texto publicado originalmente na Folha Literária Ano V-33, 25 de janeiro de 2012 pela Fundação Pedro Calmon

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