SENTINDO SALVA-DOR. Por Daniel Rebouças


Coleção Kummler: imagens para memórias de Salvador


No carimbo de cor azul: Vistas da Bahia, 30 de agosto de 1890. No canto superior de várias fotografias, o comerciante e industrial do ramo de eletricidade, o suíço Hermann Konrad Kummler (1863-1849) marcou essa informação parte de sua preciosa coleção de imagens da Bahia do século XIX. A data provavelmente era um registro do dia que adquiriu parte desse grande conjunto de fotografias, durante sua passagem por Salvador. Não saberia informar ainda se foi a única vez que posou na capital do Estado, mas sei que possuía uma relação familiar mais antiga com a cidade. Para ser mais preciso, fazia pouco mais de dois anos que já morava em Recife, vindo da Europa para trabalhar na casa de importação Cramer, Frey & Co., de propriedade de seu tio, Conrad Cramer-Frey. Como o grupo possuía ramificações no Rio de Janeiro e na Bahia, Kummler aproveitou para encaixar viagens para essas regiões do país, conhecendo esses importantes centros urbanos anos imediatos à Abolição e à proclamação da República.¹


Em um texto recente, Antonio Luigi Negro salientou como marcações escritas pelos remetentes em postais são chaves que abrem portas para compreensão das relações sociais de uma época, complementando aquilo que já se vem estudando sobre os retratistas e aos sujeitos representados. Comuns em cartões postais, mas também em fotografias, essas anotações eram geralmente uma breve felicitação corriqueira ou uma mensagem em alusão a um assunto cotidiano entre os correspondentes, já tão distantes no tempo que passava desapercebida. Mas, com alguma dose de sorte, podemos encontrar escritos que nos dão nitidez às relações sociais do passado ou a certos imaginários, que, tão naturalizados, nem sempre aparecem explícitos em outros documentos. E foi seguindo toda essa trilha que me atentei tanto ao carimbo que mencionei acima, como para outras pequenas anotações feitas pelo próprio Kummler nas fotografias de sua coleção sobre a Bahia.²


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(Imagem 01 - crédito: Sitio Conrad Cramer-Frey, Bahia. c. 1870. Coleção particular/Swanngalleries). 


O leitor já deve ter reparado que não há carimbo no retrato acima - apenas uma anotação à mão feita pelo suíço: “Sítio Cramer Conrad-Frey”, Bahia. Em tese, mais uma marcação pessoal, a informar apenas que esse casarão, na Freguesia da Vitória, possivelmente entre o atual Largo do Campo Grande e o início da Avenida Sete de Setembro, no Bairro da Vitória, foi local de morada do seu tio à época que viveu na cidade, entre 1862 e 1868³. Mas olhando melhor a coleção, identifiquei que Kummler fez comentários semelhantes em outras fotografias, como em uma imagem de carregadores de cadeirinha de arruar (imagem 02). Nela escreveu: “usada como meio de transporte meus pais em 1860 a 1865”.  Mais do que de saciar o interesse dos seus parentes europeus em ver algo do “exótico dos trópicos”, essas imagens e anotações do negociante suíço serviam para dar uma materialidade visual à sua memória e dos seus familiares, ilustrando, neste caso, um pouco do cotidiano dos seus pais quando esses ganhavam a vida na firma comercial, Kummler & Comp., à Rua Direita do Comércio, n° 13.4 


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            (Imagem 02 – Crédito: SCHLEIER, J. (atribuída) Carregadores de cadeira. c. 1870. Coleção particular).


A toda sorte, a fotografia do casarão da Vitória abre uma trilha para se construir uma memória mais plural como dessa parte da cidade. Uma boa comparação foi ser os postais referentes ao Clube Alemão, ou Clube Germânia, cuja origem remontaria à Associação Germânia da Bahia, fundada ainda em 1873. Embora não fique claro se essa associação já funcionava no local desde essa época, o escritor Ubaldo Marques Porto Filho afirmou que a casa pertencia na verdade ao rico comerciante Francisco Fernandes de Mesquita, mas que, conforme consta em seu testamento e na memória oral da família, sempre fora alugada aos “alemães”.5


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(crédito: Bahia, Club allemao. Albert Aust. Série Süd-Amerika 1239. Fototipia, Hamburgo, 1898. Disponível em: <https://www.delcampe.net/en_US/collectibles/stamps/brazil/covers-documents-10/brazil-brasil-1903-picture-postcard-bahia-club-allemao-german-club-to-isle-adam-france-411600866.html>. Acesso em 21 Mar. 2021.


Elo de integração da comunidade germânica da cidade, como os suíços, ainda de acordo com o escritor, ali era um dos melhores clubes da cidade até o ano de 1942, quando, em razão das tensões causadas pela Segunda Guerra Mundial, a agremiação deixou o local. Por todo esse tempo, os postais mundo afora, ainda que não somente, enfatizavam ali um dos símbolo de civilização de Salvador, em virtude do seu público e dos divertimentos dito elegantes, como bailes, noites beneficentes, shows de música de câmara, de quadras de esporte, tardes de pista hípica, entre outros.

Outro cotidiano e outros sujeitos históricos saltam à vista da fotografia da coleção do Kummler. Por ora, não posso cravar que são seus familiares à direita da imagem, o que me ajudaria a saber mais sobre os trabalhadores domésticos ali presentes, seus nomes, se africanos ou brasileiros, se em condição de escravizados ou de livres. Contudo, tudo indica que se trata de mais uma das raras fotografias do alemão Joseph Schleier (1831-1903) a compor a coleção de Kummler. De biografia pouco conhecida, o artista divida seu tempo, no final da década de 1860, entre o comércio de pianos e a venda de suas fotografias, embora não tão empenhado como seu parceiro temporário Guilherme Gaensly. Tudo à Rua de Baixo, n° 26, atual Carlos Gomes.7 Já por volta de 1882, Schleier mudou-se para a Rua Direita do Palácio, atual rua Chile. Sujeito bem antenado às novidades progressistas do século, instalou um dos primeiros pontos de telefone da cidade, com direito a testes ao som dos seus próprios piano, além de gostar de reunir parte da militância abolicionista popular, segundo Teodoro Sampaio.8

Teria o proprietário da casa encomendado a Schleier uma fotografia de sua residência para eternizar uma imagem de distinção social e de poder, sobretudo pela presença ordenada dos trabalhadores? É provável. Nos primeiros da década de 1870, período da tomada da fotografia, o debate público no Brasil sobre o fim da escravidão vinha bem aquecido: fugas de escravos, ação de grupos emancipacionistas, abolição nos EUA e Lei do Ventre Livre, entre outros fatores. Talvez o senhor da residência tinha ali motivos suficientes para eternizar uma imagem de harmonia e de controle (vide detalhe 1), “apaziguando” a escravidão diante de tanto barulho fora da casa.9 Já em relação a Schleier, não identifico indícios de uma perspectiva abolicionista nessa fotografia, ainda mais considerando que o engajamento na causa da década de 1870 certamente não era o mesmo de anos mais tarde. A imagem dos trabalhadores negros meio desfocados, com rostos indefinidos, não parecer sugerir, como mais tarde fizeram outros fotógrafos, uma denúncia contra escravidão, a brutalizar africanos e brasileiros e a atrasar o progresso do país.10


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                   (Detalhe 01: Sitio Conrad Cramer-Frey, Bahia. c. 1870. Coleção particular/Swanngalleries).


Se há um tanto de pesquisa por se fazer sobre a imagem, encerro reforçando como fotografias e coleções icnográficas como a Hermann Kummler podem contribuir para minorar os esquecimentos que cercam a memória pública sobre a história da escravidão em Salvador. Ao se conhecer novas vistas sobre conhecidos espaços urbanos, levando em conta o documento iconográfico como um todo, ganhamos pistas sobre a circulação e os usos de imagens da cidade nos anos imediatos que seguiram à Abolição e a proclamação da República, momento crucial de se disputa sobre um passado que muitos não queriam mais lembrar, ou em alguns casos apagar. E que fique claro: não se trata de negar as outras memórias da casa, dos seus diversos moradores e seus mais variados usos no tempo. O esforço é outro: partir da iconografia para escritas que colaborem com a construção de narrativas sobre o passado de Salvador cada vez mais plurais e democráticas, valores fundamentais para a construção de um país mais justo. 







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Daniel Rebuças é licenciado e bacharelado em História pela Universidade Federal da Bahia (2006 e 2008), com mestrado em História (2011-2013/ PPGH\UFBA) e doutorando pela Universidade Federal da Bahia (2015). Desenvolve, desde 2005, pesquisas na área de história política e humor na Bahia da Primeira República, além de exercer a função de coordenador de pesquisas históricas pela Editora Caramurê,com quatro livros publicados. Tem experiência como professor na rede de ensino básico e superior na rede estadual e privada, plataforma virtuais de aprendizagem e EAD. 



 



Notas:
1-KUMMLER-SAUERLANDER, Hermann. Obituary. ETH-Bibliothek. Verhandlungen der Schweizerischen Naturforschenden Gesellschaft: N° 129, 1949. FISCHER, Thomas. Als Kaufmann in Pernambuco (1888-1891): Ein Reisebericht mit Bildren aus Brasilien. Iberoamericana Nueva Epoca. Ano 3, N° 11, 2003. p. 333-335,

2- NEGRO, Antonio Luigi. O cartão-postal no Brasil no início do século XX: suporte para o encontro entre imagem e ação. História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro. V. 27, n° 3, 2020. P. 967-982.

3-BURGI, Markus. Cramer-Frey, Conrad. Historisches Lexikon der Schweiz (HLS). Disponível em: < https://hls-dhs-dss.ch/de/articles/003624/2015-11-18/>. Acesso em: 18 Mar. 2021

4-MASSON, Camilo de Lelis. Almanak Administrativo, mercantil e industrial da Bahia.  Salvador: Tipografia Camilo de Lelis Masson, 1860. p. 359

5-PORTO FILHO, Ubaldo Marques. Clube Alemão em Salvador. [online]. Disponível em: <https://nelsontaboada.wordpress.com/2015/04/13/clube-alemao-de-salvador/>. Acesso em: 19 Mar. 2021.

6-Embora seja necessário pesquisas mais aprofundadas, encontrei registros de atividades no Clube Germânia apenas a partir de 1888, com mais constância os primeiros anos republicanos. CLUB Germânia. Diário de Notícias. Salvador, p. 1, 05 Nov. 1888. KIJ e Lennep. Diário da Bahia. Salvador, p. 1, 11 Dez. 1889. MAIS donativos. Cidade do Salvador. Salvador, p. 2, 31 Ago. 1897.

7-Em uma das fotografias do Schleier da coleção de Kummler aparece o endereço da Rua de Baixo como ponto de comércio da imagem. ESTABELECIMENTO de Pianos. Diário da Bahia. Salvador, p. 4, 24 Mai. 1882. GLEDHILL, Sabrina. Guilherme Gaensly. HANNAVY, John. Encyclopedia of Nineteenth-Century Photography. New York, Taylor & Francis, 2007. p. 565-567. MENDES, Ricardo. Gaensly na Bahia: a terra e o homem. [online]. Disponível em :< http://www.fotoplus.com/download/gaensly-na-bahia-2014.pdf>. Acesso em: 19 Mar. 2021.

8-SAMPAIO, Teodoro. Medalhas. Abolicionismo. [s.p.] [s;d]. Acervo IGHBA

9-MUAZE, Mariana A. F. Violência apaziguada: escravidão e cultivo do café nas fotografias de Marc Ferrez (1882-1885). Revista Brasileira de História. Vol. 37, N° 74, 2017.

10-SCHWARCZ, Lilia. MACHADO, Maria H. P. T. sob olhar fotográfico: Marc Ferrez e o trabalho escravo às vésperas da abolição. Emancipação, inclusão e exclusão: desafios do passado e do presente. São Paulo: Edusp, 2018. p. 189-213.




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