TABULEIROS DE HISTÓRIAS

dfdf




TABULEIROS DE HISTÓRIAS

Por: Alane Rios


Quem passa pela Praça da Sé, no Centro Histórico de Salvador, pode não resistir ao cheiro dos acarajés fritando no azeite de dendê, em grandes frigideiras de várias baianas da região. Uma delas é Dulce Mary de Jesus, ou Mary, como é chamada por seus amigos e fregueses. Ela, e a irmã Dulcenéa de Jesus, são companheiras de tabuleiro, e a terceira geração de mulheres da família, que mercam na Praça da Sé.
xx
Foto 1 - Dulce Mary dos Santos
Mary conta que começou o ofício de baiana ainda na barriga da mãe, dona Eulina de Jesus, 68 anos, que por sinal, chegou na praça aos 11 anos de idade, junto com a avó, no ano de 1960. Mary, atual gestora do ponto familiar que soma 57 anos, se orgulha da profissão, da qualidade dos seus quitutes e do bom humor com que trabalha. O freguês de Mary vai encontrar, além de acarajé, abará, os recheios típicos, como caruru, vatapá, salada e camarão, outros quitutes como passarinha, bolinho de estudante, cocada de coco, amendoim, e uma cocada mole no pote de fazer criança e adulto se desmanchar.
Mary se emociona ao contar a história da família. “Não tivemos uma vida fácil. Meu pai teve problemas de saúde que interferiu muito
na vida da gente. Minha mãe teve que sustentar sozinha a casa, com 11 filhos. Eu e meus irmãos ajudamos, sempre com muita dignidade”. Assim como Mary, a baiana Mairalda de Oliveira tem tradição familiar no ofício, sua mãe também era baiana, e foi na família, toda devota do Candomblé, que ela aprendeu a fazer o acarajé. Dona Mairalda, há quase 50 anos, trabalha com seu tabuleiro no Porto da Barra. Ela conta orgulhosa que nestes anos de profissão sempre fez questão de reciclar suas técnicas de trabalho. “Sou baiana desde que nasci. Aprendi na família, mas já fiz muitos cursos de culinária voltados pra nosso oficio”.
Atualmente dona Mairalda trabalha de terça a sábado no memorial da Associação de Baianas de Acarajé, Mingau, Receptivos e Similares (ABAM), localizado na Cruz Caída. “Adoro trabalhar na ABAM. É sempre muito movimento. Eu gosto de conversar com os visitantes, e aqui dou muitas risadas”. O tabuleiro, ela monta apenas aos domingos, dia de maior movimento, sempre no Porto da Barra.
Dona Maria Luzia, 79 anos, é companheira de dona Mairalda na ABAM. Elas duas são responsáveis por receber os visitantes no Memorial das Baianas, ou “Museu das baianas”, como elas preferem chamar. A baiana Luzia, há mais de 20 anos, baianas”, como elas preferem chamar. A baiana Luzia, há mais de 20 anos, se dividia entre o tabuleiro, e o trabalho na associação. Hoje, por questões de saúde, ela trabalha exclusivamente como “guardiã da memória das baianas”. E em momentos especiais, eventos, e festas populares, Luzia volta para o tabuleiro, que divide com outra baiana, a Rita Santos, coordenadora do conselho nacional da ABAM.
jh
Foto 2 - Mairalda de Oliveia

df
Foto 3 - Rita Santos
A ASSOCIAÇÃO DAS BAIANAS
 
Dona Rita Santos, coordenadora do conselho nacional da ABAM, é carioca, mas mora na Bahia há mais de 30 anos. Ela conta que no ano de 2001 um amigo, que hoje é seu irmão de santo, levou-a em um samba de roda no Campo Grande, e ela se encantou. Uma semana depois ela voltou no samba já vestida de baiana, na semana seguinte, virou voluntária na ABAM. Na associação, dona Rita aprendeu os requintes da culinária baiana, e hoje ela cozinha todos os quitutes tradicionais do ofício.
Em 2003, dona Rita passou a fazer parte da diretoria. Em 2004 virou presidente, e atualmente está em sua terceira gestão. Ela conta que vive a associação dia e noite, e em seu tempo de dedicação à ABAM, as baianas conseguiram diversas vitórias na valorização do ofício, como o reconhecimento como patrimônio imaterial, desde 2005, pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). E o reconhecimento pela Classificação Brasileira de Ocupações (CBO), em julho deste ano, o que garante direitos como: aposentadoria, auxílio doença em casos de acidentes de trabalho, cadastramento enquanto Microempreendedor Individual, e a inclusão da profissão em documentos como carteira de trabalho.
Vestir-se com os trajes típicos das baianas, trabalhar na rua com o tabuleiro e ser registrada na ABAM ou na prefeitura local, são pré-requisitos para usar o CBO de baiana e ser reconhecida enquanto patrimônio. E ainda que com vitórias importantes, a categoria enfrenta alguns desafios, como o mapeamento e registro das baianas espalhadas pelo Brasil, e a promoção da importância de exigir os direitos garantidos.
cv
Foto 4 - Rita Santos
Segundo a Plataforma de mapeamento Oya Digital (www.oyadigital.com.br), desenvolvida pelo Iphan, em parceria com a ABAM, há em exercício mais de 5 mil baianas, nos estados da Bahia, Rio de Janeiro, Ceará, São Paulo, Pernambuco, Rio Grande do Sul, Amazonas, e Distrito Federal. Deste contingente, 90% são mulheres, e 10% são homens. Fortaleza (CE) é a única cidade que há mais homens do que mulheres na profissão, e 10% são homens. Fortaleza (CE) é a única cidade que há mais homens do que mulheres na profissão.Rita Santos chama atenção que estes dados são subnotificados. Ela explica que “pelo costume da informalidade, muitas baianas ainda não se convenceram da necessidade do cadastro enquanto profissional”. Segundo dados da prefeitura de Salvador, há cerca de 700 baianas no município, no entanto, um cadastramento feito pela ABAM mapeou, apenas nas praias da cidade, mais de 500 baianas.
 Rita estima que existam cerca de 3500 baianas em Salvador. Rita destaca que outra atual demanda importante para as baianas é a revalidação do título de patrimônio, dado pelo IPHAN em 2005, vencido desde 2015. “É preciso revalidar a cada 10 anos, e uma das pendências que estamos enfrentando junto ao IPHAN é a questão das roupas. Eles nos cobram que muitas baianas não estão trajadas e mercando da forma exigida. O caso é que a associação tenta conscientizar de diversas formas, mas não temos poder de fiscalização. O estado e a prefeitura precisam fiscalizar e não fazem”.
ABAM - DA NECESSIDADE À ORGANIZAÇÃO

Atualmente a ABAM tem sede em oito estados do Brasil, mas nem sempre foi assim. A associação nasceu muito menor, em 1992, na laje da baiana Clarice dos Anjos, na R. da Mangueira, no bairro de Itapuã, em Salvador. Naquela época, a maior parte das baianas eram associadas ao Culto Afro Brasileiro, primeira entidade no Brasil a cuidar dos interesses de comunidades religiosas de matriz africana. O Culto Afro assinava a carteira de trabalho das baianas, mas não contribuía com o INSS.
Certa vez, a mãe de Clarice, dona Maria Matilde dos Santos, que também era baiana, precisou de um médico e ela levou a carteira de trabalho da mãe para tentar receber um auxílio doença, e fazer um seguro saúde, e não conseguiu. Clarice se revoltou e começou a fazer um curso de baiana na laje dela. Assim nasce a Associação de Baianas de Acarajé (ABA), que depois agrega as vendedoras de Mingau à sigla.
Atualmente a ABAM é organizada em Conselho Nacional e Coordenadorias Estaduais e Municipais. O conselho nacional é formado por Leonora Aparecida, de São Paulo, Equede Débora, do Rio de Janeiro, Mãe Bia, de Fortaleza, e as baianas: Noélia Pires, Solange Santana, Maria de Lourdes, Lindinalva Silva, Lindinalva Nila, Claudiana Silva, Angelimar Trindade e Rita Santos, coordenadora nacional do conselho. Na Bahia, há núcleos municipais da ABAM em: Lauro de Freitas, Santo Antônio de Jesus, Jaguara, Vera Cruz, Candeias e Camaçari e Caitité.
Entre os benefícios de ser uma baiana associada à ABAM está a possibilidade de convênios com seguros de saúde, cursos de culinária, segurança alimentar, empreendedorismo e administração, além de assessorias jurídicas do campo do trabalho, quando necessário. Muitos bancos também passaram a perceber as baianas como profissionais que movimentam recursos financeiros consideráveis. “Até 2005 nenhum banco queria dar credito pras baianas. Hoje em dia bancos e seguros me ligam pedindo que eu oriente as baianas a irem até eles”, comenta a presidente. Regulamente a associação faz vistorias entre as associadas, para garantir que atuem dentro dos parâmetros.

RELIGIOSIDADES E O OFÍCIO DE BAIANA

“O acarajé vendido na rua não tem nada a ver com religião, é um alimento como outro qualquer, não é de Jesus, nem de Orixá”. A fala é do babalorixá e doutor em antropologia, Vilson Caetano. Ele, que é autor da tese “Usos e abusos das mulheres de saia e do povo do azeite: notas sobre a comida de Orixá no terreiro de candomblé”, insiste em afirmar que é necessária a separação do oficio de baiana, da religiosidade de quem a faz. Ainda assim, ele defende que por mais que a profissão deva estabelecer uma prática “laica”, a estética do tabuleiro e a indumentária de baiana, que se assemelha às roupas usadas pelas mulheres nas religiões de matriz africana, precisam ser mantidas pela preservação da história e da cultura.
A coordenadora nacional da ABAM, Rita Santos, conta que antigamente no Candomblé, durante as obrigações de Yansã e Xangô, os fiéis, especialmente as mulheres, saíam pelas ruas com o tabuleiro na cabeça, mercando acarajé e abará, para realizarem as obrigações para estes Orixás. “Como até hoje fazem no mês de agosto, com a flor do velho¹ ”.
Segundo Rita, até a década de 1950, a maior parte das baianas nas ruas de Salvador eram do Axé. “Com o passar do tempo, muitas foram se convertendo a religiões evangélicas”, conta a baiana, que defende que existe uma investida de alguns setores das religiões evangélicas, principalmente na Bahia, de descaracterizar o ofício, vendendo acarajé como “bolinho de Jesus” e não vestindo as roupas de baiana.
dfdf
Foto 5 - Vilson Caetano
“As mais radicais são as que já foram de terreiro e viraram evangélicas. A baiana pode seguir a fé que quiser, mas o acarajé continua sendo de matriz africana. O acarajé não mudou de lugar”, defende a presidente da ABAM.
Rita, que coordena a ABAM nacionalmente, e conhece o cotidiano de outros estados, lamenta que a investida neopentecostal de descaracterização das baianas acontece principalmente na Bahia. “Justo aqui, onde tudo começou. Em Fortaleza, Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília, não enfrentamos esse problema”.
Através da ABAM, Rita tenta dialogar com as baianas sobre a importância de manter a tradição, “mas elas não me ouvem”, por isso ela passou a pensar em parcerias com lideranças religiosas evangélicas que entendem a necessidade da preservação da cultura. “A ABAM já teve uma diretora evangélica, que sabia da importância de se vestir como baiana. A religião dela está na igreja dela, na casa dela. O ofício de baiana precisa preservar as vestes”.
Atualmente, a associação das baianas está em parceria com um pastor evangélico, através de uma campanha de sensibilização das profissionais sobre a importância de manter a tradição: “ele visita as baianas da região de Pituaçú, Patamares, Boca do Rio e Piatã, para falar da importância de usar a roupa e que isso não atrapalha de professar a religião evangélica”.
AS ROUPAS

“O que é que a baiana tem? Tem torço de seda, tem!
Tem brincos de ouro, tem! Corrente de ouro, tem!
Tem pano-da-Costa, tem! Tem bata rendada, tem!
Pulseira de ouro, tem! Tem saia engomada, tem!
Sandália enfeitada, tem! Tem graça como ninguém”
.
Os versos da música “O que é que a baiana tem”, dos músicos Dorival Caymi e Ary Barroso, são inspirados na yalorixá e baiana Gaiaku Luiza, descrita pelo antropólogo Vilson Caetano como uma das baianas mais iconográficas que já existiu.
eetr
Foto 6 - Gaiaku Luiza
O professor Vilson Caetano explica como surgiu a tradição das roupas das baianas. Ele conta que durante o Brasil Colônia e Império, usar saias era um demarcador social das africanas e descendentes. “As mulheres de família, e da sociedade, ou seja, as brancas, sempre usavam vestidos. Vestir saias coloridas era característico das escravizadas, ou libertas, que saíam pelas ruas também com grandes turbantes e panos da costa, de tecidos africanos, e muitos balangandãs, vendendo todo tipo de comida em tabuleiros que levavam na cabeça”. Destas mulheres, nasce o termo baiana.
E se de um lado, há quem ataque a tradição, na maioria dos outros, as baianas de hoje, como sempre, sabem que suas roupas são símbolo de beleza, vaidade e orgulho. Dona Luzia, que trabalham na ABAM, diz que adora se vestir de baiana. Ela descreve o ritual de suas vestes: “Visto 7 anáguas, o calçolão, o camisu, a calcinha e o sutiã, o forro da saia, a saia, a bata e o torço.
Quando eu me visto de baiana, só gosto de sair no salto, sandália baixa não combina. É muito roupa, pra quem gosta de se vestir bem, como eu”. A baiana vaidosa, hoje com 79 anos de idade, inventou técnicas para que as roupas fiquem mais confortáveis, “eu substituí todos os cordões das anáguas e das saias por elástico, como gosto de muito pano, o cordão amarrado acaba machucando”.
Mary, a baiana que é a atual administradora do ponto familiar de 57 anos, na Praça da Sé, se declara uma baiana fashion. “Gosto de trabalhar bem arrumada, com torços grandes e imponentes, roupas coloridas de bons panos africanos e sandálias de salto”, conta ela, com a postura irreverente e cativante.
adasd
Foto 7: Duce Mary e Dulcenéa de Jesus
ROTINA DE TRABALHO

A família de Dulce Mary de Jesus trabalha em equipe. Ela e a irmã Dulcenéa de Jesus que vendem hoje onde a mãe e a avó vendiam. A mãe delas, dona Eulina de Jesus, que prepara os alimentos. “Minha mãe acorda às 3h30 da manhã todos os dias e prepara tudo. Eu saio de casa às 8h, fico no ponto até umas 19h”. Dona Eulina, assumiu o ponto da Praça da Sé depois que a vó de Mary faleceu. Atualmente, além de preparar os alimentos que Mary e a irmã vendem no ponto que é delas desde o ano de 1960, ela também vende na porta de casa, no bairro da Liberdade.
DA TRADIÇÃO ÀS ATUALIZAÇÕES

A história de Dona Florianita de Jesus, a yalorixá Mãe Flor, é um clássico exemplo que o ofício de baiana cruza a tradição, com a resistência e a subversão que só poderia vir de onde veio, das mulheres negras. Mãe Flôr tem 95 anos e é baiana aposentada. Ela começou a vender os quitutes pelas ruas da cidade baixa de Salvador na década de 1940, quando ela e a família moravam no bairro do Uruguai. Ela alcançou o tempo em que as baianas e quituteiras ainda caminhavam com o tabuleiro na cabeça, carregando as mais diversas iguarias. O antropólogo Vilson Caetano sugere que uma das possíveis explicações para a mudança na forma de mercar de itinerante, para fixa, que acontece a partir da
fgfhfh
Foto 9: Mãe Flor
década de 50, é necessidade da cidade de controlar a venda das comidas.
Além de acarajé e abará, Mãe Flor vendia peixe frito, amendoim torrado e cozido, pamonha, lelê, passarinha, bolinho de estudante e cocada. “No meu tabuleiro tinha de tudo. E assim eu criei meus filhos”, conta a velha baiana, que além das dificuldades do ofício, teve que encarar o marido discordante para seguir trabalhando. “Ele não queria me ver na rua”.
Mas o marido de Mãe Flôr passou muito tempo desempregado e com a venda do acarajé ela sustentava a casa. Ela conta que sua primeira venda foi escondida, pegando 1 kg de feijão que o marido tinha comprado para a alimentação da família, “peguei na despensa, fiz o acarajé e saí pra vender na porta de uma comadre”.
 dfgdf
Foto 10: Pedra para triturar feijão de Mãe Flor
O tabuleiro itinerante, que virou pontos fixos da venda, não é a única mudança na tradição do ofício de baiana. O delivery dos ingredientes, organizado por lojas e feiras da cidade, também é uma novidade bastante comemorada pelas baianas. “A gente não precisa mais ir a feira todos os dias como antes, não dava pra comprar e guardar, porque os ingredientes do acarajé precisam ser frescos, do dia”, explica Dona Maria Luzia dos Santos.
A chegada do moinho do feijão tropeiro substituiu a pedra, instrumento onde a massa era ralada. “No meu tempo eu tinha que botar o feijão de molho, quebrava pra depois voltar a catar, depois que catava voltava a ralar, tudo na pedra. Só depois eu ia bater a massa”, lembra Mãe Flor. “Hoje em dia vende até massa pronta no mercado. A vida delas está bem mais fácil”, brinca a baiana anciã.

Os cursos oferecidos pela ABAM são considerados por elas outro fator importante do aproprimoramento do trabalho das baianas. “Fazemos cursos de culinária e manipulação de alimentos, para aperfeiçoar as formas de cuidado e conservação dos nossos ingredientes”, conta a baiana Mairalda Soares, que possui mais de 50 anos de ofício.

ACARAJÉ, O BOLINHO

Assim como o modo de mercar foi se atualizando, a forma do bolinho feito de feijão fradinho, também passou por mudanças. Em tempos de tabuleiros itinerantes, o bolinho chegava na rua pronto, e era servido apenas com pimenta. Hoje ele começa a ser feito em casa e termina na rua. O acarajé teve seu tamanho aumentado, e ingredientes de recheio (caruru, vatapá, salada) foram incluídos. Uma das explicações apresentadas pelo Professor Vilson Caetano “foi a necessidade de concorrer com outras comidas que passaram a circular na rua, a exemplo do cachorro quente e hambúrguer”.
Falando da versatilidade da comida em se adequar as conjunturas, o antropólogo destaca a modificação do tamanho, mais uma vez reduzido, e diante da atual crise econômica o acarajé passa a ser vendido em multiplicados pontos na cidade a R$ 1,00.

ACIDENTES DE TRABALHO

Infelizmente, não é incomum ouvir das baianas casos de acidentes de trabalho, como queimaduras graves. Certa vez aconteceu com dona Mairalda Soares, a anfitriã do Memorial das Baianas na ABAM. A frigideira cheia com azeite quente caiu no seu pé, ela teve queimadura de 3º grau e ficou dois meses de cama. “Minha irmã, não pensei que isso doía tanto. Eu gritava, chorava, foram dois meses de tormento, depois começou a aliviar”. Ela, que mora sozinha, contou com a solidariedade das vizinhas, do bairro da Chapada do Rio Vermelho, durante o processo de recuperação.
A companheira de Mairalda no memorial, dona Maria Luzia, em 2015 ficou três meses doente, com dores fortes e crônicas no ombro, por conta do esforço repetitivo no trabalho. “Hoje em dia eu não posso mais bater massa”. Quando vende, ela divide o tabuleiro com dona Rita, que é quem faz as comidas, e as duas vendem.

DISCRIMINAÇÃO

“Eu tenho revolta com o racismo. Algumas pessoas discriminam baianas de acarajé e eu sei que é por causa do racismo”. Dulce Mary é taxativa ao falar de sua indignação de como muitas pessoas motivadas por ideologias racistas discriminam as baianas, “imaginem, numa cidade como Salvador, toda enraizada na África”. A baiana conta várias situações que percebeu que foi discriminada. “Eu já perdi um namorado quando soube que eu era baiana, mas que bom que ele foi, não valia a pena. As pessoas deveriam abrir a mente pra isso, somos todos iguais”. Ela segue falando, que não é só com as vestes de baiana que ela percebe o racismo. “Fico cheia de ódio quando entro em um shopping, e percebo seguranças me seguindo. Ou quando entro numa loja e a vendedora sugere que não posso comprar alguma coisa. Mas eu sou questionadora, sempre contesto e vou atrás dos meus direitos”.
Dona Mairalda Soares conta que o reconhecimento do ofício enquanto patrimônio cultural da Bahia é a maior felicidade, mas ela também percebe, que ainda assim, a profissão é discriminada: “muita gente desfaz. Às vezes quando ando na rua de baiana, algumas pessoas olham e me dizem ‘Jesus te ama’, e ela responde ‘moça, Jesus ama nós todos’”.
EMPREENDEDORISMO NEGRO

O termo que ganhou repercussão nos últimos anos é uma prática cultural das populações negras há muitos séculos, desenvolvida nas Américas e em África, é o que explica o professor e antropólogo Vilson Caetano. “Os africanos são grupos humanos que historicamente se destacam pela arte de mercar. Antes do contato com os portugueses eles já faziam trocas com a China, a Indonésia, e entre as civilizações do próprio continente africano. Os senhores de escravos, logo perceberam essa habilidade, e assim, nos contextos urbanos, alguns escravos vão as ruas vender todo tipo de mercadoria produzida nas fazendas, são os escravos de ganho.
DGFG
Foto 11: Fotografia do Cadernos do IPAC, n° 5 Festa de Santa Bárbara
A coordenadora nacional da ABAM, Rita Santos concorda: “hoje se fala muito em empreendedorismo negro, sem reconhecer que as primeiras empreendedoras foram a quituteiras, e baianas de acarajé”.


NOTAS:
¹ “Flor do velho” nome dados à pipoca distribuída pelos filhos e filhas de santo em devoção ao orixá Omolu/ Obaluaê.

REFERÊNCIAS DAS FOTOGRAFIAS:
Foto 1: Dulce Mary Santos fotografia de Alane Reis.
Foto 2: Mairalda de Oliveira fotografia de Alane Reis.
Foto 3: Maria Luzia fotografia de Alane Reis.
Foto 4: Rita Santos fotografia de Alane Reis.
Foto 5: Vilson Caetano acervo pessoal.
Foto 6: Gaiaku Luiza fotografia do Jornal A Tarde de 1951, p.2.
Foto 7: Duce Mary e Dulcenéa de Jesus fotografia de Alane Reis.
Foto 9: Mãe Flor fotografia de Jamile Coelho
Foto 10: Pedra para triturar feijão de Mãe Flor fotografia de Jamile Coelho
Foto 11: Fotografia do Cadernos do IPAC, n° 5 Festa de Santa Bárbara


JH

Recomendar esta página via e-mail: