Dona Dalva Daminana: De charuteira a Sambarista

0


0

"Durante a minha visita [à cidade de Cachoeira], fui honrada com a possibilidade de atender uma oficina oferecida na Irmandade [da Boa Morte] e também de passar um tempo na Roda de Samba da Dona Dalva. Tive a oportunidade de aprender sobre o trabalho de Dona Dalva na preservação do samba de roda. Recentemente ela recebeu um título de doutora honoris causa pela Universidade Federal do Recôncavo Baiano."
(Angela Davis - 25/07/2017 
Conferência na Reitoria da Universidade Federal da Bahia)
Angela Davis











Histórica e economicamente importante o Recôncavo Baiano abrange geograficamente a região da Bahia de Todos os Santos. Grande produtora e exportadora de açúcar e de fumo de corda até o século XIX, durante o período escravocrata. Em meados do século XIX, as primeiras manufaturas de fumo foram fundadas no Recôncavo Baiano, trazendo mudanças significativas na forma de produzir e exportar o tabaco. Foi nesse contexto que as duas principais fábricas de charutos foram instaladas, a Dannemann e a Suerdieck, ambas fundadas por imigrantes alemães. No início do século XX o Recôncavo começa a ganhar destaque como região produtora de charutos.
Mapa recôncavo - Cachoeira

Imagem 1


Fabricação de charuto

Imagem 2 - Fabricação de charuto

A fabricação de charutos artesanais é composta por diversas etapas, cabendo na época aos homens o cultivo a colheita e tratamento das folhas de fumos, a fiscalização e também a confecção do fumo de corda; às mulheres e crianças cabia a feitura do charuto em si; enrolando as folhas para que assumisse o formato ideal. Os charutos produzidos na Região de Cachoeira e do Recôncavo eram comparados aos mais famosos do mundo, os charutos cubanos. 
A fabricação de charutos do Recôncavo baiano foi o grande movimentador da economia nos fins do século XIX e, Dona Dalva, nossa personagem dessa exposição, trabalhou em ambas as fábricas sendo que sua arte teve início na fábrica da Suerdieck. 




500

Imagem 3

Dalva Damiana de Freitas aprendeu ainda adolescente a enrolar charutos, assim como a sua mãe. Vivenciou a múltipla jornada de trabalho conferida às mulheres e se dividia entre os trabalhos domésticos e de charuteira. Nesse contexto em que as mulheres praticamente não tinham lazer surgiram as cantigas de trabalho que buscavam tornar mais leve a luta cotidiana. Foi em 1958, com aproximadamente 31 anos que Dona Dalva juntou-se com colegas de trabalho e criou um Samba de Roda que se apresentava nos festejos religiosos.
Dona Dalva

Imagem 4


Boa Morte
                  Imagem 5
Dona Dalva é uma autêntica representante da cultura do recôncavo. Através do samba de roda pôde dar visibilidade à mulher pobre e negra com baixa escolaridade que desde cedo precisou assumir o papel de mulher forte e soube como ninguém utilizar o samba para cantar as belezas e as dificuldades da vida. 
Nascida em 1927, a matriarca do Samba de Roda é religiosa e integrante da Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte. Símbolo dos descendentes escravizados, a irmandade de mulheres negras combina catolicismo com candomblé para reverenciar a Nossa Senhora de Boa Morte em três dias de festa no mês de agosto. Dalva Damiana teve a influência das duas avós, irmãs fundadoras antigas, para se tornar uma senhora integrante para salvaguardar traços culturais dos seus antepassados.


"Embarca
Meu bem embarca
Que o vapor já vai largar
O samba é de Cachoeira
Eu sou Sambarista..."

Mulher forte e resistente teve a sensibilidade de ver na religiosidade uma oportunidade para alegrar os festejos católicos, sendo, inclusive, convidada para tocar o samba em festejos religiosos de cidades vizinhas; e, foi nestas circunstâncias que originou o Samba de Roda Suerdieck ou o Samba de Dona Dalva, instituído juntamente com suas companheiras charuteiras, nos anos 1958, tem como principal fundamento empenhar-se em não deixar o samba morrer. Pensando em perpetuar a herança cultural e tal é a preocupação em manter-se viva diante às próximas gerações, que em 1980 criou-se o “Grupo Mirim Flor do Dia” todo voltado ao público jovem, todo esforço para que a juventude seja incentivada a valorizar e manter a tradição, tudo isso de forma didática contribuindo para a formação de tocadores e sambadeiras no futuro. 

Samba de Roda Suerdieck

A representatividade do grupo de Dona Dalva ganha notoriedade não apenas em animar festas populares, além disso, organiza entre outras ações “Ternos de Reis” e participa de outras manifestações culturais da região do Recôncavo, funcionando como um verdadeiro transformador social seja pela transmissão do samba, ou seja, pelo auxílio à comunidade carente mobilizando homens e mulheres independentemente da faixa etária para um bem comum. Embora haja diferenças de gêneros nas apresentações de samba. Homens tocando e mulheres dançando, o comando da roda é por conta de Dona Dalva.
dona dalva

Imagem 6

Através da sabedoria de Dona Dalva suas canções retratam o cotidiano árduo de trabalho na fábrica de charutos e até mesmo as marcas
dalva

Imagem 7

identitárias da comunidade negra cachoeirana, o samba era o lazer para distrair as exaustivas jornadas de trabalho. 
Tendo em vista preservar a cada dia o Samba de Roda como patrimônio afro-brasileiro. A fim de legitimar essa manifestação cultural a UNESCO, em 2005, concedeu o título de patrimônio oral e imaterial da humanidade ao Samba de Roda do Recôncavo.


diplomada

Imagem 8

Como forma de reconhecimento maior por toda contribuição de Dona Dalva ao samba, ao Recôncavo e à cidade de Cachoeira, em 2012 a Universidade Federal do Recôncado da Bahia concedeu-lhe o título de Doutora Honoris Causa, o primeiro a ser concedido a uma mulher negra na UFRB. E assim Dalva Damiana passou de sambarista a doutora, com todas as honrarias e reconhecimento da sua história de vida.

Título de Doutora Honoris Causa - D. Dalva do Samba


Na Série Especial Perfis Femininos a Biblioteca Virtual Consuelo Pondé busca destacar mulheres, suas realizações e importantes contribuições para a nossa sociedade. Dalva Damiana de Freitas é uma dessas mulheres importantes e que nos servem de referência. Aqui nesta página narramos um pouco da trajetória de Dona Dalva de Charuteira a Sambarista, com fotos, vídeos e também um documentário sobre sua vida; seus dois CD's disponíveis na rede também então aqui para que possamos desfrutar. Já no final da exposição destacamos os estudos sobre Dalva e também sobre o samba de roda cachoeirano. Apreciem!

Ver e ouvir Dalva Damiana

Documentário: Dona Dalva - Uma doutora do Samba


Reportagem: O que é que a Bahia tem? Tem Dalva Damiana de Freitas, "Doutora do Samba"!


Samba de Roda Suerdieck - Rumos da Música


Samba de Roda de Dona Dalva no São João de Cachoeira


O Samba de D. Dalva - Samba de Roda Suerdieck


Samba de Roda Suerdieck - Flica 2011


Albuns Completos


CD Completo de samba de Dona Dalva Damiana. Samba de roda de raiz da Bahia Suerdieck.

CD de Samba de roda "Samba Baiana, a vivência cantada de Dona Dalva", de Dona Dalva Damiana.


Dona Dalva
O samba é de Cachoeira
Eu sou Sambarista..."

 Referências:

Imagem 1 - Mapa do Recôncavo Baiano - Google Maps
Imagem 2 - Fabricação de charuto - http://www.charutos.com.br/artigos/art_charutos09.htm
Imagem 3 - Propaganda Suerdieck - Revista O Cruzeiro. 2 de julho de 1938
Imagem 5 - Dona Dalva irmã da Boa Morte. Forografia: Caroline Moraes. Disponível em: http://sambadedalva.blogspot.com.br/2017/07/festa-de-nossa-senhora-da-boa-morte.html
Imagem 6 -  Dona Dalva no Samba - Forografia: Caroline Moraes. Disponível em: http://sambadedalva.blogspot.com.br/2015/11/samba-de-dona-dalva-convida-para.html
Imagem 8 - Dalva Damiana de Freitas Doutora Honoris Causa - Arquivo Dalva Daminana de Freitas. Disponível em: https://noticias.bol.uol.com.br/ultimas-noticias/entretenimento/2016/10/26/o-que-e-que-a-bahia-tem-tem-dalva-damiana-de-freitas-doutora-do-samba.htm#fotoNav=17

Referências Bibliográficas

CARMO, Raiana Alves Maciel Leal do. A política de salvaguarda do patrimônio imaterial e os seus impactos no Samba de Roda do recôncavo baiano. 2009. 150 f. Dissertação (Mestrado em Música) – Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2009. 

SILVA, Elizabete Rodrigues da. As mulheres no trabalho e o trabalho das mulheres: um estudo sobre as trabalhadoras fumageiras do recôncavo baiano. 2011. 252 f. Tese (Doutorado em Estudos Interdisciplinares sobre Mulheres, Gênero e Feminismo) Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2011.

MAGALHÃES, Selma Reis. Cultura e trabalho: estudo de caso dos operários da fábrica de charutos suerdieck – Cruz das Almas, 1935-1970. VIII Encontro Estadual de História. 



PAIXÃO FILHO, H. C. da ; TAVARES, M. . MEMÓRIAS MUSICAIS: releitura da trajetória d. Dalva Damiana ao compasso do Samba de Roda Suerdieck no Recôncavo Baiano. 17º Encontro Nacional da Rede Feminista e Norte e Nordeste de Estudos e Pesquisa sobre a Mulher e Relações de Gênero. 

COUTINHO, Ilmara Valois Bacelar Figueiredo. Narrativas leitoras de D. Dalva Damiana de Freitas: Acordes da letra, grafias da voz. III Congresso Internacional de Leitura e Literatura Infantil e Juvenil. 
 

MACHADO, Luana Verena Nascimento. Poder feminino e identidade na Irmandade da Boa Morte. 2013. 179 f. Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais Desigualdades e Desenvolvimento). Universidade Federal da Bahia, Cachoeira, 2013. Disponível em:https://www.repositorio.ufrb.edu.br/handle/123456789/779

PAIXÃO FILHO, Hamilton Celestino da. Dalva: da fábrica ao samba no pé – construindo o patrimônio cultural e imaterial de Cachoeira, no Recôncavo Baiano. 2012. 134 f. Dissertação (Mestrado em Politica Social e Cidadania) – Universidade Católica de Salvador, Salvador, 2012. 

INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO NACIONAL (BRASIL). Samba de roda do Recôncavo Baiano. Brasília: IPHAN, [2006]. 213 p. 



Equipe da Biblioteca Virtual Consuelo Pondé:

Clíssio Santana – Coordenador BVCP e editor.
Gabriela B. Harrison – Pesquisa e texto.
Milena Pinillos – Estagiária de História. Pesquisa e texto.
Alef Ramos – Estagiário de Design.
Tatiely Neves –Estagiária de Biblioteconomia. Pesquisa e texto.




Recomendar esta página via e-mail: