Acordai João! É tempo de festa na Bahia

Catarina Cerqueira de Freitas Santos1

 

Imagem 3 santos
Fonte: http://gladysreligiosos.blogspot.com.br/2014/06/os-tres-santos-junino.html. Acesso em; 19/06/2017

Ruas enfeitadas com um colorido especial das bandeirolas, fogueiras, forró, licor e comidas maravilhosas: eis que é noite de São João! As festas juninas mobilizam e transformam a rotina de inúmeras cidades baianas, envolvendo aspectos religiosos, míticos e profanos, oportunizando uma mescla de características híbridas que condensam elementos da modernidade e da tradição.

O ciclo das festas juninas no Brasil gira em torno de três datas principais: 13 de junho, festa de Santo Antônio; 24 de junho, São João e 29 de junho, São Pedro. É comum que todo esse período seja identificado unicamente como “O São João”. As festividades que compreendem o chamado ciclo junino - ou joanino – tornaram-se muito expressivos nas regiões do norte e nordeste brasileiro, superando até mesmo o Natal, a principal celebração do calendário cristão.

As festas em homenagem ao santo católico São João têm suas origens vinculadas às celebrações pagãs européias em torno do solstício de verão, relacionando-se com o ciclo de colheitas e com o culto à fertilidade. Na Europa pré-cristã a festa era realizada sob o signo da renovação e regeneração. Os rituais incluíam fogo e água, que representavam a purificação, e eram ocasiões nas quais fogueiras eram acesas, ocorriam banhos nos rios e uma série de outras práticas eram realizadas, com o intuito de prever o sucesso da próxima colheita ou adivinhar o casamento de alguma moça.   Peter Burke (2010) indica que essas práticas teriam sido apropriadas pela Igreja Católica, determinando o dia 24 de junho como data do nascimento de São João Batista, que, segundo a tradição bíblica, foi o responsável por batizar Jesus Cristo.

Glossário Solstício 

Assim sendo, o nascimento de Jesus Cristo estava vinculado ao solstício de inverno e o nascimento de João Batista ao solstício de verão. Observa-se que o dia consagrado ao São João não é o dia da sua morte, como é comum no culto católico aos santos, é o dia de celebração da vida, do nascimento e da esperança. 

São João Menino
Fonte: São João Menino In:http://culturasensacional.blogspot.com.br/2014/05/festas-tradicionais.html. Acessado em 12/06/2017

Burke (2010) sugere que a noite de São João era mais importante no norte e no leste europeu durante a Era Moderna, pois nessas localidades as reminiscências pagãs se faziam mais presentes. O autor ainda destaca que existem registros da festa na Estônia, no sec. XVI, que enfatizavam o caráter alegre da noite junina, com suas fogueiras e músicas animadas. A descrição aponta também a existência de muita confusão em torno da festa, pois a combinação estabelecida entre carregamentos de cerveja e gaitas de fole poderia promover muitas brigas e mortes. (BURKE, 2010, p. 266)

Fogueira de São João
Fogueira In::http://comendocomosolhos.com/afinal-qual-e-a-origem-das-festas-juninas/ Acessado em: 12/06/2017
No Brasil, as festas juninas foram trazidas pelos portugueses durante a colonização e logo se tornaram populares. Câmara Cascuda (1969) aponta que as festas juninas brasileiras foram recriações e adaptações de um conjunto de festividades portuguesas, que tinham um caráter marcado pela familiaridade e pelo envolvimento comunitário. 

É importante destacar que apesar do mês de junho corresponder ao solstício de inverno nas terras brasileiras, é nesse período que ocorrem as colheitas do milho, do amendoim e da laranja, que são celebradas na noite de São João. A festa, dessa forma, desenvolveu-se aqui vinculada ao universo rural e portando uma variada culinária fruto do tempo de fartura na produção. Iguarias como o milho cozido, canjica, bolos, amendoim, pamonha e outras comidas típicas compõem o banquete junino. Bakhtin (1999), ao analisar as festas no contexto da Idade Média e do Renascimento aponta o banquete como a vitória do homem sobre o mundo, após as atividades de trabalho realizadas coletivamente. Comenta ainda que o banquete é uma peça necessária a todo regozijo popular nas imagens do beber e comer, que tendem sempre a abundância. Isso porque durante a festa a voz do tempo fala principalmente ao futuro. O triunfo do banquete seria uma forma de agradecer e vislumbrar um futuro abundante.

Outro elemento importante da cultura junina diz respeito às prendas e superstições em torno da festa junina. Segundo Lima (2002), São João Batista é considerado também como o Santo do amor e do erotismo. Dessa forma, durante a noite da sua festa é possível realizar várias práticas para conquistar a pessoa amada, como por exemplo, enfiar uma faca no caule da bananeira na expectativa de ver as iniciais do nome do futuro cônjuge.

Festa junina decada de 60
Fonte: http://acervo.oglobo.globo.com/fotogalerias/festas-juninas-desde-os-anos-60-19527181 . Acesso em 19/06/2017.
Essas práticas não eram bem vistas pelas instituições católicas. Del Priore (2000) nos relata que durante o período colonial, a partir das reformas tridentinas, houve um controle maior sobre as festas, na tentativa de suprimir os exageros que ocorriam no instante festivo. Uma das pautas de combate eram as práticas mágico-religiosas da religiosidade popular realizadas em dias de festas católicas, como as do São João. Os devotos apropriavam-se do espaço da festa por acreditar que nesse período o terrestre e celeste estavam mais próximos, e utilizavam de todo o tipo de sortilégio para conseguir manipular o sagrado a seu favor. O espaço da Igreja, por exemplo, ponto de chegada e partida das procissões e local de reuniões, foi o alvo de intensas pregações para que ele se mantivesse como um lugar sacro, uma vez que as igrejas eram um espaço de confraternização que devido à aproximação das pessoas também convidava a transgressão. Del Priore cita que nas Constituições do Acerbispado da Bahia a orientação é que “nas igrejas não se façam farsas e jogos profanos, nem se coma, beba, durma, baile ou façam novenas” (DEL PRIORE, 2000 p. 92). Esses hábitos revelam que a Igreja para os fieis não era apenas um lugar de mediação entre Deus e os homens, era prioritariamente um lugar de sociabilidade.

A Igreja pretendia enquadrar todas as atividades envolvidas na e pela festa: a procissão, os bailes, a comida, os jogos, as bebedeiras. O alvo era tudo que era o profano, devendo permanecer nas comemorações apenas o que era sagrado e ligado ao institucional. Na prática a realidade era outra. Enquanto a Igreja tentava coibir os pecados, a população acreditava que era na festa justamente o momento de cometê-los. Afinal, não se come e não se bebe como se faz cotidianamente; festa é tempo de excessos. Aos olhos da multidão a festa vai possuir significados distintos daqueles que são (im) postos pela normativa religiosa.

O momento do encontro e da reunião facilmente transformava-se em protesto e caricatura. Para as camadas inferiores, as celebrações configuravam-se como o espaço para manifestar seus descontentamentos, e a insatisfação se fazia presente na violência, no obsceno e no riso. Em uma só palavra o tempo da festa era um tempo de utopias. E mesmo em meio a tantas interdições, as festas, em especial o São João, permaneceram na história brasileira com os seus encantos, ainda que sempre incorporando novos elementos.

Procissão de São João
Procissão de São João. Largo do Amparo Fonte: Sepacctur/PMO, foto de Otávio Meira Lins – 1928

Existe uma lenda que afirma que, durante a sua festa, São João permanece dormindo. Caso ele acordasse e percebesse como ocorre a celebração do seu aniversário, não iria resistir e desceria do céu para juntar-se a comemoração, permeada de danças, comidas e muita alegria. Dessa forma, além dele perder sua santidade com esse ato, a terra inteira poderia ficar em risco, pois se queimaria em uma grande fogueira. No contexto do catolicismo popular podemos identificar que se celebra a figura do Santo menino, caracterizado pelos seus cabelos encaracolados – imagem muito popularizada nas festas baianas. Mas, em algumas localidades baianas em que o São João Batista é o padroeiro da cidade, a exemplo de Cabaceiras do Paraguaçu e Jeremoabo, ele é cultuado na sua forma adulta. Na região da Chapada Diamantina, na zona rural do município de Seabra, nas localidades de Morro Redondo e Olhos d’água de Antônio Francisco, existe uma maneira muito peculiar de louvar o São João, apresentada por Jânio Castro (2008). Segundo o autor, em Morro Redondo, além das novenas, missas e dos folguedos populares, como os bumba-meu-boi e os ternos de caretas, os moradores conduzem a imagem do São João em procissão, da igreja local até uma fonte próxima ao povoado, onde eles lavam a imagem e, em seguida, os moradores banham os seus olhos. Essa prática, segundo os moradores mais antigos, ocorre para que a água da fonte nunca acabe. Já em Olhos d’água de Antônio Francisco, as rezas e visitas a fonte, são associadas, durante o período junino, com prática de distribuição de alimentos para dezenas de crianças, em um ritual denominado almoço dos inocentes.

Existe um elemento que é um dos grandes símbolos da cultura junina: a quadrilha junina. Originária de uma contradança de mesmo nome trazida ao Brasil pela corte imperial portuguesa, ela teve suas figuras e passos modificados ao longo do tempo e dos lugares em que foi sendo executada. As quadrilhas pertenceriam às “danças baixas”, assim chamadas porque nelas os casais fazem pequenos gestos cerimoniosos com os braços e pernas e quase não levantam os pés, evitando movimentos bruscos (RIBAS, 1983). As descrições dos viajantes da época do Brasil imperial apresentam as quadrilhas como danças praticadas nos salões ricos da corte, tanto na cidade quanto no campo. Ao longo dos anos, a quadrilha democratizou-se até se tornar uma dança praticada pelos menos abastado, e claro, se transformou nesse processo. Mas por que e como essa dança se tornou uma importante referência da “festa do interior”? Segundo Luciana Chianca (2010):

O que explica esse deslocamento simbólico é o fato político e as implicações culturais da mudança de poder do Brasil republicano, quando os costumes do período colonial e imperial foram desprezados pelas camadas burguesas urbanas e citadinas. Provavelmente nesse momento a quadrilha teria sido abolida das festas dos citadinos ricos, continuando a ser dançada pela população mais distante dos grandes centros urbanos, os interioranos – geograficamente e simbolicamente. 

Quadrilha Junina
Quadrilha Junina. In: http://www.jornalgrandebahia.com.br/2016/01/caminhada-raizes-da-bahia-celebra-a-cultura-popular-em-salvador/ acessado em: 12/06/2017
Nobre e cortês na origem, a quadrilha tornou-se uma dança e um espetáculo popularizado e reinventado, marcando as festas de São João de todo o país. Nota-se, entretanto que a sua centralidade nos festejos baianos, bem como a importância de alguns aspectos míticos e religiosos vem diminuindo com o passar do tempo, principalmente a partir da introdução de uma lógica mercadológica na montagem da festa.  

Cidades como Senhor do Bonfim, Amargosa, Cruz das Almas, Santo Antônio de Jesus e Cachoeira tornaram-se grandes pólos turísticos baianos durante o período junino, modificando o ritmo e a maneira de celebrar o São João. O incremento das festas juninas sob o viés espetacularizado teve início a partir da intervenção da Bahiatursa no patrocínio e na organização da festa de Cachoeira no ano de 1972, contribuindo decisivamente para a turistificação do evento.

Glossário BahiaTursa

Segundo as informações da revista Viver Bahia, edição nº. 21. Nas décadas seguintes, as cidades vizinhas, com o intuito de fortalecer a economia dos seus municípios, começaram a investir em festas nas praças públicas, com a montagem de estruturas para shows de artistas de grande porte, na busca de atrair um grande público. Na composição programática dessas festas juninas, imiscuíram entre folguedos populares e o forró tradicional, uma musicalidade híbrida com o axé music, pagode, o sertanejo e o forró eletrônico. Nas últimas décadas além do formato espetacular em praça pública, alguns empresários criaram as festas em arena privada, que incorporando alguns elementos oriundos do Carnaval de Salvador, atraem, a cada ano, principalmente o público jovem.

Forró do piu Piu
Fonte: Forró do Piu, piu. http://www.binholocutor.com.br/2015/06/forro-do-piu-piu-tera-camarote-all.html . Acesso em 19/06/2017.

É necessário evidenciar, entretanto, que admitir a existência de uma cultura junina impregnada com a lógica espetacular capitalista, cheia de novos elementos não significa dizer que a cultura popular morreu, desapareceu em função de sua submissão ao mundo do mercado de espetáculos, nem tampouco que esta submissão é uma verdade absoluta em todos os espaços festivos. O São João, tal qual o temos hoje, não expressa a substituição do tradicional por uma nova forma imposta; pelo contrário, representa sua fusão articulada e contraditória. A história da festa demonstra que ela sempre foi alvo de disputa simbólica, política e religiosa.  Na atualidade as disputas permanecem, visto que os interesses políticos e econômicos tentam sobrepor os elementos da cultura popular. Os constantes embates entre as distintas instâncias nas Festas Juninas, confirmam a ideia de que a festa é o espaço da diversidade, alteridade e, principalmente de conflitos, ainda que se sobressaía uma aparente harmonia fruto da efervescência coletiva promovida pelos festejos.

Ao som de diferentes ritmos sonoros, do sertanejo ao baião, do arrocha ou axé, ainda é possível, por exemplo, em algumas cidades baianas, ir de porta em porta, perguntando se “São João passou por aqui”. Ele tem passado! E ainda passará por muitos e muitos anos.


Referências:

BAKHTIN, Mikhail. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais. São Paulo: Hucitec: Editora da Universidade de Brasília, 1999.

BURKE, Peter. Cultura popular na Idade Media. São Paulo: Companhia das Letras, 2010

CÂMARA CASCUDO, L. da. Folclore do Brasil: pesquisas e notas. Brasil / Lisboa: Fundo de Cultura, 1969.

CASTRO, Janio Roque. As festas religiosas em louvou a São João Batista na Bahia. In: Anais do IV ENECULT - Encontro de Estudos Multidisciplinares em Cultura, 28 a 30 de maio de 2008, Faculdade de Comunicação/UFBa, Salvador-Bahia-Brasil.

CHIANCA, Luciana. Quando o Campo está na Cidade: Migração, Identidade e Festa. In: Revista Sociedade e Cultura, janeiro-junho 2010, vol. 10, nº oo1, Goiania. p. 45-59

DEL PRIORE, Mary Lucy. Festas e Utopias no Brasil Colonial. São Paulo: Brasiliense, 2000.

LIMA, Elizabeth. A fábrica dos sonhos: a invenção das festas juninas no espaço urbano. João Pessoa: Idéia, 2002.

RIBAS, T. Danças Populares Portuguesas. Portugal: Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, Ministério da Educação, 1983.

 


Notas:

1Historiadora e Mestre em Ciências Sociais pela UFBA desenvolveu a pesquisa intitulada: São João do Pelô: (Re) significações da Tradição no Espetáculo Junino. Atualmente é coordenadora da Coordenação de Educação Integral da Secretaria de Educação do Estado da Bahia. Email: catarinacerqueira@yahoo.com.br

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