Por Eric Brasil*

Germano Lopes da Silva: experiências de um carnavalesco, eleitor e cidadão no Distrito Federal (c. 1900-1930)1

 

0

 


Era sexta-feira, 08 de janeiro de 1915 e Germano Lopes da Silva se preparava para largar o serviço: era bedel – chefe de disciplina – na já tradicional Escola Politécnica, localizada no Largo de São Francisco de Paula, centro do Rio de Janeiro. Sua função era manter a disciplina entre os alunos, nos pátios e intervalos, assim como assessorar os professores da renomada escola de engenharia quando fosse preciso.

Ao sair pelo portal do prédio construído ainda no início do século XIX, Germano deu uma olhada na imponente estátua de José Bonifácio enquanto atravessava o Largo em direção à Rua do Ouvidor. Não havia porque titubear, conhecia muito bem a região. A missão já estava clara em sua mente: atravessar a antiga “artéria da civilização” – a Rua do Ouvidor – até chegar à novíssima Avenida Central, atual Avenida Rio Branco, para então se dirigir ao número 110, redação do Jornal do Brasil. Precisava falar com Vagalume e esclarecer algumas coisas.

Carnaval na Avenida Rio Branco
Imagem 1: Carnaval na Avenida Rio Branco, Augusto Malta, 1908, circa

Olhando as sacadas e varandas da Rua do Ouvidor – muitas das quais seriam alugadas para turistas durante o reinado de Momo –, os postes e os novos prédios da Avenida Central, já imaginava como estariam enfeitados daqui a algumas semanas. Flores, bandeiras, luzes, folhagens, cores e mais cores cobririam os mínimos espaços. Cada quarteirão tentaria ficar mais belo que o outro, cada rua mais iluminada e reluzente. Os moradores e comerciantes desejavam ser contemplados com a passagem dos préstitos das sociedades carnavalescas – para os comerciantes era a oportunidade de conseguir altos lucros com a venda de produtos carnavalescos, comidas e bebidas.

Germano sabia que era muito difícil concorrer com as três chamadas Grandes Sociedades Carnavalescas, Tenentes do Diabo, Fenianos e Democráticos – associações formadas ainda no período do império, inspiradas em modelos de carnaval europeu, lideradas por membros das elites econômicas e intelectuais da cidade –, mas que a disputa carnavalesca entre os demais grupos estava cada vez mais intensa e divertida. Para concorrer nos concursos dos jornais e desfilar nas ruas centrais do Rio, diversas sociedades vinham dos subúrbios, principalmente através dos trens da Estrada de Ferro Central do Brasil – que aumentava o número de trens especialmente para o carnaval. Apesar da camaradagem entre muitas agremiações, cresciam as rivalidades e disputas: qual seria o mais belo grupo, quem conseguiria destaque entre os jornais, que grupo receberia as ovações do público.

Quando chegou à redação do Jornal do Brasil e pediu para ser recebido por Vagalume, deve ter se apresentado como Macaco Sabe-Sabe, famoso mestre-sala do Rancho Carnavalesco Macaco é Outro.  Francisco José Gomes Guimarães (1877-1947), o Vagalume, foi repórter negro e com patente de capitão da Guarda Nacional. Principal cronista carnavalesco até os anos 1930, foi ferrenho defensor do carnaval popular de matrizes negras e durante a década de 1910 esteve à frente da estreita relação entre o Jornal do Brasil e os grupos carnavalescos, era membro da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito dos Homens Pretos, e da Associação Beneficente da Federação dos Homens de Cor do Brasil.


Capitão Francisco Guimarães, “Vagalume” - Diário Carioca. 31/01/1935
Capitão Francisco Guimarães, “Vagalume”. - Diário Carioca. 31/01/1935, p. 10

Diante de presença carnavalesca tão ilustre, Vagalume não poderia recusar, e recebeu o folião. A conversa foi publicada no Jornal dia seguinte. Vagalume afirmava que “por engano” havia dito que a sociedade Carnavalesca Macaco é Outro “havia encostado” e que Sabe-Sabe [Germano] sairia na Flor do Abacate [uma das mais importantes associações carnavalescas no período, composta também por maioria de homens e mulheres negras].” Segundo Vagalume, Germano chamou-lhe a atenção, afirmando que o grupo estava furioso e que era preciso desfazer o engano anunciado pelo jornal. O Macaco é Outro não “havia encostado”. Diante dessa situação, Germano fala:

- A isto só mesmo respondendo em francês.

- Em francês, “Sabe-Sabe”?

- Sim senhor, pois então por ser macaco não posso saber francês? Pois então lá vai – “Jamé de la vie”

Surpreso, Vagalume pergunta onde havia aprendido tanta coisa:

- Na academia [responde Germano]. Não me formei agora por 60$000, porque o pagamento lá da repartição anda atrasado. Mas o pessoal lá na “toca” ficou “ranzinza” quando viu aquilo no jornal. Faça o favor de dizer que o “Macaco é Outro...” nem morreu, nem encostou e que vai sair belo e formoso no passo do “corta-jaca” fazendo inveja à negrada. Saí no Abacate porque o senhor sabe, “Hodie mi cras tibi” [expressão latina que significa: “Hoje eu, amanhã tu”].

- Latim, Sabe-Sabe?

- Não se espante, falo várias línguas e especialmente a vernácula. Mas tratando-se do “Macaco é Outro...” pode dizer no “Jornal do Brasil” que o grupo sairá nos três dias e que já começamos os ensaios para os quais temos o prazer de convidar o “Jornal do Brasil” [JB. 09/01/1915].

Germano conseguiu seu objetivo principal: o Jornal do Brasil publicou a notícia de que o Macaco é Outro iria sair às ruas nos três dias de carnaval, que eles não estavam nem “encostados” nem mortos. Poderia voltar tranquilamente para sua casa e retomar os preparativos para o carnaval, mas sem descuidar dos afazeres de bedel numa das instituições de ensino mais importantes da cidade.


O macaco é outro - grupo carnavalesco
O Macaco é Outro – grupo carnavalesco”. Revista da Semana, 1911, BN.
Flor do abacate
Flor do Abacate – “Grupo Carnavalesco, pessoal de canto. - Diretoria e Orquestra.” Revista da Semana. Número 562, 1911. P.21]

O Rancho Carnavalesco Macaco é Outro aparece nas fontes entre as décadas de 1900 e 1920. Formado por homens e mulheres negras, e assim reconhecido por seus pares e por importantes setores da imprensa, o grupo realizou performances carnavalescas que buscavam problematizar as tensões raciais tão características da sociedade carioca nas primeiras décadas do período republicano. Formado inicialmente por pessoas próximas à casa de Tia Ciata, sendo ela mesma uma das fundadoras, os membros do Macaco é Outro lograram ampliar os espaços de atuação de sua associação e, principalmente através da aliança com Vagalume, conseguiram colocar em primeiro plano debates sobre relações raciais no Pós-Abolição carioca.

Acompanhar as experiências de Germano, para além dos três dias de carnaval, nos possibilita compreender como um homem negro poderia, apesar de todos os obstáculos, atuar como um cidadão na Primeira República.

Nascido provavelmente em finais da década de 1870, Germano se casou com Maria da Conceição e Silva em 1899, filha de Tia Ciata, na freguesia de São Cristóvão e teve pelo menos cinco filhos. Ao longo das décadas de 1900, 1910 e 1920 morou na Rua de São Pedro, na Rua Benedito Hipólito, na Rua Dr. Pedro Nunes e na Rua Pereira da Silva. Essa constante mobilidade e mudança de endereço reflete a dificuldade em conseguir se fixar numa casa própria. Os aluguéis muito elevados e a constante desvalorização dos salários obrigavam as famílias a permanecerem em constante luta pelo direito à moradia.

Entre as décadas de 1900 e 1920, Germano aparece recorrentemente como eleitor nas listas de diversas freguesias centrais da cidade do Rio de Janeiro. As exigências para o exercício da cidadania política, estabelecidas na Constituição de 1891, eram ser maior de 21 anos e não ser analfabeto. Tal definição manteve o número de eleitores ao longo do período em que a constituição esteve em vigor sempre entre 2 e 5% no Brasil. Entretanto, apesar das dificuldades, fraudes, violência e barreiras institucionais à efetivação das escolhas através do voto, as eleições desempenhavam um papel importante durante a Primeira República. Serviam tanto para regular disputas entre coronéis e pautar negociações entre as elites locais e as oligarquias estaduais, quanto para a manutenção do sistema político nas cidades, com uma relativa circulação de elites e uma incipiente, mas pedagógica, mobilização de eleitores.

Não podemos esquecer que esses ainda eram os anos iniciais da república, e a experiência do voto e do engajamento político ainda estava sendo construída, sofrendo com inúmeras barreiras e limitações. Mesmo assim, homens negros como Germano entenderam a importância do voto como caminho para a cidadania.

Em 1906, Germano é qualificado para o serviço de reserva da Guarda Nacional na freguesia de Santana. Essa milícia, fundada ainda em tempos do império, só aceitava eleitores como membros. Durante a Primeira República, a Guarda Nacional desempenhou um papel praticamente simbólico, ornando de status social seus membros. Seria encerrada em 1918, mas até lá muitos ostentariam títulos de tenentes e coronéis da Guarda Nacional. Germano via nela mais um caminho de conquistar respeito e galgar posições nas hierarquias sociais da cidade, assim como tantos outros homens negros, como o próprio cronista Vagalume.

No ano de 1911, solicita ao Ministério da Fazenda que passe a receber a gratificação correspondente ao cargo de bedel da Escola Politécnica, visto que vinha exercendo o cargo interinamente. Germano permaneceria trabalhando na Escola Politécnica até 1932, quando deu entrada no pedido de aposentadoria. Esteve presente nas missas em homenagem a personagens ilustres da cidade, como do Dr. João Clodoaldo Monteiro Lopes, irmão do Dr. Manoel da Mota Monteiro Lopes, em 1908 – deputado federal negro eleito em 1909, abolicionista, socialista e republicano histórico; participou da Sociedade União dos Homens de Cor do Rio de Janeiro e da Irmandade de São Benedito e Nossa Senhora do Rosário; teve atuação sempre próxima ao operariado e às associações negras.

Em 1923, Germano doou 1$000 (mil réis) para o jornal A Noite comprar “mimo” para o senador Paulo de Frontin pelos “serviços a favor do povo” e em 1927 esteve presente a uma recepção em homenagem ao mesmo senador no Derby Club. André Gustavo Paulo de Frontin, nascido em Petrópolis, Rio de Janeiro, em 1860, foi senador do Distrito Federal entre 1917 e 1918 e entre 1921 e 1930; ocupou o cargo de Prefeito do Distrito Federal no ano de 1919 e foi deputado federal ente 1919 e 1920. Reconhecido pelas importantes obras para solucionar problemas de abastecimento de água na cidade em 1889, Paulo de Frontin tornou-se professor do curso de ciências físicas e matemáticas da Escola Politécnica, local de trabalho de Germano.

Germano Lopes da Silva, portanto, tinha motivos para expressar publicamente seu apoio ao senador. Em sua perspectiva, tratava-se de um político com grandes recursos técnicos e preocupado em melhorar a vida do povo. Como eleitor, funcionário da Escola Politécnica, instituição em que Frontin havia lecionado, e sócio efetivo do Centro Republicano do Distrito Federal desde 1914, Germano se mostrava um cidadão bastante atuante nas esferas política e pública da cidade.

Também foi muito ativo no mundo carnavalesco desde a década de 1900, atuando em diversas associações em diferentes espaços da cidade. Ao longo da década de 1910 esteve empenhado em tornar o Macaco é Outro em grande sociedade, circulou nas redações de jornais e foi reverenciado por cronistas e por seus pares.

Podemos perceber que Germano buscou diferentes formas de se inserir na sociedade carioca, não apenas através da cultura carnavalesca. Além de todo destaque como mestre-sala, se vangloriava de falar francês, latim e “outras línguas”. Circulava entre ilustres da cidade – como quando esteve presente na missa em homenagem ao irmão falecido de Monteiro Lopes ou dialogando diretamente com Vagalume. Anualmente seu aniversário era lembrado em jornais através de notas festivas. Foi pai de família, trabalhador estável, letrado e eleitor, membro do Centro Republicano do Rio de Janeiro, ao mesmo tempo em que atuou em diversos grupos carnavalescos, com destaque para aquele que trazia à tona (e criticava) as relações raciais que experimentaram tantos de seus contemporâneos, sendo sua própria residência a sede do grupo.

A presença de Germano Lopes da Silva na cidade, em diversos espaços, parece desafiar as visões de uma história única do Pós-Abolição, que ressaltou a pobreza, a violência e as limitações enfrentadas pela população negra do período. Germano não era exceção, e os atuais estudos sobre experiências negras na Primeira República vêm apresentando as múltiplas redes e estratégias de homens e mulheres negras em busca de respeito, autonomia e cidadania no Pós-Abolição.



Notas:

Professor adjunto de História da América da Universidade da Interação Internacional da Lusofonia Afro-brasileira – UNILAB-Malês. Doutor pelo programa de Pós-Graduação em História Social da Universidade Federal Fluminense. Consulte Currículo Lattes.

1Esse texto tem como base as pesquisas e a tese de doutorado “Carnavais Atlânticos: cidadania e cultura negra no pós-abolição. Rio de Janeiro e Port-of-Spain, Trinidad (1838-1920)”, defendida em 2016 no Programa de Pós-Graduação em História Social da Universidade Federal Fluminense.

Voltar ao Sumário

Recomendar esta página via e-mail: