Por Juliana Barreto Farias*

Irmãos do café: Trabalho, liberdade e religiosidade entre os negros do porto do Rio de Janeiro


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“– Africano tem resistência, menino, africano pagou seu corpo. Eu juntei, vintém a vintém, um conto e oitocentos para me comprar e houve escravas, como a mãe de Henriqueta, que juntaram dinheiro para comprar o próprio corpo e mais o das filhas.

– Mas como, homem de Deus?

– Ora, como! Trabalhando, nos aluguéis, no café, vendendo santos ou doces na rua, e com auxílio do feitiço. Não ria! Africano sempre vendeu feitiços aos brancos, porque os brancos sempre acreditaram em feitiços. Hoje os africanos daquele tempo estão ricos”.


Foi perto do dia 13 de maio de 1905 que o alufá [líder muçulmano] Júlio Ganam fez essas revelações ao jornalista carioca João do Rio. Ao encontrá-lo nas ruas da capital, o africano o convidara para, juntos, comemorarem o dia da libertação dos escravos. E tratou logo de ressaltar que não organizariam “nada extravagante”, como fazia a “gente de santo”: apenas diriam alguns salas, seguidos de um saboroso almoço com um carneiro recheado ao forno. Afinal, aquela data não significava “nada para os africanos”. Antes mesmo da “princesa assinar o decreto libertando todos os escravos”, eles já estavam livres. Assim, “os mulsumins [sic] fazem orações nesse dia pelos que partiram para o paraíso, mortos a vergalho, e a gente de santo organiza candomblés pela mesma razão, apenas”.

Surpreso com toda aquela conversa, João do Rio parecia não querer acreditar e insistia com Ganam: “os africanos já estavam livres”? O “orgulhoso alufá” prontamente lhe respondeu que, em 13 de maio de 1888, quase todos ou já tinham morrido, ou já tinham comprado sua carta de alforria. Juntando “vintém a vintém”, alugando seu trabalho em casas e oficinas, carregando café no porto, vendendo pelos mercados e ruas da cidade, Júlio Ganam e outros africanos teriam comprado seu corpo e os de seus “parentes”. Enquanto as mulheres começaram com a venda de acarajés, miçangas e “feitiços”, “o café foi para os homens o veio inesgotável”. A astúcia e a persistência desses africanos, além de lhes proporcionar a tão almejada liberdade, teria contribuído para a construção de grandes fortunas, como Ganam fez questão de enumerar:

Olhe aqui, no Rio, quantas fortunas! O tio João morreu deixando a Misericórdia todo o correr de casas do lado direito da rua do Hospício, entre Núncio e Campo da Aclamação. O Geminiano, que foi fundador da Igreja do Senhor do Bonfim de Copacabana, deixou mil contos. Este até dizia: - ‘quando Deus ajuda a gente, a gente já foi escravo e hoje pode estar sentado sem fazer nada. Deus é grande!’ [...] Olhe o Pai Balthazar. Esse [é da] política, anda todo bonito amigo de deputados, a quem sempre empresta dinheiro [...] Mas não é só Balthazar rico. Há também o alikali Miguel e mama Soledade que mora na rua Barão de S. Felix. João Abace-jebu, que é dono de vários cortiços; a tia Christina uma das últimas negras minas do Mercado que dirige empregados seus e tem cerca [sic] de contos; Fortunato Machado, proprietário influente e tia Felicidade, a maior fortuna entre negros...

Amigo de Ganam, João do Rio já conhecia muitos desses africanos e africanas e descrevera suas festas e práticas religiosas em diferentes reportagens publicadas ao longo dos anos de 1904 e 1905. Embora não disfarçasse a simpatia que sentia por alguns de seus informantes negros, como o  “grande e sábio alufá Júlio Ganam”, aqueles homens e mulheres eram percebidos pelo jornalista como corpos estranhos, ultrapassados, numa cidade que caminhava para o progresso e a civilização1. Por isso, o assombro que vai, pouco a pouco, denunciando em seu relato sobre os “negros ricos”. Para ele, que possivelmente ainda estava ligado a uma certa ideologia da escravidão, não era concebível que ex-escravos, antes vivendo numa situação de sujeição pessoal em relação a seus senhores, supostamente “incapazes” de viver em liberdade, pudessem angariar tamanha fortuna e prestígio naquela sociedade pós-emancipação. Mas, fugindo ao controle do próprio João do Rio, o registro do encontro com Ganam publicado pela Gazeta de Notícias em 13 de maio de 1905, com o sugestivo título de Negros Ricos, apesar dos incômodos comentários preconceituosos que emergem aqui e ali, desvela muitos aspectos da experiência de africanos e seus descendentes, tanto em sua luta pela conquista da liberdade, como em sua participação no mercado de trabalho do Rio de Janeiro.

De fato, como podemos acompanhar em diversos estudos sobre o Rio de Janeiro oitocentista, os africanos minas – como eram conhecidos, de forma genérica, os homens e mulheres procedentes da costa ocidental africana – praticamente monopolizavam o comércio ambulante e o carregamento de mercadorias pela cidade, e em especial os serviços ligados ao transporte e à arrumação de café no porto. Muitos viajantes que passaram pelo Rio nesse período assinalaram a presença marcante de escravos de ganho – e também de libertos – minas nesses espaços de trabalho. O francês Charles Reybeirolles, por exemplo, ao descrever a Corte imperial entre os anos de 1858 e 1861, notava que da Rua São Bento, “grande entreposto de café”, partiam os “negros minas atléticos, mármores vivos, que fazem o transporte dos armazéns do cais"2.

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1 Africano Mina. Abubaca Caolho. Publicado pela Gazeta de Notícias, 20 de março de 1904.
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2 Africano Mina. Emanuel Ojô. Publicado pela Gazeta de Notícias, 20 de março de 1904

Ocupando – e tantas vezes dominando – esses serviços, eles conseguiam juntar mais recursos e, em consequência, comprar suas próprias cartas de liberdade. Como muitos estavam inseridos em diferentes “instituições étnicas”, como irmandades católicas, associações de auxílio mútuo e grupos familiares, tinham também mais facilidade para arrecadar esses pecúlios. Ainda podiam contar com empréstimos (e até os valores totais) ofertados por pais, tios, padrinhos, cônjuges e outros “parentes”. Ou mesmo recorrer a estratégias mais ardilosas. De um jeito ou de outro, no Rio de Janeiro do século XIX, homens e mulheres da Costa da Mina eram justamente os que mais pagavam por sua alforria. Ao analisar 14 mil cartas concedidas no período de 1840 a 1864, o historiador Manolo Florentino verificou que eles constituíam, proporcionalmente, um grupo de alforriados duas a três vezes superior à sua participação na escravaria africana do Rio3.

Quando nos voltamos para a área portuária da cidade, constatamos que, desde a segunda metade do oitocentos, assim que o dia raiava, carroças saíam das cocheiras e se espalhavam pelas ruas próximas. Nas portas dos trapiches e dos grandes depósitos de café, trabalhadores cobertos de suor conduziam mercadorias de um lado para o outro, lotando e esvaziando veículos de carga. Um outro grupo de trabalhadores permanecia no interior dos prédios, arrumando os mais variados produtos e realizando tarefas específicas de preparação para a exportação. Das comissárias, o café saía em lotes corridos de um a mil sacos contendo dez ou mais tipos diferentes de grãos. Antes de ser vendido, era preciso escolher, separar, repassar em máquinas e depositar o café em novos sacos. Em seguida, ainda seria pesado e agrupado em lotes uniformes. Todas essas atividades eram realizadas por “trabalhadores avulsos” nos armazéns dos ensacadores e/ou exportadores. Apenas a escolha dos grãos era feita pelas mulheres4.

Era justamente aí, na labuta cotidiana nos armazéns e grandes depósitos de café, que os personagens evocados por Júlio Ganam arregimentavam seus recursos extras. Conforme dissera naqueles idos de 1905, os negros começavam no trabalho como carregadores das sacas. “Subiam depois a ajudante. Em seguida passavam a capitão [...] e enfim chegavam a furadores. [Furador] era o chefe supremo do carregamento de café. Todo o grão que caía era deles. Como havia dias em que furavam umas mil sacas, juntavam à noite [...] duas e três sacas fora o que escondiam”. Trabalhando coletivamente, esses furadores de café se apropriavam de alguns grãos excedentes e, conforme descreve João do Rio, ficavam com o dinheiro de sua venda, acumulando assim recursos para a compra da tão almejada carta de alforria.

Podemos ter uma ideia do que talvez representasse o volume de grãos apropriados por esses africanos da região portuária, comparando os cálculos apresentados pelo alufá Júlio Ganam com as médias de produção de café no Rio durante o século XIX. Recorrendo aos registros do inglês Thomas Ewbank, observamos que o movimento dos carregadores de café era contínuo em 1846, com um volume anual de exportação em torno de 1.849.833 sacas. Considerando que um ano possui 300 dias úteis, chegamos a uma média de 6.166 grandes sacos a exportar por dia. Nos anos subsequentes, estes números continuaram crescendo. Em 1885, registrou-se a venda de 2.858.107 sacas, o que corresponde a uma média diária de 9.527 sacas. Decerto, em alguns dias, o volume de exportação podia exceder estes valores médios5.

Tomando estes dados como referência, é possível lançar algumas hipóteses acerca dos ensacadores mencionados por Ganam. Como as informações fornecidas por este africano são imprecisas, não dispomos de indicações exatas sobre o período a que ele faz alusão. Contudo, juntando e interpretando fragmentos, sabemos que se trata de meados do século XIX. Dessa forma, se recorrermos ao volume de café exportado diariamente em 1846, inferimos que o volume empacotado nos armazéns em que trabalhavam alguns daqueles “negros ricos” corresponderia a cerca de 16,2% da média de sacos vendidos por dia no Rio de Janeiro. Já em 1885, este número cairia para 10,5%. Estes cálculos, ainda que indeterminados, indicam que Júlio Ganam falava de uma determinada fração de trabalhadores da região portuária. A historiadora Maria Cecília Velasco Cruz estima que em torno de mil carregadores poderiam estar envolvidos no transporte de café em dias de pico. Se assim fosse, é bem provável que o grupo conhecido pelo “orgulhoso alufá” incluísse por volta de 100 homens, cujos recursos extras arrecadados poderiam corresponder a 0,05%, em 1846, e 0,03%, em 1885, respectivamente, do volume de sacas de café exportado diariamente pelo porto da cidade do Rio.  E possivelmente, esse volume arrecadado – ou a renda obtida a partir de sua venda – era dividido entre todos aqueles, ou pelo menos grande parte, dos indivíduos que juntavam os grãos de café.

 

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3- Armazém de café. Domínio Público.

Mas será que apenas essa estratégia seria capaz então de proporcionar tantas fortunas? De fato, o alufá parece indicar que não. Para complementar sua renda, depois de todo o trabalho do dia, esses negros ainda faziam "naquele centro o feitiço dos senhores ricos para a [paixão] de mulheres bonitas, para fazer mal aos inimigos, dos caixeiros querendo [ganhar] dos filhos dos patrões. Toda essa gente pagava.” Quanto ganhavam, não se sabe ao certo, mas certamente as quantias podiam ser “bem generosas”. Além de propiciar ganhos reais, esses “trabalhos com feitiços” decerto desempenhavam importante papel no redimensionamento de antigas identidades africanas e na criação de novos laços entre os trabalhadores da região portuária.

Em maio de 1905, quando João do Rio e Júlio Ganam se encontraram, “a época dos minas carregadores já passara”, como informava a Gazeta de Notícias. Embora “uns mil negros” ainda vivessem na cidade do Rio naqueles primeiros anos do século XX, conforme os cálculos do próprio jornalista, a zona portuária passara então a abrigar uma massa de trabalhadores mais heterogênea, com uma maior diversidade racial e de outras nacionalidades6. Entretanto, os negros continuavam com uma presença forte no porto e nos seus sindicatos profissionais. E as relações construídas entre armazéns e depósitos seguiam extrapolando para os bares mais próximos, as rodas de samba, os espaços de moradia e de fé. Como aconteceu com a irmandade do Bonfim criada em dezembro de 1892 pelos negros “empregados no serviço de café nos armazéns dos comissários”.

Liderados pelo africano mina Geminiano Monteiro, citado por João do Rio como um dos “negros ricos” que comprara sua própria alforria, eles se juntaram a um grupo de negros baianos e inauguraram essa nova devoção numa capela provisória no então longínquo e desabitado bairro de Copacabana. Muitos se reuniam antes numa outra confraria dedicada ao santo, organizada na igreja da Praia de São Cristóvão. Mas, desgostosos com sua direção e mesmo por incompatibilidade com a Irmandade do Santíssimo Sacramento e com o vigário da freguesia, procuraram o contra-almirante José Carlos de Carvalho para fundarem a nova irmandade. Todos esses novos irmãos se diziam, como ressaltou o administrador dos negócios do Bonfim de Salvador José Eduardo Carvalho Filho, “queixosos dos brancos de São Cristóvão, os quais depois de se terem servido dos Pretos do café das Docas, procuravam desgostá-los”. Para além dos conflitos raciais que marcaram a fundação dessa confraria católica (extinta no ano de 1910), percebemos, mais uma vez, como a solidariedade e as identidades religiosas, étnicas e de classe eram realimentadas na zona portuária e em outros espaços do Rio de Janeiro.

            E um dos fundadores do Bonfim de Copacabana, o mina Geminiano Monteiro, teria se tornado um dos afortunados mencionados por Ganam, deixando um patrimônio de “mil contos”. Ele até dizia: “quando Deus ajuda a gente, a gente já foi escravo e hoje pode estar sentado sem fazer nada. Deus é grande!" Mas, em verdade, as africanas do mercado, que também conquistaram sua liberdade bem “antes da princesa assinar o decreto”, pareciam ser, de fato, as “negras ricas” do Rio de Janeiro. Como a preta mina Emília Soares do Patrocínio que, ao falecer em 1885, legou a seus filhos e marido trinta contos de réis, casas, escravos e joias7. Já Tia Felicidade, uma das maiores “fortunas entre negros”, parava sempre na esquina da rua de São Lourenço, perto do quartel-general, com seu tabuleiro de doces. Conforme João do Rio, “em torno dela uma porção de negras contam coisas para diverti-la, cuidam-lhe dos bolos, chamam-na de mãe e pedem sua benção”. Parecia guardar com zelo suas riquezas, já que nem aos seus melhores amigos dava “bolos grátis”, “vende pela metade, mas vende”. Porém, como muitos dos africanos referidos por Ganam, ela não gostava de ostentar sua fortuna, “isso era para os brancos”. Além de não abrir sua bolsa e nem seu coração, dizia que era pobre.

 

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4 Vendedora africana na Praça do Mercado, Rio de Janeiro. Marc Ferrez c. 1875.

 

Gazeta de Notícias 30.10.1905.

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Imagem 5- Ao lado dessa foto 5, colocar esse texto do lado direito do texto.

“Tia Justina. É uma preta velha que tem a sua quitanda de frutas na Praça e é o último vestígio dos africanos naquele mercado que, desde o começo do século passado, resume a vida misteriosa do Rio. Quando veio para ali? Um ror de anos. A gente de nação foi desaparecendo, os pretos minas foram cedendo lugar aos brancos e morrendo e a tia Justina continuou com o seu tabuleiro, onde se vende frutas de mistura com figas de guiné, sabão da costa, urú e outras coisas interessantes. Dizem que tia Justina tem dinheiro. É provável que sim, sempre menos que tia Christiana, a que vende bolos de acarajé perto do quartel-general e cuja fortuna é superior a 300 contos. De qualquer forma, porém, rica ou pobre, tia Justina é um tipo tradicional, conhecida e falada há muitos anos no mercado”.

Se bem poucos ex-escravos, africanos ou seus descendentes, tornaram-se “ricos”, boa parte dos pretos e pretas minas trabalharam duro para conseguir a tão sonhada carta de alforria, fosse com suas vendas pelas ruas da cidade e no mercado, com carregamento de mercadorias no porto, com os “feitiços” ou mesmo através de outros ardis. Muitos, “confundidos” com os cativos, eram constantemente abordados pelas autoridades policiais. Outros tantos conseguiam poupar dinheiro, adquirir cativos e, quem sabe, se tornar um “negro rico”. O certo mesmo é que muitas de suas memórias e tradições continuariam marcando os trabalhadores da zona portuária e de outras áreas da cidade do Rio de Janeiro.

 



Notas:

*Professora-adjunta na Universidade Internacional da Integração da Lusofonia Afro-brasileira (UNILAB), Campus dos Malês-BA. Doutora em História Social pela USP. Consulte Currículo Lattes

1Desenvolvi mais detalhadamente essas questões no artigo “João do Rio e os africanos: raça e ciência nas crônicas da belle époque carioca”. Revista de História, USP, 162, 2010, p. 243-270.

2Charles Ribeyrolles. Brasil Pitoresco. Vol. 1. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1980, pp. 208-209.

3Manolo Florentino, “Alforrias e etnicidade no Rio de Janeiro oitocentista”. Topoi, Rio de Janeiro, set. 2002, pp. 9-40.

4Maria Cecília Vellasco Cruz, “Tradições negras na formação de um sindicato: Sociedade de Resistência dos Trabalhadores em Trapiche e Café, RJ, 1905-1930”, Afro-Ásia, Salvador/CEAO, UFBA, 24 (2000).

5Para o número de sacas exportadas, ver Thomas Ewbank. A vida no Brasil, ou Diário de uma visita ao País do Cacau e das Palmeiras, vol 1. Rio de Janeiro, Editora Conquista, 193, pp. 119-120; The Brazilian Year Book, issued under the patronage of the Brazilian Governement. Edited by J. P. Wileman, Rio de Janeiro, The Offices of the Brazilian Year Book, 1909, p. 633, citados em CRUZ, “Tradições negras na formação de um sindicato”; op. cit., p. 263.

6Érika Bastos Arantes. O porto negro: cultura e trabalho nos primeiros anos do século XX. Dissertação de Mestrado em História Social, Unicamp, 2005.

7Juliana Barreto Farias. Mercados Minas: Africanos ocidentais na Praça do Mercado do Rio de Janeiro (1830-1890). Rio de Janeiro: Prefeitura do Rio/Casa Civil/Arquivo Geral da Cidade do Rio, 2015; “De escrava a Dona: a trajetória da africana mina Emília Soares do Patrocínio no Rio de Janeiro do século XIX”. Locus (UFJF), v. 35, p. 13-42, 2013.

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