Por Thiago Alberto Alves dos Santos*

Ismael Ribeiro: “Abram-se escolas!”

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Nas águas calmas da Baía de Todos os Santos, em 29 de outubro de 1912, o paquete Pará se preparava para partir. Entre seus passageiros estava Ismael Ribeiro dos Santos, um “homem de cor”, 58 anos, que seguia para o Rio de Janeiro com o objetivo de participar do 4º Congresso Operário.1 Ismael era uma liderança operária baiana que viajava enquanto representante do Liceu de Artes e Ofícios da Bahia. Entretanto, sua experiência ia além: esse alfaiate de ofício já havia sido conselheiro municipal de Salvador, presidente do Centro Operário da Bahia, membro da principal sociedade abolicionista baiana, e ainda Coronel da Guarda Nacional. Trajetória impressionante para alguém que viveu diretamente a escravidão no Recôncavo Baiano.

Foi na primavera de 1854, mais precisamente no dia 22 de outubro, que nasceu de um ventre escravo na Freguesia do Monte do Recôncavo, Ismael Ribeiro dos Santos.2  Filho de Felismina Maria da Conceição, o rebento tinha um proprietário – o então tenente-comendador Francisco Vicente de Viana, senhor do Engenho do Monte, que mais tarde seria agraciado com o título de Barão de Viana.3 Em um inventário do ano de 1875, Felismina aparece como uma escrava empregada nos serviços domésticos, sendo que além dela, pertenciam ao mesmo dono seus filhos Elpídio, Plínio e o mais velho, Ismael, alfaiate avaliado em oitocentos mil réis (800$000).4

Como filho de uma escrava doméstica, Ismael Ribeiro cresceu observando de perto a rotina de seus senhores, mas como tantas outras crianças escravizadas, também acompanhava o processo de produção açucareira. Tratava-se de trabalho árduo nas lavouras, principalmente em períodos de colheita, e no processo de extração do sumo da cana nas casas de moer e de caldeira. 

Ao escrever um livro de memórias, já no final da vida, Ismael homenageia sua mãe, Felismina, mas também o dedica à Baronesa de Viana, pois teria sido ela quem lhe deu “as primeiras diretrizes”, a pessoa que se interessou pelo seu futuro. De maneira reverente, diz ainda que o que conseguiu foi devido “àquele espírito que venero no altar do meu coração”.5 Ismael reconhecia a importância da ação de sua senhora, sabendo que naquela sociedade paternalista e excludente, era preciso se agarrar nas brechas para construir caminhos diferentes.  


Ismael Ribeiro dos Santos
 Ismael Ribeiro dos Santos.  
Fonte: RIBEIRO, Ismael. A Voz do Operário Falando a Verdade. 1930. 

Não foi possível detectar em que ano Ismael foi alforriado. Porém, o fato é que se utilizando da experiência de alfaiate, obtida durante o cativeiro na propriedade do Barão de Viana, migrou para capital da Bahia, onde exerceu tal profissão. O ofício seria de grande importância no seu envolvimento com a política: foi como alfaiate que ele passou a participar de associações de trabalhadores, assim como contribuiu para constituir certo patrimônio que, ao final de sua vida, era bastante considerável, levando em conta suas origens.6 

Ismael Ribeiro manteve certo silêncio com relação a sua origem escrava. Entretanto, na sua militância operária, a escravidão simbolizou como parâmetro para tudo aquilo que o trabalho livre ou operário não deveria ser ou se aproximar. Era uma metáfora, uma forma de apontar limites para as condições estabelecidas pelo patronato aos seus empregados. A abolição da escravidão e a República, nessa visão, significavam uma nova época, na qual os trabalhadores não poderiam mais ser tratados como os escravizados de décadas anteriores. 

É importante lembrar que a articulação de indivíduos oriundos das camadas populares com o programa abolicionista, através da propaganda e da circularidade de ideias, ganha uma perspectiva grandiosa nos anos de 1880. De certo modo, o abolicionismo ocuparia praças, ruas, botequins e outros espaços de concentração de pessoas. A ampla divulgação e explicação do movimento era, naquele momento, uma estratégia consolidada. 

Descritos pelo abolicionista como “filhos do povo”, estes sujeitos pertencentes à classe trabalhadora - em grande parte, negros e mestiços - foram de fundamental importância no crescimento do movimento. Foi justamente com o empenho de tais indivíduos que o ideal abolicionista pôde ser expandido a uma parte maior da população soteropolitana. Ao mesmo tempo em que eles circulavam entre os abolicionistas “letrados”, como jornalistas, médicos, comerciantes e estudantes, também mantinham diálogos e vivências com as camadas populares, incluindo escravos e libertos.

É dessa forma que aparece Ismael Ribeiro. Ele é citado por Camilo Borges como um dos agitadores populares que fizeram com que a causa abolicionista se espalhasse e ganhasse força, defendendo-a em praças públicas7. É provável que, além disso, tenha participado de outras ações praticadas pela Libertadora Baiana, como o auxílio na fuga e acoitamento de escravos. Outros indivíduos negros, de condições semelhantes à de Ismael, também tiveram sua participação no movimento, como Domingos Silva e Manoel Querino. Eles compuseram o quadro da Sociedade Libertadora Baiana durante o abolicionismo, sendo que no período republicano encontraram destaque político como representantes dos trabalhadores, ocupando cargos eletivos e participando de várias entidades de classe.

Na manhã do dia 4 de novembro, depois de passar por Vitória, capital do Espírito Santo, Ismael Ribeiro desembarcou no Rio de Janeiro, onde foi recebido por membros da Liga do Distrito Federal e pelo deputado Felinto Sampaio. De lá foi conduzido ao hotel Rio Branco, onde ficaria acomodado durante sua estadia nas terras cariocas para participar do encontro operário8.


Primeira sessão do 4º Congresso Operário.
 Primeira sessão do 4º Congresso Operário. 
Fonte: A Epoca, 8 de novembro de 1912.

“Meus ilustres companheiros de trabalho”. Com essa saudação, Ismael Ribeiro iniciou seu discurso no citado congresso. Proletariado, artista, operário, são termos utilizados pelo alfaiate em sua fala ao se referir àqueles que vendem sua força de trabalho, ou em outras palavras ditas por ele, “essa classe esmagada pela burguesia”. Supõe, assim, a dimensão da multiplicidade de identidades que o conjunto da classe trabalhadora baiana apresentava no começo do período republicano e de pós-abolição. 

Em tom de denúncia, Ismael diz que “se aboliu a escravidão, porém, as leis liberais mantiveram-na”. Segundo o líder operário, o escravismo foi transformado em salariato; diz ainda que, se por um lado “foram abolidos antigos privilégios”, constituíram também outros, “não menos iníquos”. Dessa forma, era uma sociedade que vivia sob uma “capa fantástica e hipócrita dos falsos princípios de igualdade”.9 

A República deveria ser, na perspectiva de Ismael e de outros trabalhadores, um novo sistema político que representaria mais direitos aos operários, baseado nas prerrogativas de igualdade. Entretanto, o começo da experiência republicana brasileira demonstrou outra coisa. O operário e ex-escravo dizia que o direito que seria para “amparar o fraco e suplantar a força”, foi convertido em um “vergonhoso privilégio dos ricos, dos opulentos, que nos vencem e nos escravizam”.   

É interessante como Ismael Ribeiro também compartilhará, em seu discurso, da mesma perspectiva de relacionar o passado de escravidão com um presente de liberdade inconclusa sob a égide do republicanismo. Como obstáculo encontrava-se a “iniquidade” ou “cruel opressão do patrão contra o operário”, que são partes dos costumes “hereditários da vil escravidão ou servilismo”. Nessas condições, esse novo contexto de pós-abolição e República representava para Ribeiro, uma “mudança de crise”, porém, “fictícia e fantasmagórica”. Dessa forma, “o passado continuará sempre predominando o presente”, sendo para ele, a organização social de “uma face de barbarismo”, apesar de vangloriada como democrática e republicana10 .
Além da consciência política e dos benefícios econômicos, a educação do trabalhador tem para Ismael uma questão forte de libertação.  Ele defendia que era preciso formar o artista nos conhecimentos da instrução primária, pois “a escola forma a vida livre do povo”. Ao que parece, analisando o contexto em que se dava sua experiência enquanto ex-escravo e militante operário, Ismael Ribeiro muito se aproxima dos ideais abolicionistas, pela defesa da educação dos egressos da escravidão como uma forma de ensiná-los a viver em liberdade. Ao operário que desejava uma vida mais digna e cidadã, se faz necessário o acesso à instrução como algo fundamental, pois o seu espírito “escravizado à ignorância, o torna vítima do desprezo social, entregue ao abandono”11.

Pelos operários, mas também pela “grandeza nacional”, Ismael Ribeiro clamou no congresso, que contou com a participação do presidente da República, para que “abram-se escolas!”. Na visão do líder operário, era preciso que fossem abertas escolas primárias, artísticas e de ofícios, técnicas e profissionais, porque era dessa forma que “[sairiam] dessas trevas medonhas da ignorância, para [tomar] parte do banquete da civilização”. Quando esse líder operário fala em educação como carta de emancipação, temos que considerar sua experiência na escravidão onde, fugindo de uma regra mais ampla, teve acesso à instrução e ao aprendizado de um ofício, fato deveras importante para ele quando passou a viver em liberdade, já que de ex-escravo tornou-se um indivíduo de prestígio social e político, e ainda mais, do ponto de vista econômico, conseguiu acumular um patrimônio considerável durante a vida12.

Na penúltima reunião do congresso, uma proposta de Ismael Ribeiro foi aprovada. Considerada como bem fundamentada pelo jornal A Epoca13, a proposta indicava a necessidade de que o Congresso Operário intercedesse junto ao governo para que se tornasse obrigatória a fundação de escolas primárias pelas fábricas, e que fosse garantido o comparecimento dos operários e seus filhos. 
A trajetória de Ismael Ribeiro contribui para uma maior compreensão dos significados do “13 de maio” e a situação sócio-racial do negro no pós-abolição. Nesse sentido, elucida aspectos importantes que reforçam o argumento de que a abolição da escravidão, longe de representar uma dádiva de intelectuais letrados ligados aos “grupos dominantes” da época, configurou-se também como fruto da luta de indivíduos das camadas populares. Muitos deles “homens de cor”, que construíram projetos e significados próprios para a liberdade. Sendo que tal luta, já sob a bandeira do direito à cidadania, estendeu-se ao início do período republicano e, em certa medida, persiste até hoje.



Notas:

* Professor do IFMT. Graduado em História pela UFRB. Mestre em História Social pela UFBA. Consulte Currículo Lattes

1O Paiz (RJ), 30 de outubro de 1912. 

2O ano de nascimento de Ismael Ribeiro é variável através de diferentes documentos, ficando entre 1852-1856. Porém, optou-se pelo ano de 1854, no qual ele próprio declara em seu livro de memórias, ver: RIBEIRO, Ismael. A Voz do Operário Falando a Verdade. 1930, p. 257. Ismael Ribeiro. Também no seu testamento, ver: APEB, Judiciário, Inventário de Ismael Ribeiro dos Santos, 6/2718/0/10.  Para o dia e o mês de nascimento, encontramos em uma nota de aniversário do mesmo, em: O Combate, 22 de outubro de 1927 (jornal). 

3Francisco Vicente de Viana foi nomeado Barão de Viana em 1864, ver: Constitucional, 7 de novembro de 1864 (jornal).

4APEB, Judiciário, Inventário (Auto de Partilha) do Barão de Viana, Conde, 07/3145/0/15.

5RIBEIRO, 1930, p.6

6APEB, Judiciário, Inventário de Ismael Ribeiro dos Santos, 6/2718/0/10

7IGHB. Fundo Teodoro Sampaio.

8Ismael Ribeiro. “A Voz do Operário Falando a Verdade”, p.169.

9Ismael Ribeiro. “A Voz do Operário Falando a Verdade”, p. 193.

10Ismael Ribeiro. “A Voz do Operário Falando a Verdade”, p. 195.

11Ismael Ribeiro. “A Voz do Operário Falando a Verdade”, p. 201.

12Pode-se ter uma ideia da expressividade do patrimônio construído por Ismael Ribeiro, tendo em vista sua origem, em seu inventário post mortem: APEB, Judiciário, Inventário de Ismael Ribeiro dos Santos, 6/2718/0/10.  

13A Epoca (RJ), 14 de novembro de 1912.

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