Exposição Edison Carneiro

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EDISON CARNEIRO, UM BAIANO ILUSTRE


Waldir Freitas Oliveira

Foi, talvez, a partir da obra de Plutarco Vidas Paralelas, da qual constaram 46 biografias de 23 gregos e 23 romanos, por ele considerados ilustres, que se tornou usual o emprego dessa palavra , para distinguir pessoas que pelas suas virtudes, sua ação e pelo exemplo de suas vidas vieram a tornar-se padrões de alta qualidade merecedores de ser imitados pelas gerações que às suas se seguiram. E isto afirmamos em razão de a mesma haver passado a ser conhecida, em tempos posteriores, tanto pelo seu nome original, como por De viris illustribus .

Édison Carneiro foi, sem dúvida, um ilustre, tanto na História da Bahia como na do Brasil. Poucos, tanto quanto ele, dignificaram as páginas que contam o que somos – baianos e brasileiros, com tanto acerto e precisão de análise.

Não foi um empolgado, um espalhafatoso baiano. Soube ver com olhos atentos, a nossa realidade; e nunca se valeu da condição de haver nascido na Bahia, para engrandecer-se ante os olhos dos seus contemporâneos. Diríamos, então, ser a Bahia mais devedora de Édison Carneiro, que Édison Carneiro, devedor da Bahia. E se hoje está sendo lembrado, ao tempo no qual completaria 100 anos de vida, estamos, os que aqui então o louvamos, simplesmente, a fazer-lhe justiça, e a lembrar, com orgulho, haver o nosso Estado, tido a ventura de nele ter ocorrido o seu nascimento, a 12 de agosto de 1912.

Como muitos outros, em seu tempo de jovens, partiu para o sul, em busca de horizontes que se mostrassem perante os seus olhos inquietos e ansiosos por maiores distâncias e mais significativas vitórias, diversos dos que eles avistavam em terras baianas. Seguiu para o Rio de Janeiro, em fevereiro de 1939, aos 27 anos. Levara consigo o amor por sua terra natal; não a abandonou, quer na memória, quer no afeto. Passaria, desde então, a ser mais um baiano exilado. Antes dele, já haviam também partido para o sul, seu grande amigo e companheiro nas inquietações, o grapiúna Jorge Amado, o soteropolitano, como ele, Dias da Costa, Áydano do Couto Ferraz, e o genial santamarense Assis Valente; todos eles buscando, com essa partida, espaços maiores para a expansão dos seus talentos.

Talvez tenha sido eu quem mais haja escrito, na Bahia, a partir de outubro de 1971, sobre Edison Carneiro, relembrando-o como um dos maiores estudiosos das coisas baianas. Foi nesse ano que o conheci pessoalmente.

Como Diretor do Centro de Estudos Afro-Orientais da Universidade Federal da Bahia, organismo fundado em 1957, por iniciativa e empenho de George Agostinho da Silva e contando, desde os seus primeiros tempos, com a presença e atuação de Vivaldo da Costa Lima, Nelson de Araújo e de mim próprio, o convidei, em abril de 1968, para vir à Bahia, a fim de pronunciar, no CEAO, conferência que iria participar do programa com que a instituição comemorou a passagem do 80º aniversário da Abolição da Escravatura. E a 13 de maio daquele ano, foi Édison Carneiro relembrado, de modo oficial, com presença física, em sua terra, da qual estivera afastado durante longo tempo. Haviam se passado 29 anos desde quando partira. Antes disso, somente em 1948, quando estava a Bahia a ser governada por Octávio Mangabeira, que teve como seu Secretário de Educação e Cultura, Anísio Teixeira, fora Édison Carneiro lembrado, quando o seu livro Candomblés da Bahia foi pela primeira vez publicado pelo Museu do Estado, dirigido, nessa época, por José Valadares. Havendo sido, logo após, visitado a Bahia, comissionado pelo Museu Nacional, a fim de recolher material sobre os cultos afro-brasileiros, e encomendar a feitura de bonecas de pano, em tamanho natural, com as vestimentas e insígnias dos orixás, destinadas a ser ali expostas ao público.

Àquela altura, já havia Édison Carneiro publicado, no Rio de Janeiro, seis livros: Religiões Negras (1936); Castro Alves: Ensaio de Compreensão (1937);Negros Bantus (1937); Trajetória de Castro Alves (1947); Quilombo dos Palmares (1947); Antologia do Negro Brasileiro (1948) e no estrangeiro, no México, Guerra de lós Palmares (1946), ali publicado, antes de no Brasil, onde encontrara dificuldades para fazê-lo, havendo contado o autor para isso, com a influência que possuía, naquele país, junto às editoras locais, o Partido Comunista Brasileiro (PCB), ao qual ele se filiara desde a adolescência.

Em 1949 ingressaria Édison Carneiro no serviço público, no corpo funcional da Confederação Nacional das Indústrias, de onde se transferiria, em 1955, para o Serviço Social das Indústrias (SESI), onde permaneceu até o seu falecimento.

Entre os anos de 1950 e 1957 continuaria, contudo, publicando outros livros. E desse modo, foram editados, sucessivamente, em 1951, Linguagem Popular da Bahia, em 1954, A Cidade do Salvador, em 1956. A Conquista da Amazôniae O negro em Minas Gerais, e, finalmente, em 1957, A Sabedoria Popular.

Tais atividades não o afastaram, contudo, do jornalismo, pois figurou, durante toda essa época, como um dos principais redatores dos jornais Última Hora, e, a partir de 1956, do Jornal do Brasil.

Em 1959 iniciaria sua carreira de professor, encarregado que foi do ensino da disciplina “Bibliografia do Folclore”, nos cursos de Biblioteconomia da Biblioteca Nacional. Nessa mesma ocasião havendo integrado o grupo de trabalho que estruturou a Campanha de Defesa do Folclore, da qual participaria, até 1961, como membro do seu Conselho Técnico e, a partir dessa data até 1964, como seu Diretor Executivo.

Não foram interrompidas, há esse tempo, suas atividades como escritor. E, desse modo, em 1960, publicou A Insurreição Praieira; em 1961, Samba de Umbigada, e em 1963, em edição trilingue em francês, em inglês e em alemão, Folclore no Brasil, editado pela Campanha de Defesa do Folclore. Tendo sido ainda o redator da “Carta do Samba”, publicada em 1962.

Após o seu afastamento da Direção da Campanha de Defesa do Folclore, em razão do golpe militar de 1964, passaria a ministrar, na condição de professor visitante, cursos de curta duração, em várias Universidades brasileiras, entre as quais, as de Minas Gerais, Bahia, Pernambuco Paraná e Rio Grande do Sul. Foi quando decidiu candidatar-se à cátedra de Antropologia e Etnografia da Faculdade de Filosofia da Universidade Federal do Rio de Janeiro; não havendo esse concurso, por motivos nitidamente políticos, sido jamais realizado. Não se detendo, contudo, em seu trabalho intelectual; razão pela qual publicou, a essa época, dois importantes trabalhos: Ladinos e Crioulos , em 1964, eDinâmica do Folclore, em 1965.

No ano seguinte, em 1966, foi nomeado membro da Comissão criada pelo Ministério das Relações Exteriores para organizar a representação brasileira aoPrimeiro Festival Mundial de Arte Negra, a realizar-se em Dakar, no Senegal. Havendo para ali seguido em companhia, entre outros, de Clarival Valadares e de mim próprio, e passado a exercer a Direção da Delegação Brasileira, após o regresso antecipado, ao Brasil, de Clarival Valadares.

De Dakar, seu primeiro contacto com a África Negra, atendendo a convite especial que lhe foi feito, pela UNESCO, seguiria, então, para o Dahomey (atual Benin) onde participou do Colóquio Africa-América Latina, tento tido a ocasião de visitar outros países africanos. Entre eles, o Togo e a Nigéria. Tendo então publicado, em francês e em inglês, um precioso artigo sobre as religiões afro-brasileiras, inserido no contexto de um caderno de estudos editado pelo Ministério das Relações Exteriores, sob o título, em português, deContribuição da África à Civilização Brasileira.

Em 1971, quando de uma nova visita à Bahia, mais uma vez a convite do Centro de Estudos Afro-Orientais, o cronista que então se assinou com as iniciais W.F.O., publicou em A Tarde, em sua edição de 2 de outubro de 1971, as seguintes palavras:

É sempre um prazer muito grande revê-lo. Baiano de quatro costados, exilado na Guanabara, mas com umbigo enterrado na terra do Senhor do Bonfim, vez em quando está entre nós. É verdade que levou muito tempo antes de começar a voltar. Mas agora, para nossa alegria, aparece por aqui cada vez mais amiúde.

Falo de Édison Carneiro. E quem não conhece o bom baiano de “Candomblés da Bahia”, um dos livros mais editados nesse País, onde basta uma segunda edição para consagrar um autor?

Muito lhe devemos. E ainda não lhe soubemos pagar. Muitos outros dos filhos dessa terra têm merecido de nós, enquanto vivos, homenagens justas. Mas não sei bem porque o nosso Édison é sempre esquecido. (W.F.O., 1971, p.4).

Este cronista era eu próprio; que tudo fazia, nessa época, para trazer Édison Carneiro de volta à Bahia. E dizia ainda:

No Axé do Opô Afonjá, no Gantois, na Casa Branca e no Alaketu, todos o esperam – as ialorixás, as iaôs, as abiãs e os alabês. Também os seus amigos aguardam a sua volta: Waldir Oliveira, Vivaldo da Costa Lima, José Calasans, Thales de Azevedo e tantos outros que não se conformam com o prolongamento da sua ausência. Finalmente é a Bahia inteira que faz questão de tê-lo novamente entre nós, de reconstituir, pouco a pouco, o seu patrimônio, já tão dilapidado, tantos são os seus filhos que decidiram sair por aí, a fazer mundo, para um dia voltar e não regressam mais. (W.F.O., 1971, p.4).

Édison Carneiro, porém, não voltou à Bahia. Não fez como Jorge Amado, que resolveu regressar à sua terra e lançou, finalmente, âncoras no Rio Vermelho, como um velho marinheiro. E, um ano depois, o mesmo W.F.O., a 23 de agosto de 1972, escreveu, naquele mesmo jornal, a crônica - Dois Sessentões, referindo-se, então, tanto a Edison Carneiro como a Jorge Amado, com palavras que merecem ser aqui relembradas, Disse então:

Neste agosto de 1972, dois grandes baianos completam sessenta anos.

Seria de lamentar tal fato se já estivessem decrépitos ou vivendo, simplesmente, das glórias do passado. Mas, muito ao contrário, encontram-se eles com mais vigor que nunca, e sua juventude maior do que em outros com vinte ou trinta anos a menos nos costados.

A exemplo dos bons vinhos que quanto mais velhos melhores ficam, Jorge Amado e Édison Carneiro desafiam o tempo e podem, com justiça, ostentar em vida a condição dignificante de monumentos de uma época que permitiu a toda uma geração, no Brasil, aprender, descobrindo a si mesma, a descobrir o mundo.

Aos homens que alcançaram a maturidade durante a década de 1930, muito devemos nós, os que chegamos depois. Quando da “Revolução dos Tenentes”, andavam pelos seus dezoito anos, com a “Revolução Constitucionalista de São Paulo”, alcançavam os vinte, entre os vinte e os vinte e seis assistiram a intentona comunista, a imposição do Estado Novo e a tentativa do golpe integralista; finalmente, antes de atingir os trinta, presenciaram a marcha das forças nazistas contra a Polônia, no início da maior conflagração já ocorrida na Terra.

Sofreram na alma todas as consequências da agitação daqueles dias. E os conflitos de ideias, sempre mais dolorosos que os dos corpos, devem ter-lhes deixado marcas profundas. Tentando definir-se como homens, bem que o conseguiram, a despeito de todos os entraves que por vezes lhes dificultaram os passos.

Diferem os homens dos anos de 1930 daqueles dos anos de 1940. Esses últimos já encontraram o mundo envolto em conflito sangrento e tiveram a oportunidade de ver triunfantes as tropas que lutavam em prol da liberdade humana. Não tiveram de fazer o mesmo esforço para definir-se, como os que lhes antecederam. Quase lhe foi imposta uma posição.

No esforço pela própria afirmação, tanto Jorge como Édison, se mostraram dignos do seu tempo e deles mesmos. Um, no campo das letras, a escrever romances, outro, no campo das humanidades, a efetuar pesquisas sobre o negro brasileiro. Ambos como produtos autênticos de uma época confusa que desafiava a todos pela sua complexidade e permitia definições apenas aos mais capazes.

Sentimos hoje justo orgulho desses dois baianos. Olhamos, em retrospecto, suas vidas e somos forçados a admirá-los. Por haverem sabido construir algo durável e porque continuam a legar aos que depois deles chegaram.

Pouco a pouco, os do seu tempo vão alcançando a c asa dos sessenta. Nem todos com o mesmo vigor e com a disposição que ainda possuem. Muitos talvez desiludidos e cansados. Apesar, contudo, da idade que alcançaram, nem Édison Carneiro nem Jorge Amado abdicam do papel que sempre desempenharam como abridores de caminhos. Ambos merecem, pois, ser saudados, efusivamente, nessa ocasião, por todos os brasileiros e, mais ainda, pelos seus conterrâneos. Principalmente quando sabemos não serem muitos os sessentões de hoje que merecem, pelo que já fizeram, ser parabenizados. (W.F.O., 1972, p.4,11).

Édison Carneiro morreu no Rio de Janeiro, em 2 de dezembro de 1972. Após o seu falecimento, três novos livros de sua autoria foram ainda publicados -Folguedos Tradicionais, um dos mais completos trabalhos sobre a cultura popular brasileira, publicado no Rio de Janeiro, em 1974, do qual afirmou Vicente Salles, na “Apresentação” que para o mesmo escreveu, deve ser considerado como “[...] a maior afirmação de amadurecimento desta disciplina [o folclore] em nosso País” (SALLES, 1974); Ursa Maior, uma pequena coleção de ensaios, em grande parte escritos na juventude do autor, editado em 1980, pelo Centro de Estudos Afro-Orientais da Universidade Federal da Bahia, organizado e editado graças ao empenho e aos esforços de Waldir Freitas Oliveira e Musa Capenga, no qual foram reunidos, em 2006, publicado pela Fundação Cultural do Estado da Bahia, os poemas até então esquecidos de Édison Carneiro, por ele próprio postos de lado no conjunto de sua produção, mas que nele reapareceram graças ao extraordinário trabalho de garimpagem do escritor baiano, atualmente radicado em Aracaju, Gil Francisco, publicado pela Fundação Cultural do Estado da Bahia. Não devendo deixar de aqui referir-nos à edição, em 1987, em São Paulo, do livro Cartas de Édison Carneiro a Artur Ramos: De 4 de janeiro de 1936 a 6 de dezembro de 1938, organizada por Waldir Freitas Oliveira e Vivaldo da Costa Lima, precioso em função do seu caráter de documentação, nele achando-se reunidos textos até então inéditos da correspondência trocada, no tempo nele referido, entre esses dois gigantes da antropologia brasileira. Dele constando, em seu “Prefácio”, a afirmação feita por Thales de Azevedo, declarando que:

Édison Carneiro recebe nas páginas dessa coletânea, merecido e conveniente tributo ao renome que já o colocava a par dos maiores vultos da antropologia – e do folclore, a que se deu com entusiasmo – no Brasil. (AZEVEDO, 1987, p.9).

As homenagens que ora lhe são prestadas pela passagem do seu centenário de nascimento, são, portanto, justas e louváveis. Como historiador, como folclorista, como um dos maiores estudiosos das culturas africanas no Brasil, o seu nome se destaca e assume relevo particular.

Em 1969, em razão da excepcionalidade do seu trabalho como intelectual, Édison Carneiro foi agraciado, pela Academia Brasileira de Letras, com o “Prêmio Machado de Assis”; e condecorado pelo Governo do então denominado Estado da Guanabara, com a “Medalha Sílvio Romero” e pela cidade de São José do Rio Preto, em São Paulo, com a “Medalha Euclides da Cunha”. Falta, contudo, ao nosso Estado, honrar a sua memória, de forma mais evidente, dando o seu nome a uma das principais ruas ou praças da capital baiana, visando perpetuá-la. Desde quando foi Édison Carneiro, sem qualquer dúvida, um dos mais ilustres filhos da Bahia.

Referências

AZEVEDO, Thales de. Prefácio. In: OLIVEIRA, Waldir Freitas; LIMA, Vivaldo da Costa. Cartas de Édison Carneiro a Arthur Ramos: De 4 de janeiro de 1936 a 6 de dezembro de 1938. São Paulo: Corrupio, 1987. (Baianada, 5).

SALLES, Vicente. Apresentação. In: CARNEIRO, Édison. Folguedos tradicionais. Rio de Janeiro: Conquista, 1974.

W.F.O. Édison. A Tarde, Salvador, p. 4, 2 out. 1971.

______. Dois Sessentões. A Tarde, Salvador, p. 4,11. 23 ago. 1972.


Waldir Freitas Oliveira é historiador, geógrafo, bacharel em direito, sócio remido do Instituto Histórico e Geográfico da Bahia e membro da Academia de Letras da Bahia ocupando a cadeira n° 18.

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