Por Luciana Brito*

Frederick Douglass: o olhar de um abolicionista negro estadunidense sobre escravidão e liberdade no Brasil Imperial.



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Frederick Douglass é uma das mais importantes personalidades negras estadunidenses do século XIX. Nascido em 1818 em Maryland, filho de mãe escravizada e pai branco senhor de escravos, tornou-se livre aos 20 anos, quando fugiu do cativeiro. Douglass foi autodidata, escritor, orador e editor de vários jornais, muitos deles fundados por ele mesmo. Como abolicionista atuante, fundamental na luta pela liberdade, igualdade e cidadania nos Estados Unidos, ele estava atento à realidade do seu país, mas sempre de uma forma ampla no contexto da política mundial. A este abolicionista não interessava somente a realidade da população negra dos Estados Unidos, país em que dizia ter orgulho de ter nascido. Douglass queria também compreender a situação das populações negras espalhadas pelo continente Americano, fosse na América Latina, do norte ou no Caribe. Para ele, os povos negros tinham especificidades; entretanto, a condição de cativeiro e retirada do continente africano fazia desses povos unidos por uma condição comum que, potencialmente, viria a ser uma importante arma política.

Frederick Douglass
 Disponível em: https://goo.gl/RXPKTN

A  reputação de Frederick Douglass como ferrenho defensor da causa da liberdade, valeu-lhe comparações com nosso abolicionista, também brilhante, Luis Gama. Em 1964, o importante jornal da imprensa negra estadunidense, o Chicago Defender, publicou um artigo afirmando que “Luis Gama foi o Frederick Douglass do Brasil”. Comparações à parte, as semelhanças da trajetória de cada um, de fato, são muitas. Ambos nasceram de mãe escravizada e pai branco, foram autodidatas, escritores e dedicaram suas vidas à causa da liberdade.

 Jornal Pedro Gama

Além de Haiti, Cuba e Jamaica, a produção intelectual e ativista de Douglass analisou a condição da população negra brasileira, produzindo impressões sobre a escravidão e relações raciais no Brasil oitocentista. Vários aspectos do Império brasileiro estavam em sintonia com suas preocupações nas décadas de 1850, e o exemplo brasileiro estava conectado com seus questionamentos à sociedade escravista estadunidense. 

Aquela década protagonizou leis que impactaram a luta abolicionista estadunidense, o que radicalizou o movimento diante do avanço do poder escravista no país. Em 1850, o congresso aprovava a Fugitive Slave Law (Lei do escravo fugitivo), que autorizava senhores de escravos a capturarem escravos que haviam fugido da região sul em direção à região norte, que era livre da escravidão. No ano de 1854, o Kansas Nebraska Act (Ato de Kansas-Nebraska) autorizava a expansão da escravidão nos novos territórios de Kansas e Nebraska. Por fim, em 1857, o Dred Scott Case foi o maior golpe sobre a comunidade afro-americana, já que a partir deste processo, a Suprema Corte dos Estados Unidos decidiu que os afro-americanos não eram cidadãos.

Frederick Douglass, assim como diversos abolicionistas, usou intensamente a imprensa negra para divulgar suas ideias em defesa da liberdade e da cidadania para a população negra. Esses jornais vinham de uma longa tradição que começou ainda na primeira metade do século XIX. O primeiro jornal da imprensa negra, o Freedom’s Journal, foi fundado em 1827. Douglass foi editor de quatro jornais: o The North Star (1847), The Frederick Douglass Paper (1851), o Douglass Monthly (1859) e o The New National Era (1870).

O Brasil apareceu, já em 1849, nas páginas do jornal The North Star. No artigo “Blacks in Brazil”, podemos perceber a crença de uma das ideias mais comuns sobre a sociedade brasileira, que era a noção de que a mistura racial praticada sem impedimentos legais ou rejeições sociais, era um indício da falta de preconceito racial no Império brasileiro. Dessa forma, o artigo denunciava a excentricidade do racismo estadunidense, que afirmava cientificamente a inferioridade das pessoas de origem “híbrida” e a necessidade da segregação racial no norte:

O estado social da população brasileira não é marcado pela distinção de cor, tão imperativa em outro país na produção de classes. No Brasil só existe distinção entre liberdade e servidão. Os negros têm acesso a tudo, e estão em posse de muitos cargos de honra e confiança, e engajados em todos os departamentos de negócios.1               

O tema da mistura racial e a ausência de segregação racial nas leis imperiais brasileiras fez o país voltar às paginas da imprensa negra estadunidense em 1852. Novamente, isso aconteceria em mais um jornal editado por Frederick Douglass, o jornal The Frederick Douglass Paper. 

Outro sério obstáculo para a disseminação dos princípios anti-escravistas nos Estados Unidos é muito menos presente no Brasil, que é o sentido de casta e a antipatia dos brancos de se misturar ou se associar aos negros. Neste país, a mistura de raças e a mistura de cores já fez muito para nivelar este impedimento com a aceitação da emancipação.

O texto ainda afirmava que, pelo rumo das relações raciais no Brasil e pela resistência dos Estados Unidos em aceitar a mistura racial, era possível prever que o Império abolisse a escravidão primeiro. Sabemos que isso não aconteceu, já que o Brasil aboliu a escravidão em 1888 enquanto o cativeiro foi extinto naquele país com o fim da Guerra Civil, em 1865. Mesmo assim, as notícias de que no Brasil haviam libertos inseridos no governo, no exército, nas igrejas na condição de clérigos e que muitas dessas pessoas eram fruto da mistura racial entre negros, indígenas e europeus eram fatos que oportunamente interessavam a abolicionistas como Frederick Douglass.

Mapa
Disponível em: https://goo.gl/hzke7P

Tais exemplos da integração de negros e mulatos no Brasil Imperial questionariam as teses racialistas, políticos defensores da escravidão e os defensores de políticas segregacionistas estadunidenses.  O exemplo brasileiro afirmava as capacidades intelectuais dos indivíduos chamados “mulatos”, considerados inferiores e degenerados pelos cientistas poligenistas. Além disso, acreditava-se em uma aparente integração racial que permitia aos negros libertos ascenderem socialmente no Brasil. Isso seria resultado da ausência de leis segregacionistas, tais como existiam na região norte dos Estados Unidos. Embora a região norte fosse livre da escravidão desde a primeira metade do século XIX, preservaria ainda por muito tempo uma forte rejeição à presença da população negra livre. Isso se manifestava através de segregação nas igrejas, transporte público e nas escolas. Inicialmente estas práticas eram impostas pelo costume, mas depois ganharam status de leis.

Nesse sentido, o Império brasileiro parecia um exemplo de respeito à cidadania da população liberta e de uma integração harmoniosa entre as populações negra e branca. Ao mesmo tempo, esse exemplo também dava mais evidência e ênfase à denúncia do preconceito e do atraso das políticas e práticas sociais racistas dos Estados Unidos.

Os usos e apropriações do exemplo brasileiro continuaram a ser feitos no discurso abolicionista negro estadunidense, novamente através de Frederick Douglass. Dessa vez, seria em maio de 1858 no discurso chamado “Cidadania e o espírito de casta”. A fala era uma resposta à proibição de a população negra de Nova York utilizar o transporte público ou fazê-lo sob a condição de não o dividir com pessoas brancas. Esta era uma das várias leis segregacionistas empregadas na região e que, como vimos anteriormente, marcava a experiência dos libertos com episódios de racismo e violência.

No discurso, Douglass citou o exemplo dos mulatos brasileiros e como suas habilidades e intelectualidade poderiam aflorar quando encontravam um ambiente de incentivo e estímulo. Aqui, ele estava se referindo especificamente ao fato de, no Brasil, os libertos nacionais, e não os africanos, serem cidadãos segundo a Constituição do Império. Mesmo que não fosse uma cidadania plena, uma vez que os libertos brasileiros não podiam votar em todas as instâncias eleitorais nem podiam ser eleitos, isso já era um grande avanço no olhar do abolicionista estadunidense. Nos Estados Unidos, a cidadania dos libertos só viria em 1868, após lutas e reivindicações de várias lideranças abolicionistas como Frederick Douglass.

Se o homem de cor pôde se elevar da degradação à respeitabilidade no Brasil, com o mesmo tratamento nós também podemos nos elevar aqui. Se ele pode ser estimado como um homem pelo português, ele também pode ser tão estimado pelos anglo-saxões e celtas. Se ele pode obter justiça das mãos dos católicos, por que não também das mãos dos protestantes?2

Percebemos aqui que Douglass se apropriou da experiência de outros povos negros da diáspora, como os afro-brasileiros, para aproximá-la da experiência dos afro-americanos, reforçando a ideia de que os povos negros de ambos os países compunham um só povo. No mesmo discurso, ele também respondia a um antigo projeto em voga desde o inicio do século XIX, que era a proposta de deportar os afro-americanos libertos para outras nações como o Brasil, algum país do caribe, ou países do continente africano. Essa seria uma forma de impedir a mistura racial e de conviver com indivíduos libertos na condição de cidadãos, exigindo direitos iguais aos da população branca.

Portanto, o fato de que os libertos no Brasil tivessem o “direito” de permanecer no país em que nasceram interessava bastante ao debate político travado pelo abolicionista, que defendia o direito da população negra estadunidense permanecer no país onde nasceram. Douglass mostrava como o Brasil não negava a nacionalidade das populações afro-brasileiras e, sendo os povos negros dos dois países grupos em condições semelhantes, o abolicionista questionava a razão da política norte-americana que insistia em não aceitá-los como parte da sociedade:

Por que os americanos devem ser menos tolerantes em relação às diferenças nacionais de formas, características e cor da pele do que outras nações de raça branca, que em muitos outros aspectos são muito menos iluminados do que nós? Por que é que nós não ouvimos falar em projetos para se livrar das pessoas de cor livres em Cuba ou no Brasil? Neste último país, onde há mais de quatro milhões de escravos negros, o homem livre de cor não é sujeito à expatriação. No momento em que as correntes são tiradas do seu corpo, ele está em plena liberdade para ocupar qualquer cargo desde que seus talentos e conhecimentos lhes caibam. Por que não deve existir a mesma facilidade aqui?3

Douglass carregava consigo algumas crenças em voga na sociedade estadunidense sobre os países latino-americanos. Aparentemente, ele também acreditava que o Império fosse uma nação “menos iluminada” que os Estados Unidos, fosse por causa da monarquia, o catolicismo ou talvez também pela geografia que, segundo a ciência da época, impunha limites ao desenvolvimento intelectual às populações que viviam nos trópicos. Havia então para Douglass uma incoerência: como os libertos dos Estados Unidos não viviam sob as mesmas regras dos libertos brasileiros? Como estes últimos, quando libertos, viviam em uma condição mais favorável que seus semelhantes que viviam no norte, na suposta “terra da liberdade”?

O grande paradoxo era o fato de o Brasil ainda ser um país escravista, e mesmo assim, estar sendo utilizado por Douglass e outros abolicionistas negros como um exemplo. Além disso, a liberdade, cidadania e integração social dos libertos brasileiros, ainda que de certa forma romantizada, alimentava os sonhos e projetos desse abolicionista de viver numa sociedade estadunidense que cultivasse outras relações raciais.

As impressões de Frederick Douglass sobre o Brasil também nos revelam outros aspectos da sua produção intelectual e da sua atuação como abolicionista. Através das suas representações, podemos notar como ele avaliava a condição das populações negras americanas de forma conjuntural, reconhecendo aspectos específicos, mas também comuns da experiência negra nas Américas. A transnacionalidade da sua análise também nos permite perceber sua crença de que as sociedades americanas no pós-abolição deveriam trilhar um caminho comum, onde a cidadania e a igualdade fossem indissociáveis à vida em liberdade.



Notas

*Professora do colegiado de História da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia. Possuí doutorado em História Social pela Universidade de São Paulo (USP). Consulte Curriculo Lattes

1The North Star, 13 jul. 1849.

2Discurso de Frederick Douglass, citado em “Blassingame”, The Frederick Douglass Papers. Series one: speeches…, cit., p. 212.

3Id., ibid.

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