O Dia Seguinte


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Há 129 anos, no dia 13 de Maio de 1888, foi decretado o fim da escravidão em terras brasileiras. A historiografia brasileira vem demostrando, há décadas, que as experiências e trajetórias que se seguiram à abolição foram fortemente configuradas por tensas disputas por cidadania demandadas pelas populações egressas do cativeiro e seus descendentes. A lei de número 3.353, mais conhecida como Lei Áurea, resumiu mais de três séculos de escravidão em apenas dois minúsculos artigos:

Art. 1°: É declarada extinta desde a data desta lei a escravidão no Brasil.
Art. 2°: Revogam-se as disposições em contrário.

O primeiro artigo extinguiu a escravidão em todo o território nacional, o outro revogou a legislação anterior sobre o tema, ou seja, está claro que nenhum projeto de sociedade e política pública ampla foi pensado de forma séria - ou pelo menos levado em consideração - para os ex-escravos e seus descendentes. Pelo contrário, o próprio Estado brasileiro se reformulou para pensar qual seria o lugar ou o não lugar da população negra nos dias que se seguiriam ao 13 de maio: instituições foram forjadas, códigos e leis reformulados, manifestações culturais e religiosas negras tornaram-se crime, cientistas desenvolveram teses racistas e higienistas etc.

A partir da década de 1980, a historiografia brasileira debruçou-se com mais afinco sobre essas problemáticas, construindo um arsenal de conceitos, pesquisas e metodologias que nos ajudam a entender as rupturas, continuidades e reformulações de práticas preconceituosas, segregacionistas e racistas, desenvolvidas tanto pelo Estado brasileiro quanto por suas instituições e pela sociedade como um todo. Esse período histórico a que chamamos pós-Abolição: de 1888 margeando a década de 1930 demonstra como o povo negro articulou sua sobrevivência e suas demandas; lutas por terra, sindicalismo, educação, moradia, greves, festejos, religião, trabalho, direitos civis, sociais e políticos foram algumas das pautas que fizeram parte das demandas daquele contexto histórico.

Diante do exposto, a Biblioteca Virtual Consuelo Pondé lança neste mês de maio de 2017 uma série denominada: O Dia Seguinte: Pós-abolição no Brasil. Com textos de 18 pesquisadores/as da Bahia e de outros Estados do Brasil, a partir do dia 14 até 31 de maio serão publicados um por dia, onde buscamos refletir sobre as múltiplas experiências da população egressa do cativeiro, tanto aqueles que viviam em situação de escravidão no momento da Abolição, quanto os seus descendentes. Assim buscamos oferecer ao grande público, especialmente professores e alunos da educação básica, textos com uma linguagem fluida, mas baseados em densas pesquisas. 
 
No dia 19 de maio de 1888, Machado de Assis escreveu sua crônica sobre o Treze de Maio. Com seu requinte irônico, analisa a recém-liberdade do personagem Pancrácio (escravo), revelando o que seria o dia seguinte. Nas palavras de Machado de Assis: “Pancrácio aceitou tudo; aceitou até um peteleco que lhe dei no dia seguinte, por me não escovar bem as botas; efeitos da liberdade. Mas eu expliquei-lhe que o peteleco, sendo um impulso natural, não podia anular o direito civil adquirido por um título que lhe dei. Ele continuava livre, eu de mau humor; eram dois estados naturais, quase divinos”.

A partir do dia 15 de maio, um artigo será publicado por dia. Confira!

Boa Leitura! 


Frederick Douglass: o olhar de um abolicionista negro estadunidense sobre escravidão e liberdade no Brasil Imperial

Por Luciana Brito

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Depois da abolição: histórias de luta por sobrevivência e cidadania no recôncavo sul da Bahia

Por Edinelia Maria Oliveira Souza 

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Ismael Ribeiro: “Abram-se escolas!” 

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Germano Lopes da Silva: experiências de um carnavalesco, eleitor e cidadão no Distrito Federal (c. 1900-1930)

Por Eric Brasil0
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A saga de Victorino: Uma história de liberdade, religiosidade e poder no pós-abolição 

Por Josivaldo Pires de Oliveira

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Sentidos de justiça - Dorothea, João e os seus filhos. Ribeirão Preto, 1880 

Por Maria de Fátima Novaes Pires 

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Honorata de Tal e outras meninas mulheres negras de Feira de Santana

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A história de Benedito Viana

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Maria de Lurdes Vale Nascimento, uma intelectual negra do pós-abolição

 Por Giovana Xavier da Conceição Nascimento

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Penas de morte e galés na Bahia oitocentista

Por Claudia Trindade 
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A história da cozinheira Joanna Valeria Pires e das africanas que a ajudaram (Salvador, 1894)

Por Maciel Henrique Carneiro da Silva  
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Escolas noturnas na Bahia após a lei 13 de maio de 1888

Por Jucimar Cerqueira dos Santos 
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Conflitos na feira da praça do porto

Por Lucas Santos Aguiar


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Eliseu Elias César: um letrado negro no Brasil da pós-abolição

Por Solange Rocha e Elio Flores 
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A existência difamada da gente negra

Por Ana Flávia Magalhães Pinto
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A dormência da cor: liberdade e pós- abolição no recôncavo Baiano

Por Clíssio Santos Santana 

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