Denise Tavares

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Na década de 1950, a velha cidade da Bahia, como era conhecida a cidade de Salvador, era uma capital de Estado com pouco mais de 400 mil habitantes. Uma cidade marcada pelos traços rurais nas práticas e costumes, na economia, mentalidade, mas na busca de perspectivas de avanço e modernização. Era a cidade dos bondes elétricos, carregados de charme e simpatia que cortavam as ruas de paralelepípedos, a cidade das missas no largo do Terreiro de Jesus aos domingos, da primeira geração de petroleiros da recém-criada Petrobras, dos bailes nos clubes das elites e das classes populares, da rinha de galo na rua, das feiras livres, dos candomblés famosos, do veraneio em Itapuã, do terno branco de linho e do vestido engomado, das obras de Jorge Amado, esculturas de Carybé e da música de Dorival Caymmi. Era a velha cidade da Bahia, pobre e opulenta ao mesmo tempo.
É nesse contexto um tanto poético, mas ao mesmo tempo verossímil, que narraremos um pouco da trajetória de vida, trabalho e dos sonhos de nossa personagem: Denise Tavares, uma mulher que labutou para transformar fábulas em realidade. Uma mulher que dedicou sua vida aos livros, leitura e políticas educacionais para crianças.
Era apenas uma casinha branca de janelas azuis, rodeada de oitizeiros, que ficava na ponta de um grande jardim arborizado e fresco chamado Jardim de Nazaré, próximo ao conhecidíssimo Hospital Santa Isabel, na cidade de Salvador. A dita casinha funcionava como um depósito para a guarda de ferramentas e máquinas para os cuidados do jardim. À primeira vista, parecia um local encantado, onde crianças de todas as idades e origens iam passar as tardes a escutar histórias, ler e folhear livros feitos só para elas, onde saltavam às vistas e ganhavam vida personagens feitos de panos, sabugos, ventos, poeiras, mares etc. Ali, fábulas tornavam-se realidade, sonhos e amores nasciam e cresciam a cada história contada e lida. Dentro da casinha azul tudo parecia mágico. Era o mundo das letras e dos livros, era o mundo das crianças. Era a primeira Biblioteca Infantil do Norte e Nordeste e segunda de todo o Brasil.
Isso, nos idos da década de 1950, quando o nordeste brasileiro, marcado pelo desprezo político preconceituoso e pelo analfabetismo reinante, recebeu a sua primeira “casa só de livros” para crianças.

Denise Tavares



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Como no mundo das fábulas mirabolantes, o mundo real também tem seus criadores. Nesse caso, estamos falando de gente de carne, osso e coração gigantesco: a “fada” das crianças, como era chamada Denise Fernandes Tavares, fundadora e diretora da Biblioteca Infantil Monteiro Lobato. Foram suas mãos diligentes e mente tenaz que fizeram daquele formoso e singelo chalezinho-depósito no jardim de Nazaré uma biblioteca infantil cheio de livros e crianças.
Em uma cidade chamada Nazaré das Farinhas, no interior da Bahia, em 1925, nasceu Denise, que veio para esse mundo investida de uma importante missão educacional. Já sonhava grande quando, ainda criança, ensinava as artimanhas da língua portuguesa e da geografia a suas bonecas de pano, que seus pais compraram na Feira de Caxixi. Seus irmãos foram nascendo e crescendo e ela, irmã zelosa e muito séria, líder nata da família, encarregava-se de suas necessidades em educação, ensinando-os os caminhos dos livros. Devorava livros e mais livros, e foi assim que digeriu toda a obra de Monteiro Lobato, por quem nutriu verdadeira adoração durante toda a sua vida. Já no final da adolescência, a menina Denise, sempre preocupada com grandes questões, sobretudo com a educação, acostumou-se a escrever para jornais ou a trocar correspondência com secretários de educação. Formou-se professora primária em 1942, na escola Normal de Nazaré onde lecionou pouco tempo, pois logo no ano seguinte foi nomeada em concurso público e transferida para Salvador. Só em 1958 que obteve seu diploma de biblioteconomia pela UFBA, mas antes disso, Denise já havia criado várias bibliotecas na capital e no interior do Estado.

Biblioteca







Pela sua astúcia e inteligência política, rapidamente Denise Tavares tornou-se amiga do educador baiano e secretário de educação Anísio Teixeira, conhecido por suas teorias e ações revolucionárias no campo da educação e da cultura. Além de Anísio e outros intelectuais, Denise tornou-se bastante amiga do radialista e jornalista Adroaldo Ribeiro Costa, criador e produtor de um famoso e popular programa de rádio infantil chamado Hora da criança, uma pessoa de fundamental importância no apoio aos projetos de Denise.
A pensadora Denise, em correspondência assídua com Anísio Teixeira, questionava sobre o futuro. Para Denise, o futuro do homem devia ser construído através do fácil acesso aos encantamentos dos contos de fadas e das histórias dos grandes escritores. Intrépida e incansável, não economizou meios de se fazer ouvir. Além de manter uma coluna no jornal onde versava sobre os mais variados assuntos da realidade brasileira, sobretudo a educação e a saúde públicas, escrevia para deputados, vereadores, presidentes, escritores etc... Ainda ocupando o lugar de professora, estava cada dia mais empenhada em criar uma biblioteca infantil.


Obras Denise Tavares


AS BIBLIOTECAS INFANTO-JUVENIS DE HOJE

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TAVARES, Denise Fernandes. As bibliotecas infanto-juvenis de hoje. Salvador, BA: Biblioteca Infantil Monteiro Lobato, 1970. 52 p.

Análise sobre bibliotecas infanto-juvenis sob a perspectiva da bibliotecária Denise Tavares que demonstra toda a sua experiência na Biblioteca Infantil Monteiro Lobato, Salvador-BA. 

BIBLIOTECA INFANTIL

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TAVARES, Denise Fernandes. Sugestões para organização duma pequena Biblioteca Infantil. 2 rev. e ampl. Salvador: Biblioteca Infantil Monteiro Lobato, 1960. 146 p.


Nesta obra Denise Tavares apresenta como ocorre a administração de bibliotecas infantis com informações desde sua organização até o seu funcionamento.

 


BIBLIOTECAS NA BAHIA

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TAVARES, Denise Fernandes. Bibliotecas na Bahia: situação atual, planejamento . Salvador: Biblioteca Infantil Monteiro Lobato, 1967. 50 p.


Tendo em vista as bibliotecas na Bahia Denise Tavares aponta a situação das bibliotecas na Bahia e como deve ocorrer seu planejamento.

 

DENISE TAVARES - Biografia

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ARAGÃO, Esmeralda Maria de; FREITAS, Joseania Miranda. Denise Tavares: traços biográficos. Salvador: EDUFBA, 2008. 157 p. ISBN 9788523204945


Apresenta a biografia da bibliotecária baiana Denise Tavares e a sua história com a Biblioteca Infantil Monteiro Lobato, Salvador-BA.

 

BIBLIOTECA ESCOLAR

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TAVARES, Denise Fernandes.

 

A biblioteca escolar. São Paulo: Lisa - Livros Irradiantes S/A, Instituto Nacional do Livro, 1973. 161 p.

 



Orientação sobre o funcionamento da biblioteca escolar através da conceituação, organização e seu funcionamento.



A história da “casa só de livros” confunde-se com a de sua desvelada “mãe”. No final do ano de 1947, Denise Tavares, que era professora na escola Joana Angélica, no bairro de Nazaré em Salvador, conheceu o seu ídolo de infância, Monteiro Lobato. Seu amigo jornalista, Adroaldo Ribeiro, apresentou-lhe o escritor que, por sua vez, disse-lhe numa carta lembrar-se muito bem dos seus olhos e de sua inteligência. Monteiro Lobato faleceu no ano seguinte e, perseguindo o seu sonho mais caro, a intrépida professora iniciou seu penoso processo para conseguir criar a biblioteca para crianças. Até esse momento, existia uma única biblioteca infantil em todo o Brasil: a Municipal de São Paulo, fundada em 1936 pelo então secretário municipal de cultura Mário de Andrade e, somente em 1955, tornou-se Biblioteca Infantil Municipal Monteiro Lobato.
Após o encontro com Monteiro Lobato em 1947, e posterior morte do escritor em 1948, Denise Tavares intensifica sua labuta. Levou a ideia de criar uma biblioteca infantil ao secretário de educação e amigo Anísio Teixeira. Era o governo de Otávio Mangabeira. Rapidamente obteve o apoio do secretário, mas sua sina era maior: arrecadar dinheiro suficiente e conseguir um espaço adequado para a instalação da biblioteca. Mobilizou políticos, intelectuais, instituições da Bahia e de fora, além da família do próprio Monteiro Lobato. Com sua garra e simpatia conseguiu sensibilizar a todos por onde passava.

Denise bibliotecária e militante




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Finalmente, o pequeno chalé da Praça de Nazaré foi doado pela prefeitura de Salvador para a criação da biblioteca. Em dois longos anos de campanha (1947 – 1949) e trabalho árduo, Denise arrecadou vinte e sete contos de réis, quantia suficiente para comprar os primeiros 700 livros e fazer os ajustes das instalações. A cada dia que passava, aproximava-se a realização do seu sonho! Estava chegando a grande hora: a casa de livros para crianças deixaria de ser uma fábula e se tornaria uma realidade!
Era uma manhã de terça-feira, dia 18 de abril de 1950. Chegou o grande dia! A Biblioteca Infantil Monteiro Lobato foi inaugurada no dia em que se comemorava o aniversário do seu patrono. O sonho se tornou mais que realidade, tornou-se política pública de educação e cultura. Rapidamente os alunos que estudavam nas escolas da circunvizinhança, tornaram-se assíduos frequentadores da biblioteca, chegando ao ponto de formarem filas para entrar. Denise Tavares continuou sua labuta pelo desenvolvimento e qualificação dos serviços da biblioteca; sempre atenta e articulada, buscava novos apoios para a ampliação da casa de livros. Dedicou o restante de sua vida ao trabalho com os livros e com as crianças, até que no dia 19 de abril de 1974, após comemorar 24 anos de fundação da biblioteca, Denise faleceu. Mas nos deixou seu legado e inspiração, provando que com muito esforço, dedicação e vontade política podemos transformar o Brasil em um país de livros e leitores.
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Cartas de Anísio Teixeira para Denise Tavares


czs


D. Denise:


Acabo de receber sua carta bem como o "Plano para organização de uma rede de bibliotecas populares no Estado da Bahia.”
Achei interessante seu plano de um curso nas férias para professores bibliotecários. O I.N.E.P. poderá auxiliá-la concedendo a passagem de ida e volta para o professor Malba Tahan e outro elemento a sua escolha. Poderá ainda contribuir com CR$10.000,00 (dez mil cruzeiros) para auxiliar o pagamento de professores.

Agradeço-lho o plano que e senhora me enviou e que será estudado por nós.

Cordialmente

z
 



A quem interessar possa


A Profª. Denise Fernandes Tavares foi designada para visitar e observar bibliotecas infantis, no Sul do País.

A Secretaria de Educação e Saúde do Estado da Bahia muito apreciaria toda colaboração e facilidades que pudessem ser oferecida á profª. Denise Tavares para o bem do desempenho na Missão.

Anisio Spinola Teixeira
Secretário
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Rio, 29 mar. 56


Dona Denise: meu proposito era o de lhe responder longamente sobre a sua preocupação com a campanha, que estaria sendo iniciada ai, contra Monteiro Lobato. Mas vejo que não tenho tempo e assim desculpe-me esta brevíssima nota. 
As minhas observações são simples: 1) é perfeitamente natural que certo reacionarismo clerical se aborreça com Lobato. Não são todas as nações que podem contar com um espírito como Lobato a escrever para crianças; 2) sendo isto natural, não quer dizer que devamos nos descurar de cultivar e incentivar a leitura da literatura infantil de Lobato; devemos, porém, nos abster de tomar o pião na unha e provocar maior agressibilidade dos inimigos naturais de Lobato; por isto mesmo, toda a defesa de Lobato deve ser indireta, mostrando sempre ao seu dispor e pedindo desculpar-me o atrazo desta resposta, seu, muito cordialmente,

Anísio Teixeira
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Ilmª.,Srª, D. Denise Fernandes Tavares

Biblioteca Infantil Monteiro Lobato

Salvador – Bahia


D. Denise:

Acabo de receber a magnifica documentação que a senhora me enviou sôbre os Cursos sôbre Literatura Infantil e A arte de contar histórias, realizados nessa Biblioteca.
Foi com satisfação que tive conhecimento do êxito que tiveram os dois cursos.
Espero ter assim contribuído para o desenvolvimento do interesse pela literatura infantil entre nossos professores.
Desejo agradecer-lhe o material que teve a gentileza de enviar-nos e que fará parte de nossa documentação sôbre cursos.

Saudações cordiais



Opinião e Política






Ao passar pelo Jardim de Nazaré nos dias de hoje, podemos contemplar o fruto da obra e da vida de Denise Tavares. Lá está ela, a casa dos livros e das crianças, cumprindo o seu papel nesses 67 anos de fundação comemorados recentemente.
Segundo seus biógrafos e contemporâneos, a alcunha de “fada boa e doce” cabia perfeitamente à personalidade de Denise, mas além de sua doçura e ares bondosos, era uma mulher de visão política avançada e muito sagaz, a quem os obstáculos só fortalecem. Denise não se iludiu com a doçura e simpatia, apenas equilibrou a paixão pelos livros com sua visão política e feminina, uma mulher que não perdia a ternura e altivez quando se tratava de livros, leitura, biblioteca e crianças. Ser fada dos livros não é torná-la pacata e inocente, mas sim, perceber sua faceta inventiva, articulada e comprometida com seus ideais. Assim como toda verdadeira fada deve ser na vida real. O compromisso de Denise Tavares estava além das motivações emocionais, ela era movida pela absoluta convicção de que a cultura, leitura e educação eram as bases para uma formação cidadã e crítica, sua visão política agregava seu trato pessoal como gestora e articuladora, claro, sem perder o direito de sonhar, provando que sonho coletivo torna-se realidade. Como diz o poeta:


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“Sonho que se sonha só

É só um sonho que se sonha só

Mas sonho que se sonha junto é realidade”

Raul Seixas














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Equipe da Biblioteca Virtual Consuelo Pondé:

Clíssio Santana – Coordenador BVCP e editor.
Larissa Kharkeviitch – Pesquisa e texto.
Gabriela B. Harrison – Auxiliar de pesquisa .
Milena Pinillos – Estagiária de História.
Alef Ramos – Estagiário de Design.
Tatiely Neves –Estagiária de Biblioteconomia.

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