Amélia Rodrigues


0

 

"É o feminismo. Por feminismo entende-se, geralmente,

a coparticipação da mulher nos negócios públicos,

a equiparação de seus direitos políticos ao do homem,

finalmente, a sua emancipação completa,

o que vale dizer: libertai-a dos moldes estreitos em que

andava encerrada."

Amélia Rodrigues
O Feminismo e o Lar


Amélia Rodrigues: entre terços, letras e política

0
Amélia Rodrigues
A imensidão territorial baiana esconde seus mistérios profundos, “causos” e personagens interessantíssimos de nossa História. Ao percorrer o mapa de nosso Estado, torna-se alarmante uma ausência: não há nomes de mulheres em nossos municípios – com exceção dos nomes de Santas Católicas. Sabemos que essa ausência não é fruto do acaso, mas de uma ideologia histórica calcada no machismo, que busca minar, quando não negar, a presença feminina na construção de nossa história. Por isso, passando a lupa atenta em nossa cartografia, salta aos olhos um nome: Amélia Rodrigues.

Entre os 417 municípios que compõem o Estado da Bahia, causa-nos curiosidade o denominado de Amélia Rodrigues. Emancipado em 1961 de Santo Amaro da Purificação, destaca-se por ser o único município a levar o nome de uma mulher da sociedade civil que, por sua vez, mesmo sendo extremamente católica, não faz parte do rol das santidades cristãs. Nascida em 26 de maio de 1861 no subdistrito de Oliveira de Campinhos, pertencente a Santo Amaro, Amélia Augusta do Sacramento Rodrigues era originária de uma família de poucas posses. Desde cedo teve acesso à instrução educacional por intermédio de grupos religiosos, destacando-se com muita maestria nas atividades literárias e jornalísticas até ganhar notoriedade como educadora e religiosa.
Nascida na segunda metade do século XIX, nossa personagem foi formada no seio de uma sociedade totalmente hierarquizada, onde o homem branco estava – e ainda continua – no topo da escala social. No oitocentos, a educação formal para mulheres era muito escassa, inclusive para aquelas oriundas de grupos abastados. A mulher era vista como cuidadora do lar e da família, do recato, dos ditos bons costumes, da moral familiar; ou seja, educar uma pessoa do sexo feminino era formar boas mães, irmãs, religiosas etc. O ideal educacional construía uma representação feminina reduzida à tríade patriarcal fincada na eficiente genitora, dona do lar e da manutenção da família tradicional, além de ser uma esposa meiga, submissa e fértil. Em outras palavras, poderíamos atribuir a essa construção a expressão atual: Bela, Recatada e do Lar.


 

Mapa da cidade Amélia Rodrigues - Ba


Felizmente, a história não se descortina de maneira uniforme e sem rebeldias. Milhares de mulheres não seguiram os padrões estabelecidos pelas sociedades em que viveram, muitas quebraram paradigmas completamente, outras negociaram e reagiram a partir de uma inserção conservadora, milhares viveram marginalizadas sem serem reconhecidas como “fazedoras” de suas histórias. Mas, através das frestas que o passado nos deixou, olharemos a trajetória de uma dessas mulheres, quem sabe nos ajudará a entender muitas outras histórias escondidas nos rincões baianos.
A jovem Amélia Rodrigues foi uma moça de formação densa, não seguiu o destino traçado para si, construiu e trilhou o seu próprio. Dedicada, ostentava erudição e logo não demorou a manifestar um interesse especial em lecionar. Em 1883, iniciou sua carreira docente como professora primária em Santo Amaro; já em 1891 mudou-se para Salvador para assumir um cargo – através de concurso – no magistério público da Capital, e oficializou-se na profissão para se tornar mestra, como eram conhecidos os profissionais de educação da época. Através de sua fé cristã, muito presente na mentalidade daquele tempo, propagava uma educação pautada em valores religiosos, comprometida com a moral e entrelaçada com ideias patrióticas; tudo isso atado a uma dedicação deliberadamente maternal, traços que posteriormente serão refletidos em sua atuação profissional. 


0

Rua onde Amélia Rodrigues viveu: rua Futuro do Tororó, Salvador 



0

Escola Municipal Amélia Rodrigues, localizada na rua Futuro do Tororó


Sua formação intelectual foi além dos limites estabelecidos para as mulheres de seu tempo. Mesmo possuindo uma sólida ligação com o catolicismo, sua projeção nos espaços públicos atingiu voos mais largos, muito mais do que aqueles que eram destinados às beatas dedicadas e comprometidas com os mais carentes. Dialogava sem submissão com indivíduos do alto escalão da política baiana das primeiras décadas do século XX. Como podemos observar nas cartas trocadas entre Amélia e o governador José Joaquim Seabra, conhecido por ser um homem de trato ríspido, o que, todavia, nunca causou espanto a Amélia quando se tratava de reivindicar pautas suas ou das instituições que representava.
0

Trecho da carta destinada a J. J. Seabra (Carta completa abaixo)

No campo das letras, Amélia trilhou caminhos em diversos gêneros textuais, ainda bastante jovem alçou voos na dramaturgia e publicou a peça Fausta (1886). Em versos, destacou-se pelo livro Flores da Bíblia (1923). Na narrativa romanesca sua obra mais salutar foi Mestra e mãe (1898). Além de suas obras literárias, houve espaço para livros voltados para a educação e a formação das mulheres: O feminismo e o lar (1921) é um bom exemplo, em que a autora tece reflexões de como educar a mulher emancipada, mas sem deixar de ser uma “boa dona do lar”. Sabemos que essa proposta nos soa conservadora para os nossos dias, mas para os anos iniciais do século XX, parecia bastante moderna e elaborada. 

0  2 2 0

Teatro infantil - 1922

Mestra e mãe - 1898

Acção Social feminina - 1923

Flores da Bíblia - 1923


O pensamento de Amélia estava relacionado à formação cristã e à formação social; além de ser uma crítica do regime republicano, dialogava e transitava muito bem nos grupos políticos, ou seja, através dos ensinamentos do cristianismo buscava criar mecanismos de participação da mulher na sociedade, fosse no campo das artes, do jornalismo, das letras ou das instituições de cunho social, muitas das quais ela foi a idealizadora e fundadora.
Segundo Christiane Maria Cruz de Souza (2015), ao longo do século XIX a igreja católica passou por um processo de reformulação. Entre as demandas debatidas pelo clero estava o lugar que a mulher deveria ocupar na sociedade e na religião, chegando à conclusão de que ela deveria ficar encarregada de cuidar da caridade e da educação, pois os atributos reconhecidos como femininos pela igreja proporcionariam à mulher um lugar de suma importância na formação das gerações vindouras. Nas palavras de Souza (2015), a partir desse contexto:

a mulher passou a ser vista como braço natural da Igreja nas obras sociais e na propagação da doutrina religiosa por características e funções a ela atribuídas: pelo papel de mãe e educadora das novas gerações; pela sensibilidade e a vocação natural para acolher e cuidar; por estar menos suscetível aos apelos mundanos, por viver recolhida no recôndito dos lares; pelo espírito dócil, propício a receber e absorver as orientações do clero (SOUZA, 2015, p. 54).

Envolvida em vários projetos simultâneos, Amélia Rodrigues dedicou boa parte de sua vida à fundação e manutenção de instituições e agremiações femininas. Em 1905, criou uma escola particular primária e mista no bairro de Nazaré, em Salvador, e no mesmo ano fundou o Instituto Maria Auxiliadora. A pedido dos moradores do bairro de Itapagipe, construiu uma escola primária no palacete Cotegipe, na Baixa do Bonfim. Em 1909, instaurou a Liga Cathólica das Senhoras Bahianas, com a finalidade de aprofundar a fé cristã, promover práticas cristãs e difundir valores morais através da ação social. No mesmo período, junto com outras senhoras, criou a revista A Paladina, que depois passou a se chamar A Paladina do Lar, produzida apenas por mulheres, e tendo como editora chefa a própria Amélia. A revista circulou entre os anos de 1910 e 1917. Encabeçando vários projetos em paralelo, em 1912 foi fundada a revista A voz, órgão da Liga Cathólica das Senhoras Bahianas, da qual nossa personagem foi a primeira e única presidenta. Em 1913, foi diretora do Asilo dos Expostos; em 1918, dirigiu a Aliança Feminina. 

0
0 2
0 
 A Voz
(clique para visualizar)
 Revista A Paladina - 1910

Discurso proferido no dia da inauguração da Liga das Senhoras - 1909 

(clique para visualizar)

 Verdadeira missão social da mulher - 1907

Nos anos iniciais da década de 1920, foi convidada pelos Salesianos cariocas para desenvolver suas obras e ideias educacionais no Rio de Janeiro; em Niterói prestou serviços à Gráfica dos irmãos Salesianos, fazia traduções de textos estrangeiros e seguia produzindo sua diversificada obra.
Na qualidade de líder feminina, Amélia impôs competência política com perspicácia e astúcia, soube adequar cobranças e pedidos em prol de seu trabalho social e das instituições que integrava. Ao consultar sua correspondência pessoal sob a guarda do Instituto Feminino da Bahia, nota-se que era dotada de personalidade forte, tanto no tratamento com autoridades políticas (ver carta ao Governador J.J. Seabra), quanto para dialogar com religiosos (ver carta a Dom Sebastião Lemes). A sua submissão aos ideais cristãos nunca a colocou em posição subalternizada diante de ninguém, o seu pioneirismo era o de ser uma protagonista num mundo hegemonicamente masculino.


0

Festas Jubilares Salesianas – Revista da Semana, 1908

No centro, o Exmo. Revdmo. Sr. Bispo de Nichteroy. À direita – 1, Capitão João Chrisostomo, ajudante de ordens do Sr. Presidente e representante do Sr. Secretario Geral do Estado; 2, D. Amelia Rodrigues, festejada poetisa bahiana, que fez eloquente discurso e representou as cooperadoras salesianas; 3, Monsenhor Augusto Leão Quartin, Vigario da Freguezia de S. João Baptista de Nichteroy; 4, Padre Francisco Solano, secretario do Exmo. Sr. Bispo de Nichteroy; 5, Padre Angelo Alberti, diretor do Collegio Salesiano Santa Rosa. À esquerda – 1, Padre Carlos Perreto, inspector salesiano dos Estados de Minas Geraes, S. Paulo e Rio de Janeiro; 2, Dr. José Agostinho dos Reis, lente da Escola Polytechnica, representando os cooperadores salesianos nas festas jubilares; 3, Padre Lourenço Giordano, inspector salesiano nos Estados da Bahia, Sergipe e Pernambuco; 4, Padre Frederico Gioia, director do Collegio Salesiano de Guaratinguetá; 5, Padre José dos Santos, director da parte litteraria e musical nas festas jubilares.


No panorama dos anos finais do século XIX, e depois nos anos iniciais de uma Bahia aspirante a republicana, Amélia Rodrigues fez algo inovador: deu espaço às mulheres, mesmo sabendo que esse espaço não contemplava todas as mulheres e suas especificidades, especialmente as pobres e negras – maior parcela da população baiana –, mas o seu pioneirismo encontra-se na sua trajetória política e intelectual, fosse através das revistas femininas, que mesmo produzidas em tipografias católicas, deu a oportunidade para mulheres falarem delas próprias e de suas demandas. 
Reverenciada pela sociedade, religiosos, instituições e intelectuais, faleceu em agosto de 1926. Sua vida foi digna de homenagens. Ficou a cargo do Instituto Feminino da Bahia prestar as devidas honras, que aconteceu no dia 26 de maio de 1961, quando se comemorou seu centenário de nascimento, mesmo momento em que se emancipou o município que leva seu nome. 

Trilhando uma vida entre as letras, a religião e as articulações políticas e intelectuais, Amélia Rodrigues nos deixou um significativo legado. Provou que lutar pelos seus ideais é fundamental para uma transformação social, especialmente através da educação e da cultura. A nós, contemporâneos, muitas de suas ideias podem parecer conservadoras ou fincadas em uma cultura religiosa bastante ortodoxa e assistencialista, por outro lado, quando contextualizamos seu papel histórico, especialmente enquanto mulher, seu legado torna-se algo mais denso e compreensível. Diferentemente de outras personagens, Amélia não buscou romper completamente com as amarras do seu tempo, ela traçou suas ações a partir de um jogo de negociação formal e institucional. 

Mesmo não tendo nenhuma relação de inspiração poética com a nossa personagem, o nome “Amélia” foi imortalizado na memória coletiva dos brasileiros através da composição de Mário Lago e Ataulfo Alves, tornando-se sinônimo de submissão feminina que, na visão dos autores, seria “a mulher de verdade”. Mas Amélia Augusta do Sacramento Rodrigues nos provou que ser mulher é ser o que ela quiser. 


Cartas enviadas por Amélia

Carta a Luiz Amaral

Carta destinada ao Sr. Luiz Amaral, diretor-presidente do C.B.I (Centro da Boa Imprensa), na qual Amélia Rodrigues responde a uma carta anterior, datada de 11 de março de 1926.



Carta a J. J. Seabra

Carta destinada ao Governador J.J. Seabra, na qual Amélia Rodrigues, em nome do grupo de baianas católicas, intercede contra a demolição do Mosteiro de São Bento.  



Carta a Carlos Ribeiro

Carta destinada ao Dr. Carlos Riberio, na qual Amélia Rodrigues agradece a “gentilissima offerta” do Pavilhão brasileiro que o ligará ao colégio a formar-se no Bonfim.



Carta a D. Sebastião Leme

Carta destinada ao Arcebispo Coadjutor do Rio de Janeiro D. Sebastião Leme, na qual Amélia Rodrigues relata “um facto de grande importância para mim, na minha qualidade de escriptora catholica”.


 

Carta a correspondente anônimo

Carta destinada a correspondente anônimo, na qual Amélia Rodrigues envia mais uma de suas traduções e, em tom afetuoso, relata que “no dia 16 se completarão 7 annos que tive a honra e o prazer de conhece-lo”.





Matérias sobre Amélia Rodrigues


0

A União  - 1919


0 0 0

Jornal A Tarde - 1926

(clique para ler)

Jornal a Tarde - 1926

(clique para ler)

Jornal A Tarde - 1957

(clique para ler)


0

Jornal A Tarde - 1974


Centenário

2

Convite do Instituto Feminino para a comemoração do Centenário de Amélia Rodrigues 


0 0 0
 Homenagem das professoras e alunos da Escola Amélia Rodrigues
 Lembrança de sua família na passagem do 1° centenário de seu nascimento
 Programa das homenagens à educadora baiana Amélia Rodrigues


0,

Ata do dia 3 de julho de 1961 - Sessão ainda em prosseguimento às festividades do centenário de Amélia Rodrigues




1

♦ 1861 — + 1926



____________________________________________


Obras de e sobre Amélia Rodrigues:

ALVES, Ivia (Organizadora). Amélia Rodrigues: itinerários percorridos. Santo Amaro: Núcleo de Incentivo e Cultura de Santo Amaro, 1998. 124 p.
Unidades que dispõem deste material:
Biblioteca Pública do Estado da Bahia – 7 ex.
Biblioteca Pública Thales de Azevedo – 1 ex.
Biblioteca Juracy Magalhães Junior. – 1 ex.
Biblioteca Anísio Teixeira – 1 ex.
Biblioteca Juracy Magalhães Jr. (Itaparica) – 1 ex.

AMÉLIA Rodrigues: uma mulher, uma cidade: 27 anos de emancipação política. Feira de Santana: Panorama de Notícias, 1988. 99 p.
Unidades que dispõem deste material:
Biblioteca Pública do Estado da Bahia – 2 ex.
Biblioteca Anísio Teixeira – 1 ex.

RODRIGUES, Amélia. Bem-me-queres: Poesias. Escola Typ. Salesiana, 1906. 126 p.
Unidade que dispõe deste material:
Biblioteca Pública do Estado da Bahia – 1 ex.

Livros psicografados:

RODRIGUES, Amélia; HOMEM, Hugo Pinto; FRANCO, Divaldo P (Revisão) (Psicógrafo). Até o fim dos tempos. Salvador: Livraria Espírita Alvorada, 2000. 159 p. ISBN 8573470801
Unidade que dispõe deste material:
Biblioteca pública Thales de Azevedo – 1 ex.

RODRIGUES, Amélia. Há flores no caminho. 5.ed. Salvador: LEAL, 1982. 175 p. ISBN 8573470755(broch.)
Unidade que dispõe deste material:
Biblioteca pública Thales de Azevedo – 1 ex.

RODRIGUES, Amélia. Luz do mundo. 4. ed. Salvador: Livraria Espírita Alvorada, 1997. 158 p.
Unidade que dispõe deste material:
Biblioteca pública Thales de Azevedo – 1 ex.

RODRIGUES, Amélia. Quando voltar a primavera. 6. ed. Salvador: LEAL, 2004. 157 p. ISBN 857347145X
Unidade que dispõe deste material:
Biblioteca Pública do Estado da Bahia – 1 ex.

RODRIGUES, Amélia. Trigo de Deus. 2. ed. Salvador: Livraria Espírita Alvorada, 1995. 140, 4 p.
Unidade que dispõe deste material:
Biblioteca de Extensão – 1 ex.


__________________________________

Créditos:

Equipe da Biblioteca Virtual Consuelo Pondé:
Clíssio Santana – Editor.
Larissa Kharkevitch – Coedição e revisão.
Milena Pinillos – Catalogação e Pesquisa.
Alef Ramos – Diagramação, Ilustração, edição de imagens e formatação da página.
Tatiely Neves –Textos, Catalogação e pesquisa.






Recomendar esta página via e-mail: