Nise da Silveira

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Nise da Silveira: de "Jovem Minerva" a "Rebelde Maldita"

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 A Jovem Nise
Maceió, 24 de março de 1921.

A bordo do Itassucê, segue hoje para a Bahia, em cuja Faculdade de Medicina vai iniciar seus estudos, a inteligente senhorita Nise da Silveira, filha do distinto professor e jornalista Faustino Magalhães da Silveira e da pianista Maria Lídia da Silveira. A jovem minerva, então com 16 anos, traz consigo uma mala carregada de futuro promissor.
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 Turma de medicina de 1926
Ao largo do Terreiro de Jesus, situada entre  ladeiras, igrejas e conventos, avista-se a bela arquitetura em estilo neoclássico do edifício da Faculdade de Medicina da Bahia, antigo Colégio dos Jesuítas, criada em 1808 por D.João VI. Sob os olhares pétreos e intimidadores dos médicos ilustres que passaram pela instituição, esculpidos em suntuosas estátuas que habitam seus corredores, como fantasmas persistentes que Nise enfrentava diariamente em rodas de conversa nas escadarias, nas leituras solitárias na biblioteca, nos debates em sala de aula. Era a única ali que os enxergava e portanto a única que podia desafiá-los, só ela possuía as condições raras para navegar contra a corrente.
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 Liga anti-imperialista. Jornal A Crítica 1929
Após cinco anos de estudos, concluiu o curso com a destacada tese defendida para a cadeira de medicina legal: Ensaio sobre a Criminalidade da Mulher no Brasil. Enquanto seus colegas dedicaram-se a síndromes, perturbações gástricas e pneumotórax, Nise quis entender o perfil das mulheres que cometiam crimes no Brasil, antecipando temas pouco discutidos na academia à época, como o aborto e a prostituição. No registro fotográfico da turma de 1926, em meio a gravatas, paletós e bengalas, um rosto feminino se destaca: é o de Nise, única mulher a concluir o curso de Medicina em uma turma composta por 156 homens. Foi na Bahia sua primeira revolução.
O retorno da médica alagoana à terra natal foi noticiado na primeira página da edição de janeiro de 1927 do Jornal do Recife, “para a felicidade de todos nós o bom feminismo vem cuidando dos altos interesses sociais”. Foi somente o tempo de velar o pai, abraçar a mãe e rever os velhos amigos. Imagina-se que ela esteja sempre em pleno voo e assim seguiu para a próxima viagem. No Rio de Janeiro, Nise dividiu-se entre os escritos sobre medicina para o jornal A Manhã, o estágio na clínica do Dr. Antônio Austregésilo, considerado o precursor da neurologia no Brasil, e o trabalho no Hospital da Praia Vermelha. Entre os anos de 1928 e 1935 envolveu-se na fundação e participação em algumas ligas e comitês que atuaram na cena política da época, a exemplo da Liga Anti-Imperialista do Brasil, do Comitê Feminino contra Guerra, em Defesa da Paz Universal, da Cultura e da Humanidade e da União Feminina do Brasil, esta última fundada em 1935 e tornada ilegal no mesmo ano. Foi também militante do Partido Comunista Brasileiro, ao lado de Patrícia Galvão (a Pagu, cantada nos versos “nem toda feiticeira é corcunda / nem toda brasileira é bunda / meu peito não é de silicone / sou mais macho que muito homem”), uma das poucas mulheres a assinar o “Manifesto dos trabalhadores intelectuais ao povo brasileiro”.


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 Fotos da matéria "Prisioneiras de 1935 contam suas memórias" – Jornal do Brasil 1988

A situação política do país, à beira da eclosão da Intentona Comunista de 1935, exigia da jovem uma tomada de decisão: era “necessário se espantar, se indignar e se contagiar” para mudar a realidade. Era preciso transformar-se. Nise, então, tingiu-se de vermelho, era agora a doutora comunista. O contato com as ideias subversivas vindas de Moscou lhe rendeu meses (entre os anos de 1934-1936) de “reclusão” na sala 4 do presídio da Frei Caneca, tendo como “irmãs de cela” Olga Benário, Maria Werneck, Beatriz Ryff e Valentina Leite1, mulheres que, como ela, possuíam corações valentes. Nise, portanto, precisou ser presa para anos depois libertar os loucos de suas prisões.

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Correio de São Paulo 1936.

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Diário de Notícias 1938

Na prisão, Nise também encontrou Graciliano Ramos. O escritor, em Memórias do Cárcere, livro publicado postumamente em 1953, relatou o encontro:
“Nise, acanhada, tinha um sorriso doce, fitava-me os bugalhos enormes, e isto me agravava a perturbação, magnetizava-me. Balbuciou imprecisões, guardou silêncio, provavelmente se arrependeu de me haver convidado para deixar-me assim confuso”.
“A figura de Nise entrara-me fundo no espírito. Apesar de havermos ficado momentos difíceis um diante do outro, confusos, aturdidos, em vão buscando uma palavra, aquela fisionomia doce e triste, a revelar inteligência e bondade, impressionava-me”.2
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Nise e Jung 1957
A saída da prisão não lhe garantiu a liberdade almejada. Sob o risco iminente de novas perseguições, a alternativa foi manter-se na clandestinidade durante os anos de 1936-1944. Reintegrada ao serviço público em 1944, Nise iniciou outra revolução. No Hospital Pedro II, antigo Centro Psiquiátrico Nacional, desenvolveu um tratamento aos doentes mentais que rechaçava os métodos antigos, sobretudo os choques elétricos. Para ela, sabedoria e loucura viriam da mesma fonte e, portanto, doentes e não doentes poderiam viver em um mesmo ambiente, não havendo a necessidade de manter os loucos encarcerados em manicômios. Influenciada pelas teorias do psiquiatra suíço Carl Jung, fundou no Hospital a Seção de Terapêutica Ocupacional em 1946 e, em 1952, o Museu de Imagens do Inconsciente (Clique aqui para acessar o site do museu). O confronto com o inconsciente dava vazão a expressões com golpes de pincéis e, além de loucos, os clientes de Nise (como ela preferia que os chamassem) eram verdadeiros artistas. A loucura era amiga da arte. Em 1956 conseguiu, enfim, concretizar sua principal idealização: um “pequeno território livre” – a Casa das Palmeiras, espaço destinado ao acolhimento e reabilitação ocupacional por meio do afeto. A célula revolucionária que habitava o seu coração não dava sinais de cansaço e, aos 70 anos, Nise volta à condição de estagiária sob a recusa de receber a aposentadoria compulsória e afastar-se do convívio com os loucos, afinal, “louco é quem me diz e não é feliz”.




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Nise por Di Cavalcanti, 1958
Com matéria intitulada “Nise, rebelde maldita” o jornal do Brasil noticiou em 1999 seu falecimento através das palavras certeiras de Élvia Bezerra, deixando para a posteridade uma síntese de quem foi Nise: “Jovem e ainda senhora do charme que Di Cavalcanti transpôs para a tela quando lhe pintou o retrato, Nise da Silveira morreu no dia 30 de outubro, aos 94 anos, depois de profundo sofrimento que durou quase dois meses, período em que se manteve lúcida e digna como viveu”.

Nise nos ensina que podemos ser quem quisermos e que não há o que temer, afinal, estamos juntas e em todos os lugares. Estamos nos lares, nas ruas, nas fábricas e nas universidades. Estamos nos filhos que criamos sozinhas, nos filhos que não queremos ter, nos ecos do passado de nós e nos projetos de futuro. Estamos, sobretudo, inscritas na desobediência e na liberdade. Nise nos ilumina um mundo em que a revolução é feminista e sustentada pelo afeto. Nise nos encoraja a sermos mulheres. Viva Nise!


NOTAS

1Olga Benário Prestes foi uma militante comunista de origem judaica que chegou ao Brasil em 1934. Em 1935 participou, junto com seu companheiro Luís Carlos Prestes, do episódio conhecido como Intentona Comunista. Foi presa em 1936 aos 28 anos; Maria Werneck de Castro foi uma advogada e militante comunista presa aos 26 anos; Beatriz Bandeira Ryff foi uma professora, escritora e militante comunista presa aos 25 anos; Valentina Dias Leite, paulista que foi presa aos 26 anos por ter escrito uma carta solidarizando-se com os comunistas cariocas. 
2 Trechos do livro Memórias do Cárcere extraídos da matéria do Jornal do Brasil, “Nise da Silveira/Museu do Inconsciente”. 26 de dezembro de 1974. Disponível em: https://goo.gl/y3Pfoj. 

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Em 1948, o “Jornal (RJ) ” realizou uma enquete intitulada “A ausência da mulher brasileira nos postos de comando”, ao que a Doutora Nise forneceu o diagnóstico preciso: “Parece-me que a ausência da mulher brasileira, seu afastamento dos grandes problemas nacionais é apenas um aspecto das relações sociais ainda predominantes num país como o Brasil, de atrasada estrutura econômica. Se estamos ainda em etapa que permite aos homens ocupantes dos postos de direção atitudes de fazendeiros ou de senhores de engenho, e assim acontece na maioria dos casos, é muito lógico que nesse quadro social de tonalidades tão acentuadamente patriarcais, a mulher não possa desempenhar papel de primeiro plano” .

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  Jornal do Riomatéria publicada em 04/07/1948 


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                                                                            Jornal do Brasil 1999

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 NOTA DE OBITUÁRIO DE NISE DA SILVEIRA

 

Entrevista com Nise

O terapeuta ocupacional e professor da Universidade Federal de Pernambuco, Luís Gonzaga Pereira Leal, entrevista Nise da Silveira no dia 28 de julho de 1992, em sua residência, para a revista "Psicologia: Ciência e Profissão".

 


Matérias sobre Nise

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Jornal Careta 1927

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 Jornal da Noite 1927

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Diário da Noite 1947

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            Radical 1937
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Diário de Notícias 1937

 

 

 

 

 

 

 

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Diário de Notícias 1951 Jornal A Última Hora 1953

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                                                                   Mulheres Destaque 69 - Correio da Manhã1969

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Quadros pintados pelos "clientes" de Nise



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Alguns dos clientes-artistas revelados pelo trabalho da Dra. Nise alcançaram renome internacional, como Arthur Bispo do Rosário, Fernando Diniz, Emygdio de Barros e Raphael Domingues.


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Livros de Nise da Silveira


Cartas a Espinoza. 1995

Casa das Palmeiras. 1986

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Gatos, a emoção de lidar. 1988

Imagens do Inconsciente. 1981

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 Jung vida e obra. 1968

O Mundo das Imagens. 1992

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Tese de Nise


, 1926
SILVEIRA, Nise Magalhães


Resumo: Tese inaugural apresentada à Faculdade de Medicina da Bahia. A tese aborda a criminalidade do Brasil e como o estado se relaciona com a população de mulheres do país. A Autora traz uma descrição do perfil dessas mulheres,os tipos de crimes cometidos por elas e como está a distribuição dessa criminalidade em cada estado do Brasil.

Clique na imagem ao lado para ler



Livros sobre Nise


Encontros. Nise da Silveira.  2009. Luiz Carlos Mello

 Nise, Arqueóloga dos Mares. 2008. Bernardo Carneiro Horta

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 Nise da Silveira. 1996. Ferreira Gullar

Nise da Silveira. Caminhos de uma Psiquiatria Rebelde. 2014. Luiz Carlos Mello

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Pioneiros da Psicologia Brasileira. Nise da Silveira. 2001. Walter Melo

Viagem a Florença. 2003. Marco Lucchesi

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Filmes e documentários


“Posfácio: Imagens do Inconsciente”

Depoimento da Dra. Nise da Silveira, fundadora do Museu e Imagens do Inconsciente. Complemento da trilogia “Imagens do Inconsciente”, de Leon Hirszman (1937-1987), o material bruto não editado pelo cineasta tornou-se filme em montagem de Eduardo Escorel. Brasil, 2014. 79 minutos.


 

 

“Nise da Silveira – Uma vida como obra de arte”.

Gravado na cidade do Rio de Janeiro, em setembro de 1991, no consultório de Nise da Silveira, Casa das Palmeiras e Museu de Imagens do Inconsciente. Dirigido por Edson Passeti.






“Nise da Silveira – Do Mundo da Caralâmpia à Emoção de Lidar”

Entrevista com Dra. Nise da Silveira, realizada em agosto de 1992 por Gonzaga Leal e Rubem Rocha Filho. Dividida em três partes.



Parte II



Parte III

Trailer do filme “Nise – O Coração da Loucura”.


Lançado em 2016, o longa-metragem dirigido por Roberto Berliner traz a atriz Glória Pires no papel da psiquiatra Nise da Silveira. A história lança luz ao período em que Nise, após sair da prisão, volta a trabalhar em um hospital psiquiátrico no Rio de Janeiro e gera polêmica ao propor um tratamento “mais humano” para lidar com os pacientes. Brasil, 2016. 1h 48 minutos.




“Olhar de Nise”

O diretor Jorge Oliveira busca na lucidez e na vivacidade da memória da própria Nise da Silveira o ponto de partida para contar a história desta médica alagoana de atitudes corajosas e pioneiras que marcaram e revolucionaram para sempre o tratamento das doenças psiquiátricas no Brasil. Brasil, 2015. 1h 30 minutos.








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Obras sobre Nise da Silveira que se encontram nas bibliotecas públicas do estado da Bahia:


NISE da Silveira. Rio de Janeiro: Fundação Miguel de Cervantes, [2013]. 575 (Memória do saber) ISBN 9788564868120
Unidades que dispõem deste material:
Biblioteca Pública do Estado da Bahia – 4 ex.
Biblioteca de Extensão – 6 ex.
Biblioteca Juracy Magalhães Júnior – 2 ex.
Biblioteca Juracy Magalhães Jr (Itaparica) – 2 ex.

HORTA, Bernardo Carneiro. Nise: arqueóloga dos mares. 2.ed. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2009. 400 p. ISBN 9788578200190.
Unidade que dispõe deste material:
Biblioteca Pública do Estado da Bahia – 1 ex.

Obras sobre Nise da Silveira que se encontram na biblioteca da Universidade Federal da Bahia:

MELO, Walter; JACÓ-VILELA, Ana Maria ; FERREIRA, Marcos Ribeiro (Coord). Nise da Silveira. Brasília, DF: Conselho Federal de Psicologia, Rio de Janeiro, RJ: Imago, 2001. 161 p. (Pioneiros da psicologia brasileira; 4) ISBN 8531207754
Unidade que dispõe deste material:
Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas – 1 ex.

ENCONTRO com pessoas notáveis. São Paulo: Sociedade Amigos do Museu de Imagens do Inconsciente, 1991. 1 DVD: 4¾ pol.
Unidade que dispõe deste material:
Biblioteca Universitária Reitor Macedo Costa – 1 ex.

SILVEIRA, Nise da. Ensaio sobre a criminalidade da mulher no Brasil. Bahia, 1926. 113 p. These (Doutora em Sciências Médico-Cirúrgicas) - Faculdade de Medicina da Bahia, Salvador, 1926.
Unidade que dispõe deste material:
Gonçalo Moniz – ex. 1 (parte 1; parte 2)

SILVEIRA, Nise da. Images de l'inconscient. Paris: Halle Saint Pierre, 2005. 326 p. ISBN 2913413382 (broch.)
Unidade que dispõe deste material:
Biblioteca Universitária Reitor Macedo Costa – 1 ex.

SILVEIRA, Nise da. Jung: vida e obra. 17. Ed. São Paulo, SP: Paz e Terra, 2000. 173 p. (Vida e obra). ISBN 8521901747(broch.).
Unidade que dispõe deste material:
Lugares de Memória – 1 ex.

SILVEIRA, Nise da. Jung: vida e obra. Rio de Janeiro, RJ: José Álvaro , 1971. 194 p. [5 p.] (Vida e obra.).
Unidade que dispõe deste material:
Faculdade de Educação – 1 ex.

SILVEIRA, Nise da. Jung: vida e obra. São Paulo, SP: Paz e Terra, 1997. 173 p. (Vida e obra). ISBN 9788577530472 (broch.).
Unidade que dispõe deste material:
Biblioteca Universitária Reitor Macedo Costa – 3 ex.

SILVEIRA, Nise da. Jung : vida e obra. 14. Ed. São Paulo: Paz e Terra, 1994. 209 p.
Unidade que dispõe deste material:
Biblioteca Universitária Reitor Macedo Costa – 1 ex.

SILVEIRA, Nise da. Jung : vida e obra. 4.ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1975. 194 p.
Unidade que dispõe deste material:
Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas – 1 ex.

SILVEIRA, Nise da. O mundo das imagens. São Paulo: Ática, 1992. 165 p ISBN 8508041330 (broch.)
Unidade que dispõe deste material:
Biblioteca Universitária Reitor Macedo Costa – 1 ex.

HORTA, Bernardo Carneiro. Nise: arqueóloga dos mares. Rio de Janeiro, RJ: Aeroplano, 2009 400 p.
Unidade que dispõe deste material:
Gonçalo Moniz– 1 ex.

MELLO, Luiz Carlos. Nise de Silveira: caminhos de uma psiquiatra rebelde. Curitiba, PR: Museu Oscar Niemeyer, 2009. 199 p. ISBN 9788560638086 (broch.)
Unidade que dispõe deste material:
Biblioteca Universitária Reitor Macedo Costa – 1 ex.

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Créditos:


Equipe da Biblioteca Virtual Consuelo Pondé:

Clíssio Santana – Editor.
Larissa Kharkevitch – Coedição e revisão.
Milena Pinillos – Textos e pesquisa.
Alef Ramos – Diagramação, Ilustração, edição de imagens e formatação da página.
Tatiely Neves – Catalogação e pesquisa.



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