Assis Valente, O Pivô do Samba

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Boas Festas!


O fim do ano está chegando, trazendo pelos ares o clima de natal, junto com o tão consagrado hino natalino brasileiro, Boas Festas: “Eu pensei que todo mundo fosse filho de Papai Noel.” Já tão presente no inconsciente coletivo, nem todos conhecem o compositor dessa música e de mais uma centena de sambas, como Brasil Pandeiro, Alegria, Camisa Listrada e tantas mais. Assis Valente, compositor, protético e ilustrador, brilhante em tudo o que fazia, era também uma alma angustiada e fascinante, autor de inúmeros sambas cantados por vozes como Carmen Miranda (por quem, diz-se, nutria uma paixão platônica), Carlos Galhardo, Aracy de Almeida e Marlene. Mas sua música atravessou as décadas e, além dos Novos Baianos, também Maria Bethânia, Beth Carvalho, Leci Brandão, Vanessa da Mata, Adriana Calcanhoto, Caetano Veloso, Ney Matogrosso (a lista é longa) juntaram-se à sua constelação de intérpretes.
“Papai Noel, vê se você tem a felicidade pra você me dar.” Moço valente de trajetória conturbada, desde criança carecia de felicidade sim, apesar de ter proporcionado lindos sorrisos através de suas próteses perfeitas e seus sambas animados. Mas... “a felicidade é brinquedo que não tem”. O menino José de Assis Valente, que passou a maior parte da infância longe dos pais, cresceu para driblar o destino, e escreveu pérolas como “minha gente era triste e amargurada, inventou a batucada pra deixar de padecer, salve o prazer, salve o prazer”. Fabricou letras alentadoras, sedutoras, animadas, mas não logrou se contaminar por muito tempo, pondo fim à sua vida após a terceira tentativa, ou quinta, ou sétima, de acordo com a biografia. Essa é apenas mais uma das inúmeras controvérsias de sua história, pois ainda não se consegue precisar seguramente nem o ano de seu nascimento nem o lugar. O que se sabe é que em algum momento, Assis decidiu que “chegou a hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor”...

Pois bem, vamos a ele, o Pivô do Samba*, Assis Valente! 

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Assis Valente


Papai Noel

Vê se você tem

A felicidade

Pra você me dar.

"Desde criança que sou baiano e protético"


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  Assis Valente
Traçar a trajetória de José de Assis Valente não é tarefa fácil. Sua biografia é cercada por incertezas e imprecisões, sobretudo quando se trata do ano e local do seu nascimento. Em entrevista concedida em 1945 , Assis afirmou que nasceu em 1908, no Campo da Pólvora, em Salvador. Entretanto, em outros momentos ele dizia ter nascido ora em Santo Amaro da Purificação, no distrito de Patioba, ora em Vila-Lobos da Rainha. Sobre o ano do seu nascimento encontram-se as datas de 1909 e 1911. A certeza que temos é a de que o menino Assis tornou-se valente desde muito cedo. Separado dos seus pais, foi entregue aos cuidados de uma família que o tratava como empregado, mas que em contrapartida o obrigava a seguir com os estudos. A família mudou-se para Salvador e, a partir deste momento, sua trajetória seguiu diferentes rumos (inclusive pelo Sertão baiano): estudou desenho e escultura no Liceu de Artes e Ofício, foi limpador de frascos no Hospital Santa Izabel, trabalhou na farmácia do Hospital Municipal em Senhor do Bonfim, engajou-se no Circo Brasileiro e, em 1922, ingressou em um curso de prótese dentária.
Em 1927, a “angulosidade mulata” de Assis chega ao Rio de Janeiro, reduto do samba e das “classes perigosas” que habitavam as favelas dos morros da capital federal. Conciliando o gabinete de protético, que inclusive foi o primeiro do gênero em toda a América Latina, com a carreira de compositor, em 1932 seu primeiro sucesso, “Tem Francesa no Morro”, despontou na voz de Aracy Cortes. Logo em seguida, Carmen Miranda gravou “Etc” e Good Bye, Boy”. Com a Pequena Notável a relação foi a do eterno jogo do amor e da mágoa. Ao que parece, Assis nutriu pela cantora um amor platônico que foi fortemente abalado quando esta recusou “Brasil Pandeiro”, composição de 1940, e que na década de 1970 foi revisitada pelos Novos Baianos. Suas composições ecoaram nas vozes de grandes nomes da música das décadas de 1930 e 1940, como Moreira da Silva, Carlos Galhardo, Francisco Alves, Aurora Miranda, Aracy de Almeida e outros. Assis também é o responsável por inaugurar o gênero natalino no Brasil com a marchinha “Boas Festas”, de 1932 . Sucesso à época e imortalizada na posteridade, a composição com seus versos bonitos e expressivos conta a história de uma criança pobre que pede ao Papai Noel a felicidade de presente de Natal.
Assis dividiu-se entre a arte a serviço da ciência da prótese dentária4 (como anuncia o Jornal do Brasil em 1950) e a arte a serviço da música e da ilustração. Sua sina, portanto, foi a de fabricar sorrisos para os outros, já que para si os sorrisos às vezes não o alcançavam. A sensibilidade do poeta em traduzir o belo não bastava, a vida para Assis não bastou. Para fugir da realidade que o atormentava, o “moreno fez bobagem”: tentou o suicídio por três vezes. A separação da vida se deu no final da tarde do dia 11 de março de 1958, em um banco da Praia do Russel, na cidade do Rio de Janeiro. Em seu bolso foi encontrado um bilhete que dizia: “Peço-lhes encarecidamente não retalhar o meu corpo. Morro por minha vontade. Estou sentindo apenas a cruel saudade de tudo e de todos [...]”.
E para onde irá o Brasil? Certamente o Brasil, definido por Assis como “um povo triste, que deseja sorrir, e cantar!”, não é mais o mesmo. No auge da era do rádio e dos “long-play”, suas músicas ecoaram pelos cantos mais longínquos do país, traduzindo “admiravelmente, invejavelmente, impecavelmente nos seus sambas, a psicologia nacional”. Se a arte existe porque a vida não basta, Assis Valente soube muito bem cumprir seu papel de fabricar sorrisos sem deixar de denunciar as mazelas do povo: nem todo mundo é filho de Papai Noel. E agora, José? Já que o mundo não se acabou, resta-nos viver mais um natal. Boas Festas!

Por: Milena Pinillos 

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Os três baianos na vida de Carmen Miranda 
Assis Valente, Josué de Barros e Dorival Caymmi
( Revista da Semana - 1950)
Assis Valente e Carmen Miranda
Rádio Mayrink - 1939

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1 Entrevista intitulada “Assis Valente vai à Bahia”, concedida em 27/03/1945 a “A Scena Muda”, revista especializada em cinema que circulou entre 1921-1955. Todas as edições completas das primeiras revistas dedicadas ao cinema encontram-se disponíveis em: http://www.bjksdigital.museusegall.org.br/.

2 Em 1956, Assis Valente recebeu do Departamento de Turismo da Prefeitura do Rio de Janeiro um belo presente de festas: o reconhecimento oficial de sua já consagrada marcha “Boas Festas”. A música é transformada no hino de Natal brasileiro. Para essa e outras informações, confira: Sueli Borges. Chegou a hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor: samba e brasilidade em Assis Valente. Salvador: Pinaúna, 2012, p.122. Link para download do livro disponível em: https://sonsdabahia.wordpress.com/.


Matérias e Notícias


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Revista Fon Fon - 1933  Revista O Cruzeiro - 1956

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Revista O Cruzeiro - 1955

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Revista O Cruzeiro - 1933

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Revista O Cruzeiro - 1956 Revista O Cruzeiro - 1956

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Revista O Cruzeiro - 1938

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Revista O Cruzeiro - 1958

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Revista O Cruzeiro - 1958



Obras sobre Assis Valente



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Trata-se da primeira biografia do compositor, publicada em 1989 pela Editora Martins Fones Funarte e escrita por Francisco Duarte da Silva e Dulcinéia Nunes Gomes. Francisco Duarte, repórter à época do acontecido, passava pelo local e viu o corpo do compositor, arrodeado por populares. Perguntou a um policial o que havia acontecido. A resposta: "Suicídio. Um protético que tinha laboratório na Cinelândia. Matou-se por dívidas. Parece que se chamava José!". Os autores apontam a hipótese de que Assis era um homossexual reprimido e que esta teria sido a causa do seu suicídio.
Fonte: https://goo.gl/jt4n9x


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Lançada em 2012, a série Sons da Bahia reúne livros que tratam de temas diversos com foco na produção musical do estado. A proposta da Série é de ocupar essa lacuna, trazendo historiografias e reflexões relacionadas à música no estado, nos seus vários universos, estilos e momentos. Este livro sobre Assis Valente, o primeiro da série, escrito por Sueli Borges, analisa a vida e a obra do artista e esquadrinha sua biografia articulando o homem e seu tempo, a música e a cultura da época, suas letras e a realidade brasileira.

Fonte: https://goo.gl/J6Yy54

12 Livro que faz parte da Coleção Gente da Bahia, publicado pela Assembleia Legislativa do Estado da Bahia, dedica-se à preservação da memória da baianos – natos ou por adoção – que marcaram a história recente do estado nos mais variados campos de atuação. O n° 25 da coleção “Felicidade é Brinquedo que não tem”-, publicado em 2013, foi escrito por J. Pimentel, homem de rádio com currículo invejável, pesquisador de música popular e dono de expressivo acervo de raridades. Ele produziu uma caudalosa obra sobre o imortal compositor baiano.
Fonte:
https://goo.gl/cqDfeC



12 Nesta biografia, Gonçalo Junior conta a vida, a obra e o tempo do autor de músicas fundamentais da chamada Era de Ouro do rádio como "Boas Festas", "Eu pensei que todo mundo fosse filho de Papai Noel", "Cai, cai, balão", "Alegria", "Boneca de pano", "Brasil pandeiro" e "Camisa listrada", entre tantas outras. Um talentoso e incompreendido artista que encontrou na solidão e na tristeza trazidas da infância sofrida a inspiração para criar alguns dos mais importantes clássicos da MPB. Entre outras revelações, Gonçalo Junior desnuda o submundo da música e do rádio, com seus vilões ardilosos, intrigas, roubo e compra de sambas e marchas que contribuíram para que Assis Valente tivesse um fim trágico. E aponta um provável motivo, guardado a sete chaves por mais de sete décadas, para tantas dívidas.

Texto da contracapa.



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Livro escrito pelo jornalista, escritor, roteirista e dramaturgo Luís Pimentel, lançado em 2013. O amor impossível do valente Assis se baseia na vida e na obra do compositor baiano Assis Valente (1911-1958), que fez carreira musical no Rio de Janeiro, nos anos de ouro da música brasileira, foi um dos autores preferidos da cantora Carmem Miranda.
Fonte: https://goo.gl/Hg5AAH


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 Assis Valente
Assis Valente
Assis Valente


                                                         Músicas

                Ano 

                                                                                                    Intérpretes

Tem francesa no morro 1932  Aracy Cortes; Zeca Baleiro
Boas Festas 1932  Carlos Galhardo; Caetano Veloso e Gilberto Gil; João Gilberto
Cai, Cai, Balão 1933  Francisco Alves e Aurora Miranda
Good-bye, boy 1933  Carmen Miranda
A Vida é Boa (parceria com Herivelto Martins e Francisco Sena) 1934  Carlos Galhardo
Maria Boa 1935  Bando da Lua; Ney Matogrosso
A Infelicidade me Persegue 1936  Sônia Carvalho; Dora Lopes
Adivinhação 1936  Bando da Lua
Camisa Listrada 1937  Carmen Miranda; Marlene; Vanessa da Mata
Alegria 1937  Orlando Silva; Vanessa da Mata
E o Mundo Não se Acabou 1938  Carmen Miranda; Marlene; Leci Brandão; Adriana Calcanhoto;
Ney Matogrosso
Uva de Caminhão 1939  Carmen Miranda; Marlene
Brasil Pandeiro 1940  Anjos do Inferno; Novos Baianos
Recenseamento 1940  Carmen Miranda; Marlene
Fez bobagem 1942  Aracy de Almeida
Batuca no Chão 1945  Martinho da Vila; Ataulfo Alves
Boneca de Pano 1950 Carmen Costa; Demônios da Garoa

Músicas e Vídeos




Tem Francesa no Morro - Daniele Perola (1931). Comp: Assis Valente




Good-Bye Boy (1937) - Carmem Miranda. Comp: Assis Valente



E o mundo não se acabou - Leci Brandão. Comp: Assis Valente



Brasil Pandeiro - Novos Baianos. Comp: Assis Valente




Fez bobagem - Araci de Almeida. Comp: Assis Valente


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*Alcunha dada por Lamartine Babo, que aliava os dois grandes ofícios de Assis Valente: o de sambista e de protético.

As bibliotecas públicas do estado da Bahia dispõem, para empréstimo, de algumas obras sobre Assis Valente, entre livros e discos.

Livros:
PIMENTEL, J. Assis Valente: 'felicidade é brinquedo que não se tem'. 1.ed. Salvador: Assembléia Legislativa do Estado da Bahia, Edições Ala, 2013. 506 p. (Coleção Gente da Bahia ; 25) ISBN 9782571961739 (broch)
Onde encontrar:
Biblioteca Pública do Estado da Bahia – 2 ex.
Biblioteca de Extensão – 1 ex.
Biblioteca Infantil Monteiro Lobato – 2 ex.
Biblioteca Juracy Magalhães Jr. – Itaparica – 3x.

BORGES, Sueli. Chegou a hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor: samba e brasilidade em Assis Valente. 1. ed. Salvador: Pinaúna, 2012. 174 p. (Sons da Bahia ; 1) ISBN 9788565792011.
Biblioteca Pública do Estado da Bahia – 2 ex.

Alegria de natal [gravação de som] - ( CD-Música ). CORAL PEQUENOS CANTORES DE CÁSSIA. Alegria de natal. Minas Gerais: Master Disc Produções, 1 CD.
Biblioteca Pública do Estado da Bahia – 1 ex.

Discos e CDs:
VALENTE, Assis. Assis Valente com dendê. Salvador: Sons da Bahia/ Secretaria da Cultura e Turismo, 1999. 1 cd
Biblioteca Pública do Estado da Bahia – 1 ex.

Existem Cds no acervo que contêm apenas uma única música de Assis Valente:
BETHÂNIA, Maria. Drama 3º Ato (Disco) : luz da noite: Palco Vazio. São Paulo: Gravadora Philips, [19_?]. 1 disco
Biblioteca Pública do Estado da Bahia – 2 ex.

PAQUITO. Falso baiano. Salvador: FAZCULTURA, 2002 2002 2002 2002. 1 cd
Biblioteca Pública do Estado da Bahia – 2 ex.

'Do lundu ao axé : Bahia de todas as músicas. Salvador: FAZCULTURA, 2000. 2 cds
Biblioteca Pública do Estado da Bahia – 8 ex.

BETHÂNIA, Maria. Recital na Boite Barroco (Disco) : gravado ao vivo. Rio de Janeiro: Gravadora ODEON, P1968. 1 disco
Biblioteca Pública do Estado da Bahia – 2 ex.

Faça sua pesquisa dos materiais disponíveis no sistema de bibliotecas públicas clicando aqui.
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Créditos:
Equipe da Biblioteca Virtual Consuelo Pondé:

Clíssio Santana – Editor.
Larissa Kharkevitch – Coedição e revisão.
Milena Pinillos – Textos e pesquisa.
Alef Ramos – Diagramação, Ilustração, edição de imagens e formatação da página.
Tatielly Neves – Catalogação e pesquisa.

Fontes de Pesquisas Virtuais

Dr. Zem                            https://goo.gl/g5x9UH                                      O Globo https://goo.gl/QBTAem
MPBNet                             https://goo.gl/r1o574                                       Livros     https://goo.gl/2eZFhR
Coleção Folha Raízes    https://goo.gl/1Hp5gZ                  Famosos que Partiram   https://goo.gl/lz4ucg
Folha de São Paulo         https://goo.gl/2S5BDF                             Youtube  https://www.youtube.com/
Década de 50                   https://goo.gl/VKz4Jp                          Biblioteca Digital https://goo.gl/FRJ34y        
Portal A Tarde                https://goo.gl/mD1oKb






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