Quilombos



 Tacun Lecy1
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Ainda estudava nas séries primárias quando ouvi pela primeira vez a palavra "quilombo", na aula de Estudos Sociais da escola. Era uma época de poucos recursos que possibilitassem a busca de maiores conhecimentos e interação com o mundo, ao contrário dos tempos atuais. As bibliotecas, o velho telefone discado e os telégrafos eram as nossas maiores possibilidades. Nesse contexto, o que se aprendia em sala de aula seriam verdades que carregaríamos nos nossos caminhos; e algumas dessas verdades contavam que os quilombos eram lugares onde os escravos se escondiam quando fugiam das senzalas. Em todas as figuras dos livros as imagens mostradas eram de negros com roupas rasgadas, com corpos marcados, sempre em condições marginais e sub-humanas. Traições, dores, sofrimentos, mortes... Nenhum traço de dignidade ou alegria era perceptível naquelas informações.
Mais de 20 anos após essa aula, tive a oportunidade de conhecer Campo Grande, uma comunidade remanescente de quilombo localizada na cidade de Santa Terezinha, na Bahia. O propósito da minha ida até lá foi para fotografar um grupo de artesãs para o extinto Instituto Mauá. É claro que a essa altura eu já conhecia mais informações sobre essas comunidades tradicionais, mas não tinha ideia do que eu encontraria ao adentrar aquelas terras. A única certeza era de entrar com os olhos de um curioso e procurar observar e vivenciar ao máximo os processos daquela gente. Fiz isso, e saí de lá com mais outras certezas: que a partir daquele dia, as comunidades quilombolas seriam um dos focos das minhas pesquisas como fotodocumentarista, e que eu retornaria muito mais vezes.
Em um desses retornos tive a oportunidade de levar um grupo de fotógrafos para que conhecessem Campo Grande e interagissem com os seus moradores. Durante a expedição, alguns participantes se espantaram ao perceberem que em algumas casas havia TV LED, videogame, leitor de DVD, chuveiro elétrico, cafeteira, internet entre outros equipamentos. Na visão de quilombo deles, essas "novidades" não faziam parte. Como também não faz para muitas pessoas que desconhecem os cotidianos dessas comunidades e acham que o bonito e o interessante estão apenas nas casas de taipa, nos fogões a lenha, na moringa que guarda a água, nos banhos de cuia e em todas as formas de vida evidenciadas no retrocesso. Mas, se perguntarmos a cada uma dessas pessoas se elas gostariam de viver sob as mesmas condições do que elas acham bonito, certamente observaremos um contraste nas respostas.
Como em qualquer lugar, a vida no quilombo é muito dinâmica. Em cada comunidade existe um universo de culturas e informações que, apesar do forte vínculo com o passado, se modificam ao longo do tempo. Moradia, música, culinária, dança, transporte, trabalho, comunicação, relações... Para quem quiser realmente conhecer e entender essa dinâmica quilombola, que entre com a cabeça e o coração desprovidos de qualquer pré-conceito acerca desses povos. Nada é estático! Nada, a não ser o olhar de quem é e quer continuar sendo de fora!


01. Campo Grande - Santa Terezinha/BA02. Barra II - Morro do Chapéu/BA

03. Campo Grande - Santa Terezinha/BA

04. Campo Grande - Santa Terezinha/BA

05. Campo Grande - Santa Terezinha/BA

06. Campo Grande - Santa Terezinha/BA

07. Campo Grande - Santa Terezinha/BA

08. Campo Grande - Santa Terezinha/BA

09. Campo Grande - Santa Terezinha/BA

010. Barra II - Morro do Chapéu/BA

011. Lagoa Santa - Ituberá/BA

012. Campo Grande - Santa Terezinha/BA

013. Campo Grande - Santa Terezinha/BA

014. Campo Grande - Santa Terezinha/BA

015. Rio das Rãs - Bom Jesus da Lapa/BA

016. Rio das Rãs - Bom Jesus da Lapa/BA

017. Rio das Rãs - Bom Jesus da Lapa/BA

018. Rio das Rãs - Bom Jesus da Lapa/BA

019. Boitaraca - Nilo Peçanha/BA

020. Campo Grande - Santa Terezinha/BA021. Campo Grande - Santa Terezinha/BA

022. Campo Grande - Santa Terezinha/BA

023. Jatimane - Nilo Peçanha/BA

024. Lagoa Santa - Ituberá/BA

025. Boitaraca - Nilo Peçanha/BA

026. Campo Grande - Santa Terezinha/BA

027. Boitaraca - Nilo Peçanha/BA

028. Dandá - Simões Filho/BA

029. Campo Grande - Santa Terezinha/BA

030. Campo Grande - Santa Terezinha/BA

031. Gado Bravo - Caetité/BA

032. Rio das Rãs - Bom Jesus da Lapa/BA

033. Rio das Rãs - Bom Jesus da Lapa/BA

034. Jatimane - Nilo Peçanha/BA

035. Campo Grande - Santa Terezinha/BA

036. Rio das Rãs - Bom Jesus da Lapa/BA

037. Campo Grande - Santa Terezinha/BA

038. Rio das Rãs - Bom Jesus da Lapa/BA

039. Barra II - Morro do Chapéu/BA

040. Campo Grande - Santa Terezinha/BA

041. Campo Grande - Santa Terezinha/BA

 

 

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1Avô e pai, cantor e fotógrafo, axogum e macumbeiro. Tacun Lecy traz na sua fotografia a herança africana enraizada nos cotidianos da população negra da Bahia. Suas pesquisas enfocam, especialmente, dois alicerces da cultura afro-brasileira: os candomblés Jeje-Nagô do Recôncavo Baiano, bem como as comunidades remanescentes de quilombos.

Mais do trabalho de Tacun Lecy no site: www.tacunlecy.com.br
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