Exposição D’ele o Tal! Cuíca de Santo Amaro!

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A Vida D'ele o Tal!


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Quem conheceu a cidade da Bahia entre as décadas de 40 e 60, possivelmente já teve o prazer e a dor de circular pelas enladeiradas ruas e vielas da velha e confusa Cidade de São Salvador. Nas andanças pela urbe, é bem provável que já esteve nas imediações da Praça Cairu, já admirou a imponência do Mercado Modelo, a placidez arquitetônica da Praça Municipal ou já saboreou o cheiro e as cores da Feira de Água de Meninos. Em meio a prédios, ladeiras, bares, comícios, frutas, verduras e brigas, com certeza já avistou o nosso personagem: o tal Cuíca de Santo Amaro.                        Carybé, Cuíca de Santo Amaro e Jorge Amado


Na terra onde “todos são poetas”, como disse o Embaixador Álvaro Lins,1 Cuíca de Santo Amaro não foi qualquer um, ele fez de fato jus ao nome de poeta. Nasceu no dia de São José, em 19 de março de 1907, recebeu em homenagem ao santo o nome de José Gomes. Filho de Maria José Gomes e Emídio Tibúrcio Gomes, viveu na localidade da Castanheda, bairro situado no centro da cidade de Salvador. Por dificuldade financeira, ainda menino, foi entregue aos cuidados de sua madrinha. Teve seus estudos iniciados no tradicional Liceu de Artes e Ofícios da Bahia, onde fez todo o seu curso primário, mas o poeta pouco tempo lá ficou.
Agravando a situação financeira, sua madrinha baixou a ordem: o menino precisava virar homem e trabalhar! Trabalhou em uma tinturaria portuguesa, foi operário do trapiche de fumo e cobrador de bondes na Companhia Linha Circular de Carris da Bahia. 

1Comentário feito pelo Embaixador Álvaro Lins ao presidente de Portugal General Francisco Higino Craveiro Lopes, quando este visitou a Bahia em 1957. A referência foi feita ao momento em que o poeta Cuíca de Santo Amaro, irrompendo nos salões do Palácio em dia de jantar solene, conseguiu chegar perto de Craveiro e entregou-lhe um maço de versos em sua homenagem. Eis uma das estrofes: “Benvindo sejais ó Craveiro / A esta Capital / Grandes e pequenos/ Digo...o povo em geral / Acolhe com simpatia / O Presidente de Portugal”. Matéria extraída da revista O Cruzeiro de 15 de junho de 1957. Disponível aqui.

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Não sabemos ao certo de onde veio o apelido Cuíca de Santo Amaro. Há quem diga que porque tocava muito violão pelo interior do Estado, andando de caminhão, e por isso o motorista deu-lhe o apelido. Já outros dizem que é porque o poeta casou-se em 1935 com a santamarense Maria do Carmo Sampaio, com quem teve cinco filhos. Cronista social, trovador urbano, poeta do povo, foram muitos os atributos que recebeu. Mas em verdade, o que ele foi mesmo foi homem do seu tempo. Sua produção literária, os folhetos de cordel, contou e cantou através de versos diversos temas. Querido por uns, odiado por muitos, Cuíca de Santo Amaro sabia como ninguém alavancar ou descarrilar a carreira de um político, denunciar os escândalos da sociedade baiana, além de percorrer temas populares como as mazelas do cotidiano, a carestia, o alto preço da carne e outros prejuízos para o bolso do pobre: “tudo sobe nesta vida, só não sobem os ordenados”. 

                                                                                               

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                                                                Participação de Cuíca de Santo Amaro no filme A Grande Feira
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Ao cruzar a glamorosa Rua Chile, antiga Rua Direita do Palácio Rio Branco, podia-se avistá-lo, cheio de porte! Vestido de fraque e portando uma cartola, aos desavisados parecia um dos vários “doutores” que circulavam pela cidade ostentando seus anéis da escola de medicina do largo do Terreiro. Estava nas rodas de conversas eruditas e populares, nos bares, casas, tabernas, nos burburinhos das feiras e becos, nas trovas de violão, na polícia e na política. Era o cronista da cidade, o narrador dos "causos", o provocador dos costumes, o atrapalhador da ordem dos bem comportados. Cuíca era só controvérsias, que nem da prisão foi poupado, “mas polícia dura pouco e trovador nunca se acaba”. Candidatou-se a vereador pelo PRT (Partido Republicano Trabalhista) em 1958, com o lema “candidato a vereador, o qual não tem bronca”. Obteve, entretanto, inexpressivos 68 votos. Morreu aos 56 anos, diabético, hipertenso e com uma gangrena na perna direita, em uma enfermaria para indigentes do Hospital Santa Isabel, no dia 23 de janeiro de 1964.

 

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 MATÉRIAS SOBRE CUÍCA DE SANTO AMARO



Jornal A Tarde - 22/09/1958

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Jornal A Tarde - 12/03/1951

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   Jornal A Tarde - 23/01/1964                              Jornal A Tarde - 14/11/1961 - Cartaz do Filme com Cuíca

                                                                                            ( veja o filme A Grande Feira clicando aqui)

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Jornal A Tarde - 17/03/2007

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 CORDÉIS DE CUÍCA DE SANTO AMARO

Clique no cordel para ser redirecionado

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Documentário sobre Cuíca

 

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Longa-metragem dirigido por Josias Pires e Joel de Almeida: “Documentário lança luz a respeito da trajetória do poeta-repórter que alimentou o imaginário popular de Salvador em seus tempos de província.” Por Raul Moreira, do Seminário Magazine. Leia mais.

Sinopse: Na idílica Salvador dos anos 40 e 50, Cuíca de Santo Amaro atenta contra o pudor e brada contra a hipocrisia, revela em praça pública segredos de alcova e trapaças de ricos marreteiros. É o cronista social. Nada lhe escapa: o custo de vida, os crimes mais comoventes, manobras dos líderes da II Guerra Mundial. Suas histórias não raro obscenas vendem como caninha nas feiras de Salvador e do Recôncavo da Bahia. Transformado em personagem dos escritores Dias Gomes e Jorge Amado e de filmes de Roberto Pires e Anselmo Duarte, Cuíca deixa atrás de si um rastro de polêmica. “Comigo não tem bronca”, garantia. É a versão popular do boca de brasa, o Gregório de Mattos sem gramática. Herói e anti-herói. Trovador repórter. O maior comunicador que a Bahia já teve. É um performer antes de Salvador virar metrópole. 
(Sinopse extraída de http://www.cuicadesantoamaro.com.br)

Veja trailer do filme aqui


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Josias Pires: Jornalista e cineasta. Diretor da série de documentários da TVE-Bahia "Bahia Singular e Plural", realizando atividades de produtor, pesquisador, roteirista e diretor de TV (junho 1998/ fevereiro 2004) dos seguintes documentários televisivos de 30 minutos, que registram festas, folguedos e rituais populares, veiculados para todo o país pela TV Cultura.
 
Joel de Almeida: Historiador e cineasta. É um dos principais documentarista baianos na atualidade. Já realizou cerca de 20 documentários desde a década de 80, quando iniciou sua trajetória profissional no cinema.

 

Entrevista com Joel de Almeida


Qual o interesse em fazer um filme sobre Cuíca de Santo Amaro?

Os poetas populares sempre me impressionaram. Vi alguns filmes onde eles são narradores. O Cuíca, por exemplo, é quem abre e fecha o filme A Grande Feira, de Roberto Pires, lançado em novembro de 1961. Aquele personagem nos impressionou bastante. Em 2004, descobri alguns de seus folhetos que nos levou a escrever um projeto cinematográfico.

Como foi o processo de seleção de material para a produção do filme?

O roteiro foi baseado em 250 folhetos que conseguimos encontrar em acervos públicos e de particulares ao longo de 2 anos de investigação; 4 meses de pesquisas em jornais e revistas; as publicações do brasilianista Mark J. Curran, Cuíca de Santo Amaro, poeta-repórter da Bahia e da imortal da academia de letras da Bahia, Edilene Matos, com os livros: Ele o tal, Cuíca de Santo Amaro e Cuíca de Santo Amaro, o boquirroto de megafone. Contamos também com valiosa pesquisa oral que envolveu 50 entrevistados, na época crianças e jovens que tiveram acesso ao poeta.

Quais eram os temas prediletos dos cordéis de Cuíca?

Eram os temas que fascinavam, que chamavam a atenção do povo: os escândalos políticos, temas picantes e tragédias de relevância histórica e social.

De que maneira Cuíca retratou a sociedade baiana do seu tempo? De que forma ele
nos ajuda a entendê-la?

Anunciando seus livrinhos pelos locais de maior movimento da cidade, bradava sem pudor e hipocrisia segredos de alcova e trapaças dos ricos marreteiros, fatos que os jornais nem sempre publicavam. Escancarava o lado obscuro e considerado feio da cidade. Um Gregório de Mattos sem gramática, como foi considerado. Mesmo sendo uma pessoa de poucos estudos, ele tinha grande percepção sobre as contradições, as mazelas, os conflitos da sociedade.

Cuíca de Santo Amaro foi um personagem contraditório e ambíguo. Qual traço você destacaria como mais marcante?

As inquietações de Cuíca são conseqüências de uma cidade que vivia uma grande transformação, marcada pela chegada da indústria petroquímica. Personagem marcante pelo vestuário e por suas atitudes performáticas, era um exímio comunicador, daí a sua importância e sua popularidade.

Para você, qual o legado deixado por Cuíca?

Nos ajuda a entender um pouco da atmosfera política, da vida social de Salvador ainda como uma cidade provinciana e articulada principalmente com os municípios em torno da Baía de Todos os Santos.

Saiba mais sobre a produção do filme aqui.


Publicações da Fundação Pedro Calmon sobre "Ele, O Tal"

                    

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Ele, o Tal Cuíca de Santo Amaro
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Livro da autora Edilene Matos, publicado em 2007 pela Fundação Pedro Calmon/Secretaria de Cultura-Ba. Neste livro, “Edilene faz uma espécie de retrato 3x4 do poeta popular Cuíca de Santo Amaro, resultado do tempo de andarilha pelos mercados, feiras e ruas da Bahia. Em 2ª edição, revista e ampliada, a autora traça um panorama da vida dessa cidade, entre as décadas de 40 e 60, enfatizando a trajetória da figura populíssima desse poeta, agora transformado em personagem”.

A autora aponta, com serenidade crítica, as qualidades e os defeitos do Tal Cuíca. O perfil traçado é, por isto mesmo, real. Seu biografado é muito parecido com a imagem que o poeta nos deixou, seu tipo físico, sua indumentária, seu modo próprio de anunciar sua poética tantíssimas vezes agressiva. Para retirar seu personagem da paisagem urbana, do seu palco predileto que era o Elevador Lacerda, Edilene foi procurá-lo noutros caminhos que o vate percorreu desde o tempo de sua profissão de propagandista de vários produtos. Deixa-nos a escritora a impressão que este “arentino provinciano” surgiu tipo camelot por ele representado durante muitos anos.

José Calasans (Texto da contra capa)

20 A verve de Cuíca

Livro de bolso publicado em 2012 pela Fundação Pedro Calmon, através da Diretoria do Livro e da Leitura, com apresentação de Ubiratan Castro (1948-2013), ex-diretor da FPC, orelha de Josias Pires e relato de Orígenes Lessa, datado de 1953.

“A descoberta da obra do ‘trovador repórter’ – e, por extensão, da complexidade do personagem, heroi e anti-heroi, defensor dos interesses populares e propagandista, escritor de aluguel desassombrado, pornográfico, escatológico, grotesco, enfim, um artista com muitas facetas – só se descortinou para mim através da realização do documentário Cuíca de Santo Amaro. No filme, buscamos enquadrar a obra e a performance do poeta de rua no ambiente daquela cidade mágica do seu tempo. Os folhetos desta coletânea e o filme contam um pouco do lendário poeta popular, presente em quatro livros de Jorge Amado, na peça de Dias Gomes (e também no filme) O pagador de promessas, num romance de Alexandre Robatto, Raimunda que foi, e no filme A grande feira, de Roberto Pires. Cuíca de Santo Amaro é um personagem que todo romancista gostaria de ter criado, na feliz expressão do ilustrador Sinézio Alves, seu maior colaborador.”

Por Josias Pires (texto da orelha)


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Créditos:


Equipe da Biblioteca Virtual Consuelo Pondé:

Clíssio Santana (coordenador da BVCP) – Coordenação e edição
Larissa Kharkevitch (revisora) – Coedição e revisão
Tatielly Neves (estagiária em biblioteconomia) – Textos e pesquisa
Milena Pinillos (estagiária em história) – Textos e pesquisa
Alef Ramos (estagiário em webdesign) – Diagramação, Ilustração e edição de imagens

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