Memória do Colégio Estadual da Bahia – Central: trajetória de excelência, declínio e descaso


   Por: Déborah Kelman de Lima


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Colégio Estadual da Bahia – Central. Pavilhão Francisco da Conceição Menezes (provavelmente, anos 1980).


Neste 7 de setembro de 2016, celebra-se o 179º aniversário de fundação do Colégio Estadual da Bahia, o conhecido “Central”. Trata-se de uma instituição cuja identidade tem sido forjada pela participação em muitos momentos históricos de significativa relevância e por sobreviver às inúmeras crises que sobre ela se abateram ao longo de quase dois séculos.

Alterações de ordem curricular configuraram-lhe ciclos responsáveis, em alguns momentos de seu processo histórico, pela mudança de sua denominação. Fundado “Liceu Provincial da Bahia”, passou a funcionar no então Convento dos Frades Agostinianos, hoje Reitoria da Universidade Católica do Salvador – UCSal, no bairro da Palma. Após a proclamação da República, teve seu nome mudado para “Instituto Oficial de Ensino Secundário” e, em seguida, “Ginásio da Bahia”, quando então foi equiparado ao Ginásio Nacional, hoje Colégio Pedro II, do Rio de Janeiro.

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Prédio onde funcionou o Liceu Provincial da Bahia, primeira denominação do Colégio. Antigo Convento dos Frades Agostinianos, hoje Reitoria da UCSal (provavelmente, início do s. XX).


Naquela ocasião, foi construído o primeiro pavilhão do conjunto arquitetônico, no qual a escola funciona até os dias atuais. Tal empreitada contemplou grande parte das antigas reivindicações de seus docentes, em decorrência da insatisfação geral com o precário estado das instalações que abrigaram as aulas regulares. Em 1949, foi designado oficialmente “Colégio Estadual da Bahia – CENTRAL”.

O Central acolheu personalidades expoentes em diversos campos da cultura, política e ciência, a exemplo de Ernesto Carneiro Ribeiro, Aristides Maltez, Carlos Mariguella, Jacob Gorender, Pirajá da Silva, Leovigildo Filgueiras, Cid Teixeira, Antonio Carlos Magalhães, Américo Simas, Lauro de Freitas, Glauber Rocha, Calazans Neto, Waldir Pires, Ubiratan Castro, João José Reis, Carlos Sarno, Lídice da Matta, dentre outros destaques.

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Prof. Clemente Guimarães, alunas e alunos do Ginásio da Bahia. Pavilhão Rio Branco (anos 1930).


Destacou-se pela significativa contribuição em avanços culturais. Foi pioneiro por ter constituído turmas mistas. Suas alunas optaram por ampliar seus horizontes profissionais, configurando, posteriormente, uma vanguarda no que se refere às relações sociais de gênero. A partir dos anos 50 do século passado, os atores históricos de sua comunidade utilizaram-se dos espaços da Instituição, transformando-os em lócus criativo, a exemplo da geração Mapa surgida no Central.

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Alunas e alunos. Saguão interno Pavilhão Francisco da Conceição Menezes (anos 1970).


Durante os “anos de chumbo” que marcaram a Ditadura Militar oriunda do golpe de 1964, o referido educandário tornou-se o epicentro de manifestações contra a supressão de liberdades e a restrição de direitos fundamentais, pois expressiva parcela de sua comunidade engajou-se no movimento de resistência.

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Estudantes e chefes de disciplina. Auditório do Colégio (1940).


Sua trajetória pedagógica caracteriza-se por ministrar, até a crise que se instalou nos anos 80 do século passado, educação democrática e de excelência (sobretudo após os anos 50) àqueles cujos sonhos e anseios, em sua maioria, foram concretizados. Pelas salas de aula de seus pavilhões estiveram presentes docentes e discentes oriundos de diferentes classes sociais. Muitos acabaram por galgar o status de referência nos cenários político e cultural da Bahia e do Brasil e assim permanecem até a atualidade.

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Alunas e alunos/Degradação do patrimônio. Sala de aula do Colégio (anos 1970).


O Arquivo Histórico do CEB - Central acompanha a mesma trajetória enfrentada pelo Colégio. Enquanto a instituição contou com o prestígio que lhe notabilizou, as regras da Arquivologia até então vigentes foram suficientes para atender às demandas da salvaguarda documental. Instaurada a crise institucional, verificou-se, entretanto, significativa perda de seu acervo, em razão do intencional descarte de parte de seu conteúdo. Graças ao zelo e à ação competente de profissionais não mais presentes na instituição, muitos documentos foram resgatados - inclusive das antigas latas de lixo do Colégio.

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Arquivo Histórico do Colégio Estadual da Bahia – Central  (2016).


Sua coleção é composta por livros de matrícula, atas da Congregação, pastas de alunos egressos, livros de ponto, relatórios, correspondência administrativa, fotografias e registra eventos do século XIX até alcançar os tempos presentes. A despeito dos esforços envidados, a partir de 2001, para a classificação deste Corpus Documental, a precariedade das condições materiais não permitiu um resultado à altura do valor deste manancial.

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Livro de Matrícula (1867).


No presente momento, apesar do apoio hipotecado pela nova gestão à responsável por este acervo, enfrenta-se a insuficiência de recursos de toda ordem. Dentre as dificuldades enfrentadas no cotidiano do arquivo, destacam-se a necessidade de reparo da rede física; estantes oxidadas a abrigar documentos do início do século XX; ausência de suportes materiais específicos à conservação documental e à refrigeração comprometendo até a segurança patrimonial.

Este quadro vem agravando o processo de deterioração destes documentos expostos a fatores de risco: umidade e temperatura inadequadas, poeira e poluição atmosférica, ataques biológicos (insetos e microorganismos) e acondicionamento inadequado.


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Livro de registro totalmente deteriorado. Arquivo Histórico do Colégio Estadual da Bahia – Central (2016).



No sentido de promover ações mais efetivas, um olhar mais sensível e responsável faz-se necessário, o mais breve possível, para reverter esta situação. A preservação do patrimônio cultural do Colégio é de fundamental importância para o resgate de sua própria identidade. Trata-se de um dever para com as gerações passadas, presentes e futuras - uma responsabilidade para com a reabilitação histórica da instituição e para manter o Central vivo.

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Edifício do Ginásio da Bahia em 1900. Acervo do IGHB.


GALERIA

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Processo de sistematização do arquivo: antes e depois. Arquivo Histórico do Colégio Estadual da Bahia – Central (2005).

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Processo de sistematização do arquivo: antes, durante e depois. Arquivo Histórico do Colégio Estadual da Bahia – Central (2005).

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Grupo de alunos do Ginásio da Bahia. Área à frente do Pavilhão Francisco da Conceição Menezes. Anterior a 1942.

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Alunos perfilados - Muro da Vergonha. Quadra de esportes do Colégio (anos 1970).

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Alunas em atividade cultural - Muro da Vergonha. Quadra de esportes do Colégio (anos 1970).

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Exposição de arte - aniversário de 133 anos do Colégio (1970).

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Evento sem identificação. Degradação do patrimônio. Pavilhão Dalva Matos (anos 1980).

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Praça Castro Alves - desfile não identificado.

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Jogos da Primavera, Fonte Nova (anos 1990).

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Sala da Inspetoria (anos 1930).

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Documentação em etapa avançada sistematizada. Arquivo Histórico do Colégio Estadual da Bahia – Central. (2016)
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Bancas examinadoras (1954).
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Registro de licença de professores. Livro do s. XIX em bom estado de conservação.  Arquivo Histórico do Colégio Estadual da Bahia – Central,   2016.

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Atas da Congregação (1962).

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Exemplo de documentação seriada (1968).
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Pasta de aluno egresso (1927). 
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Folha de pagamento (1963).


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Déborah Kelman de Lima é licenciada em Filosofia, pela UCSal; licenciada, bacharel e mestre em História, pela UFBA. Docente do Colégio Estadual da Bahia – Central vem empreendendo ações relativas à implantação de seu Memorial – espaço responsável pela salvaguarda do Patrimônio desta instituição. Participou na condição de palestrante, do I Mini Curso sobre História da Educação na Bahia promovido pela Livraria LDM e do Curso de extensão: As Implicações do Gênero e da Sexualidade na Educação, promovido pelo Instituto de Biologia – UFBA. É coautora das obras: Ensaios sobre Gênero e Educação, publicada pela Pró-Reitoria de Extensão da UFBA, em 2001 e História da Educação na Bahia, de 2008, publicada pela Arcádia, em 2008.


Déborah Kelman de Lima (Lattes)
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