O projeto de liberdade da família de Bento e Carolina Paulina

Isabel Cristina Ferreira dos Reis1


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Escolhi aqui recordar um registro importante da trajetória de vida do africano liberto Bento Pereira Marinho, de sua mulher Carolina Paulina e de seus filhos crioulos, Maria Izabel e Tomaz.2

Em seu testamento lavrado no ano de 1862, Bento informou não ser casado legalmente, porém assumia a paternidade de Maria Izabel e Thomaz, seus “únicos e universais herdeiros”. A mãe dos filhos de Bento, Carolina Paulina, e a filha Maria Izabel eram libertas. Já o filho Thomaz, era cativo de Paulino José Rodrigues Guimarães.

Para conseguir alforriar Carolina Paulina e Maria Izabel, o africano relatou ter tomado dinheiro emprestado de várias pessoas, assumindo ser devedor das seguintes quantias: cem mil réis a uma “comadre” chamada Damianna; cem mil réis a Antonia “nagô”; cinqüenta mil réis a Delfina; cinqüenta mil réis a Benta “nagô”; cinqüenta mil réis a José “nagô”; cinqüenta mil réis a Francisco “nagô”; e cinqüenta mil réis a Roque.

Bento afirmou ter desembolsado dois contos de réis para o pagamento das alforrias e ainda que, se por seu falecimento não tivesse pago esta dívida, a mãe de seus filhos trabalharia para fazê-lo, em consideração aos seus credores. Ele também externou o desejo de libertar o filho que ainda era escravo.

Como era usual acontecer no tempo da escravidão, muitas pessoas se juntaram para colaborar com o projeto de liberdade desta família. Chamo especial atenção para o fato de quatro entre as sete pessoas que emprestaram dinheiro a Bento terem sido identificadas como africanas de "nação" nagô, o que pode ser indicativo da solidariedade étnica, ao lado da familiar, ou seja, o empreendimento individual de um companheiro e um pai, que contou com o apoio de seus “parentes” étnicos.

Como é sabido, "nagô" é uma denominação genérica, comumente atribuída na Bahia oitocentista aos africanos falantes da língua iorubá, capturados na costa ou no interior do Golfo do Benin e depois embarcados em um dos portos do litoral, situados entre o Togo e a Nigéria.

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Apesar de nossa fonte nada revelar sobre a origem de Carolina Paulina, nem especificar a "nação" de Bento, não seria demasiado supor que ambos fossem africanos nagôs, assim como a maioria dos seus credores. Ainda, não podemos deixar de mencionar que as uniões endogâmicas por origem têm sido nitidamente observadas nos estudos sobre a família negra do tempo da escravidão, o que costumava ocorrer não apenas nos casamentos legitimados pela Igreja Católica. No cômputo geral, quase sempre africanos uniram-se a africanos, e crioulos a crioulos.

Na Bahia do século XIX os africanos pertencentes à mesma "nação" costumavam se referir uns aos outros como "parentes". No caso em estudo, ampliando as relações de parentesco, acrescenta-se o compadrio, uma forma consagrada de parentesco simbólico, que também aparece no testamento de Bento, na figura da comadre e credora Damiana, como parte da trama para alforriar Carolina Paulina e Maria Izabel.


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Diante do exposto, há que se refletir sobre o apreço de Bento e sua família para com esta comunidade, que formaram uma “junta de alforria” e lhes foi tão solidária nesta dura empreitada. Resta-nos saber quem seriam os credores de Bento: Será que Bento e seus credores possuíam vínculos forjados no seio de uma irmandade religiosa católica negra? Ou seriam parte de uma "família de santo"? Não podemos esquecer que, como bem observou Maria Inês Côrtes de Oliveira, “além da pequena família sangüínea, os libertos possuíam uma verdadeira ‘família extensa’ formada por parentes de consideração e por companheiros de trabalho.3

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Ainda, tendo em mente a propalada rivalidade que teria marcado as relações cotidianas entre os africanos e os negros nascidos no Brasil, quais teriam sido os sentimentos que permearam a relação interpessoal de Maria Izabel e Thomaz com a comunidade africana dos seus genitores? Podemos acreditar que a experiência de vida familiar do crioulo de primeira geração era diferenciada daqueles das gerações seguintes; ela comumente se dava no seio da comunidade africana de seus pais, o crioulo nascia, crescia, se socializava, aprendia os ensinamentos e os comportamentos culturais oriundos dos membros da comunidade africana, se afeiçoando a ela e por isto não era raro a edificação de relacionamentos afetivos e familiares entre os seus membros. Uma prova inconteste desta interação ficou expressada no testamento de Bento.

O “caso exemplar” apresentado acima nos anima a pensar sobre os significados da família e das relações de parentesco nos cenários das sociedades escravistas da diáspora africana; da importância da família para a população negra do passado, independentemente de se tratar de famílias constituídas de forma consensual ou legitimada pela Igreja Católica; sobre os laços parentais entre escravos e gente liberta e livre; sobre a articulação de redes de solidariedade entre a população negra do tempo da escravidão, que lhes proporcionassem algum amparo ou até viabilizasse fazer o caminho para a conquista da liberdade.



Notas
1Doutora em História Social pela Unicamp, Professora de História da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia UFRB e do Programa de Pós-Graduação em História Regional e Local da UNEB. Para saber mais sobre a autora e sua produção acadêmica, consulte: Currículo Lattes.
2APEB - Testamento de Bento Pereira Marinho (Africano testador), José Ribeiro (Testamenteiro), maço 1812, capital, Doc. 83 - 03/1343/1812/83, pp. 1 e 1v., Freguesia de N. Snra. da Conceição da Praia, 4 de Abril de 1862.
3OLIVEIRA, Maria Inês Cortês. O liberto: o seu mundo e os outros. São Paulo: Corrupio, 1988, (Baianada,7). p. 70.

Referências
Imagem 1: Território Iorubá, c.1830
Fonte: REIS, João José. Rebelião escrava no Brasil: a história do levante dos malês em 1835. São Paulo: Companhia das Letras, 2003. p. 337.
Imagem 2: Homem provavelmente nagô de Òyó.
Fonte: REIS, João José. Rebelião escrava no Brasil: a história do levante dos malês em 1835. São Paulo: Companhia das Letras, 2003. p. 313
Imagem 3: Negras novas a caminho da igreja para o batismo. Litografia colorida a mão de Jean Baptiste Debret,
1834-1839.
Fonte: http://people.ufpr.br/~lgeraldo/imagem4a.htmlImagem 4: Jean Baptiste Debret - Coleta de esmolas para a Igreja do Rosário, 1828.
Fonte: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Jean_Baptiste_Debret_Coleta_de_esmolas_para_a_Igreja_ do_Ros%C3%A1rio,_1828.jpg

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