Basílio, Manoel e outras histórias de fuga e liberdade nas ferrovias da Bahia


Robério S. Souza1


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Em junho de 1862, o periódico Diário da Bahia noticiava o engajamento ilegal de trabalho escravo nas obras de construção da Bahia and San Francisco Railway, colocando mais uma vez a empresa no centro das atenções. A Secretaria de Polícia, constrangida pelas notícias sobre o que já era de conhecimento público, solicitou ao delegado da freguesia da Penha que averiguasse a informação de que “um preto trabalhador da estrada de ferro”, após ter sido encaminhado ao hospital da ferrovia devido a um acidente de trabalho, viera a falecer de tétano2 . A notícia sobre o africano Caetano ganharia maior repercussão por ter sido divulgada, amplamente, a sua condição de escravo - o que era proibido pela legislação imperial de 1852, mas cujas infrações pareciam permanentes nas obras das ferrovias na Bahia e, também, em todo Império Brasileiro. Ao arrepio da lei, empreiteiros e engenheiros, inclusive ingleses, engajavam mão de obra escrava, como Caetano.
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Nessa época, em busca de liberdade, escravos também escapavam das senzalas e iam trabalhar clandestinamente nas ferrovias, disfarçados de homens livres ou libertos. Fugir e misturar-se à multidão que acompanhavam as obras de construção ou aqueles que trabalhavam nos serviços de operação das estradas de ferro, era uma estratégia recorrente no repertório de muitos escravos que almejavam se livrar do cativeiro. Em 1868, o fugitivo Basílio foi preso pelas forças policiais quando trabalhava como servente na estrada de ferro da Bahia ao São Francisco, em Salvador. Durante as investigações, as autoridades policiais constataram que Basílio claramente “estava sujeito à escravidão e não podia dispor de si para contratar seus serviços como pessoa livre”.3 D. Josefina de Souza Leite, a senhora “de cujo poder se havia ausentado”4, reivindicava sua posse e dizia ter herdado Basílio de seu irmão João Vicente Gomes de Souza e de sua irmã Umbelina de Souza Leite. Após terem descoberto seu disfarce e seu esconderijo aparentemente seguro, Basílio teria conseguido a sua carta de liberdade, por meio do pagamento à sua proprietária, que o obrigaria, ainda, a condição de “assentar praça no exército”. 5

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A história de Basílio, ainda que mal sucedida, pode ter inspirado os sonhos daqueles que nutriam a esperança de um dia se tornarem livres. Esse parece ser o caso de Manoel, preto, 38 anos de idade, que, por volta de novembro de 1880, “ausentou-se” de sua senhora, D. Auta Elisa de Figueiredo, para trabalhar na construção da estrada de ferro de São Felix, no Recôncavo Baiano. O chefe de polícia daquele distrito recebeu ordens para capturá-lo e enviá-lo de volta para Salvador, local onde certamente era escravo.6 Pelas mesmas razões, em 19 de novembro de 1880, José Amacio de Góes Tourinho, agente secreto, foi designado pelo chefe de polícia para prender mais dois escravos fugidos de Salvador, que se encontravam empregados nos trabalhos da ferrovia de São Félix. 7

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Em diferentes regiões do país, cativos, a exemplo de Basílio e Manoel, romperam barreiras, cruzaram caminhos e escapuliram estrategicamente para os canteiros de trabalho das estradas de ferro e de lá, quem sabe, seguir outros rumos, acalentando a esperança e a expectativa de viver longe do cativeiro. Na Província de São Paulo, os escravos também, além de se evadirem para os centros urbanos e portos, iam para locais de construção civil, a exemplo das obras da ferrovia, como nos indica a história de Geraldo que, depois de já ter prestado serviço na ferrovia de Santos-Jundiaí, fugiu em busca de trabalho (e liberdade) para outras estradas de ferro da região paulista.8

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Ao longo da segunda metade do século XIX, a escravidão e as histórias de mulheres e homens escravizados se entrelaçam com os caminhos de ferro no Brasil, inclusive por via das fugas, evidenciando a criatividade, a sagacidade e o campo diversificado das estratégias escravas para fugir do cativeiro e conquistar a tão sonhada liberdade.

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Notas
1Pesquisador e Professor Adjunto de História do Brasil da UNEB. Para saber mais sobre o autor, consulte: Currículo Lattes.
2Arquivo Público do Estado da Bahia (doravante APEB), Correspondência recebida dos Chefes de Polícia, Maço 2954. Correspondência enviada pela Secretaria de Policia para João Antonio Araujo Freitas Henriques, delegado de polícia da Penha, 2 jun. 1862.
3APEB, Seção Colonial e Provincial, Viação, Maço 4968. Ofício da Secretaria de Segurança de Polícia da Bahia. 27 de janeiro de 1868.
4Idem.
5Idem.
6APEB, Seção Colonial e Provincial, Polícia, Maço 5843. Registro de correspondência com Subdelegados (1879-1880). Esse documento foi anteriormente analisado por Jailton Lima Brito, Abolição na Bahia (1870-1888), Salvador, CEB, 2003. Além deste trabalho, consultar também: Fraga Filho, Walter. Encruzilhadas da liberdade: Histórias de escravos e libertos na Bahia (1870-1910). Campinas, Edunicamp, 2006, pp. 54-55.
7APEB, Seção Colonial e Provincial, Polícia, Maço 5843. Registro de correspondência com Subdelegados (1879-1880).
8Consultar: João José Reis & Eduardo Silva, Negociação e conflito: A resistência negra no Brasil escravista, 1989, pp. 71-72.

Referências
Imagem 1: Benjamin R. Mulock, Abertura da face sul do Túnel Pojuca - Bahia, out. 1861
Fonte: Collection Vignoles of Institution of Civil Engineers, London, ICE ACC 1335
Imagem 2: Benjamin R. Mulock, Fachada lateral da Estação de Passageiros de Jequitaia, face oeste - Bahia, 8 ago. 1860
Fonte: Collection Vignoles of Institution of Civil Engineers, London, ICE ACC 1335
Imagem 3: Benjamin R. Mulock, Extremo norte do túnel de Mapele - Bahia, 20 de abril de 1860
Fonte: Collection Vignoles of Institution of Civil Engineers, London, ICE ACC 1335
Imagem 4: Benjamin R. Mulock, Ponte provisória e definitiva sobre o Rio Joanes - Bahia, 1861
Fonte: FERREZ, Gilberto. Bahia: velhas fotografias 1858-1900. Rio de Janeiro: Kosmos, 1988, p. 80
Imagem 5: Benjamin R. Mulock, Corte de Olaria, voltada para o sul no. 2 - Bahia, 6 mar. 1860
Fonte: Collection Vignoles of Institution of Civil Engineers, London, ICE ACC 1335


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