De cativos a baleeiros: a amizade fraterna entre dois africanos no outro lado do Atlântico

Por Wellington Castellucci1


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A historiografia brasileira, a norte-americana e a de outros países onde predominou o regime de escravidão dos indivíduos oriundos da África, preocuparam-se, durante um período, em dar conta das agruras e da violência sofrida por aqueles que foram retirados da sua terra natal para viverem de forma brutal no novo mundo.

Recentemente, novas abordagens têm trazido aspectos inovadores a respeito das formas bem elaboradas pelos africanos de implementar projetos de libertação, de resgatar seus parentes e amigos que ainda viviam no cativeiro e de reinventar uma nova vida como forros. Dentre essas novas abordagens, o estudo de trajetórias individuais tem se destacado pela virtuosa capacidade de revelar a astúcia e a habilidade de planejar modos variados para alcançar a alforria, articular redes de amizades e tornar-se respeitado ante a população do lugar onde viviam os libertos.

A trajetória de dois africanos nagôs que viveram em Itaparica no período oitocentista é digna de nota e destaque no âmbito da História da escravidão e da liberdade no Brasil escravista. Batizados como José e Marcus, eles desembarcaram no território insular em 1816 e 1834, respectivamente. Eles não foram malungos2, mas em dado momento eles se conheceram e construíram uma fraterna relação de amizade, de compadrio e de sociedade que lhes conferiu não só uma vida confortável em suas últimas décadas de existência, como também se fizeram respeitados entre aqueles que habitavam a Itaparica do século XIX. Seus sentimentos de fraternidade e companheirismo, para com os seus conterrâneos, foram instrumentos essenciais para a afirmação de suas identidades, da religiosidade e construção de caminhos viáveis para a libertação e a sobrevivência de alguns deles no curso de suas histórias.

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Durante os primeiros anos José trabalhou duro como cativo da roça, enquanto Marcos se destacou como barbeiro. Até os dias de hoje não se sabe como José alcançou a liberdade e se isso ocorreu imediatamente após a morte do seu senhor, um traficante de cativos de Itaparica, ou se ainda penou como cativo nas mãos de um dos herdeiros. Fato é que, em 1847, após a morte de Isidoro Martins Braga, seu senhor, José deve ter iniciado o seu caminho rumo à liberdade.

Se as fontes não nos permitem identificar com precisão como se deu a liberdade de José, elas são bastante generosas em relação ao seu compadre Marcos. Talvez pelo fato de ser um barbeiro, Marcos teve maiores facilidades de acumular pecúlio e, após a morte do seu senhor, em 1849, Marcos entregou à viúva de Theodoro Ferreira Pimentel a razoável quantia de novecentos mil reis em nome da sua liberdade.

A partir da década de 1850 começa essa relação de amizade entre esses dois notáveis africanos. Seus feitos ficaram registrados em diferentes documentos de época e servem para comprovar a capacidade de resistir e superar as agruras da escravidão e como muitos dos cativos reconstruíram laços familiares, resgataram entes do cativeiro e ajudaram aos seus próximos. Contam nos inventários de Marcos e José que ambos, cada um a seu modo, tiveram a preocupação em libertar afilhados, dispor de casas de moradas para africanas libertas que viviam sob sua órbita e promoveram o conforto de seus filhos.

Após a liberdade eles se dedicaram aos negócios da caça e comercialização dos derivados da baleia, o que possibilitou o acúmulo de riqueza, tornando-os referências de homens de negócios na Ilha de Itaparica e com crédito na capital da Bahia. A fim de movimentar a estrutura montada para beneficiar os derivados das baleias, caçadas na baía de Todos os Santos, Marcos e José contratavam jornaleiros libertos procedentes de várias partes do Recôncavo ou da cidade de Salvador. Durante meses aqueles homens residiam nas povoações do Manguinho, de Porto Santos e até mesmo da vila de Itaparica.

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Nos últimos anos de vida, os dois africanos eram proprietários de casas de aluguel na vila de Itaparica, tinham animais de carga, embarcações, casas de cozinhar gordura de baleias, além de suas confortáveis residências no coração da vila. Diferentemente de outros ex-cativos, que buscavam a migração para longe do local onde labutaram como escravos, Marcos e José ficaram e se impuseram perante os descendentes daqueles que no passado haviam sugado parte de suas energias.

Em 18 de setembro de 1883, após rejeitar o uso de medicamentos convencionais para cuidar de uma doença no fígado e após ter cumprido todas as suas disposições testamentárias, José fechou os olhos pela última vez em sua residência situada à Rua dos Patos. Seu compadre Marcos, antes de partir para outra dimensão, ainda deixaria para a posteridade um feito de suma importância para o povo de santo. Em maio de 1881, Marcos e o seu filho Marcos Cardoso Pimentel, viajaram a Lagos e retornaram em novembro do mesmo ano. Todos sabem que na sua volta eles trouxeram um assento de babá Olukotun, ancestral legendário dos povos iorubás, cultuado até hoje nos terreiros de Babá Egun da Bahia. Foi lá que Mestre Didi, uma das mais importantes referências culturais do povo negro baiano foi iniciado no culto dos Egun da Ilha de Itaparica.

Por todas essas façanhas, Marcos e José são lembrados até os dias atuais pelos moradores de Itaparica e aos poucos as suas trajetórias estão sendo eternizadas pela História Social da escravidão.



Notas
1Graduado em História pela UNEB (1995), mestre em História Social pela PUC-SP (1999) e Doutor em História Social pela USP (2005). Atualmente é professor da  Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB). Para saber mais sobre o autor, consulte: Currículo Lattes.
2Malungo: companheiro/a, irmão/a de barco ou da mesma canoa ou embarcação.

Referências
Imagem 1: Cidade de Itaparica, 1884. Fonte: Coleção Gilberto Ferrez, 007, Marc Ferrez/Instituto Moreira Salles.
Imagem 2: Cliché de J. S. Tavares. Fonte: TAVARES, J. S. A pesca da Baleia no Brazil. Broteria. Revista Luso-Brasileira, Braga, vol. XIV, p.69-80, 1916.

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