“Viva a esperança!” – a liberdade em uma bandeira do Haiti

Por Iacy Maia Mata1



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No mês de junho de 1864, o escravizado Severiano Rizo teve a ideia de formar uma comparsa (equivalente aos nossos cordões carnavalescos) para desfilar no dia de São João. Em Santiago de Cuba, as festas de São João e São Pedro, com grande presença popular, eram “ocasião de grandes reuniões de negros” e, segundo a avaliação das autoridades coloniais, sempre razão “de bulício para a gente de cor”. O grupo, que ensaiava todas as noites, das 19:00h às 21:00h, se reunia na casa do negro livre Justo Peñalver e contava já com cerca de 40 pessoas, entre escravos e livres, homens e mulheres.

Severiano era o “cabeça da
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comparsa” e se encarregou de toda a organização: conseguiu os tambores, escolheu o nome, solicitou ao comissário de polícia autorização para os ensaios. Com o jornal recebido na taberna em que trabalhava alugado como cozinheiro, comprou o tecido para a confecção da bandeira que o grupo exibiria na festa. Bandeira costurada, Severiano contratou os serviços de um pintor pardo para que pusesse na peça um desenho e uma inscrição. A bandeira, com três faixas horizontais (a superior, azul; a do centro, branca, e a inferior, rosa), trazia no centro, na parte branca, o desenho de um pássaro verde (mariposa), conhecido em Cuba como esperança. Sob o desenho, constava a seguinte inscrição: “Viva a esperança!” Por esse motivo, Severiano e os negros livres Justo Peñalver e Justo Castillo, na véspera do São João, foram presos e tornaram-se réus de uma Comissão Militar.

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Acontece que a bandeira confeccionada era, segundo as autoridades coloniais, igual à bandeira do Haiti. O país vizinho, que no início daquele século fora palco da primeira (e única) revolução escrava vitoriosa nas Américas, fora matéria de inspiração para rebeliões e conspirações em Cuba. Em 1812, na famosa rebelião de José Aponte, alguns acusados acreditavam que contariam com a ajuda do Haiti para acabar com a escravidão; além disso, imagens de Toussaint Louverture e Dessalines circulavam entre os negros em Havana. Em Santiago de Cuba, em 1863, segundo informes do Governador do Departamento Oriental, os negros frequentemente falavam o francês do Haiti, o que os fazia simpatizar com aquela república e, além disto, “muitos mulatos e negros iam e vinham como por cabotagem entre Haiti e Santiago de Cuba”.

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Severiano, segundo os depoimentos, era muito formal e trabalhador; era calado, não falava nem com as pessoas da casa, só se fosse perguntado; “pecava mais de silencioso do que de falador”; seu único defeito era ser dormilón. Segundo a senhora, Severiano “sempre foi muito submisso”, sua conduta era irreparável, mas naquele dia, ao ser perguntado sobre o significado do desenho e da inscrição, lhe respondera muito mal – desgostoso e contrariado. Antes, Severiano já havia sido advertido pelo comissário de polícia de que não podiam se apresentar com uma bandeira com aquelas cores, que seria melhor levar uma bandeira espanhola, pois ninguém os impediria de desfilar. Mas o escravizado, aconselhado pelos companheiros, preferiu ignorar a recomendação.

O temor das autoridades coloniais espanholas não era em vão. Dias antes, perto dali, fora descoberto um plano de sublevação; o dono de um cafezal avisou às autoridades coloniais que quatro negros de fazendas vizinhas haviam induzido um dos seus feitores a se unir a eles para insurrecionar os escravos de outras propriedades com o fim de “se excluírem da escravidão”. Após a prisão de quatro cativos acusados de organizar a rebelião, concluiu-se que a conspiração era “um feito isolado e sem ramificações”. Mas, segundo um contemporâneo, a notícia desse projeto de sublevação se espalhou rapidamente na região, sobretudo entre os negros que “não cessavam de repetir” que a escravidão estava “para terminar para sempre”.

Ao final, as investigações inocentaram Severiano e os negros livres envolvidos na confecção da bandeira; a Comissão Militar concluiu que no feito não havia qualquer objetivo político, apenas o desejo inofensivo de se divertir. A bandeira foi remetida ao Governador Superior Civil com a recomendação de que fosse proibido que “os negros e pardos de cor crioulos tivessem cabildos e celebrassem comparsas e outras demonstrações”.

Alguns anos depois, em 1867, foi descoberta outra conspiração arquitetada por negros livres com o objetivo de pôr fim à escravidão. Dessa vez, os revoltosos estavam se organizando “para sair juntos no dia de São Pedro em uma comparsa e começar dessa maneira”. Mais um episódio que demonstra que as comparsas podiam se tornar ferramentas importantes de resistência à escravidão e ao domínio colonial espanhol. A bandeira idealizada por Severiano, nesse contexto de agitações políticas e de resistência escrava, pela semelhança com a bandeira do Haiti, soava como a afirmação de fé e esperança na liberdade e, por isso, fora percebida como um perigoso símbolo contra a escravidão.



Notas
1Mestre em História pela UFBA (2002) e doutora em História pela UNICAMP (2012). Para saber mais sobre a autora, consulte: Currículo Lattes.
2Episódios discutidos em MATA, Iacy M. Conspirações da raça de cor: escravidão, liberdade e tensões raciais em Santiago de Cuba (1864-1881). Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2015.

Referências
Imagem 01: Oscar García Rivera, Comparsa, c. 1940
Imagem 02: Bandeira do Haiti, de 1859 a 1864.
Fonte: http://draeger.xpg.uol.com.br/
Imagem 03: Mapa das Índias Ocidentais, de autoria de Samuel Augustus Mitchell (1792-8168)
http://commons.wikimedia.org/wiki/File%3A1850_Cowperthwait_Map_of_Cuba_and_West_Indies_-_Geographicus_-_WestIndies-m-1850.jp

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