LUCAS EVANGELISTA: crime e liberdade

Por Igor Gomes1


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A fuga escrava era normalmente a porta de entrada de uma quantidade ampla de outras rebeldias de variadas durações. Aqueles que conseguiam gozar da sua infratora liberdade tentavam viver de inúmeras formas e levavam em consideração, para o bom sucesso das fugas, seus contextos, geografias e alianças. Isso mostra a variedade no tempo e no espaço das visões e táticas de liberdade desses sujeitos. Alguns buscavam lugares mais ermos e distantes, outros buscavam a multidão das cidades. Fugiam em grupos ou individualmente. Mesmo alguns que fugiam individualmente, não por acaso, se somavam a outros, compondo “comunidades de fugitivos” e “comunidades volantes”, que podiam se dissipar ou se manter em atividade durante algum tempo, normalmente até a repressão os abater.

Dessas possibilidades de liberdades, o crime, especialmente o roubo e o furto, foi umas das ações usadas por esses fugitivos. Cometiam pequenos ataques às propriedades de senhores, de trabalhadores e trabalhadoras livres e pobres. Faziam razias em estradas e engenhos, e também atacavam escravos. Uma parte dessas ações era para sanar necessidades imediatas, para conseguir alimentos e dinheiro para comprar produtos de que careciam, especialmente armas e pólvoras, enquanto não conseguiam uma opção mais estável e menos arriscada. Mas havia aqueles que se dedicaram ao roubo e ao furto como um modo mesmo de viver a vida, isto é, como salteadores.

O caso do agrupamento de Lucas Evangelista, mais conhecido como Lucas da Feira, expressou bem essa segunda possibilidade.

Lucas foi um crioulo nascido em 1807, morador da fazenda Saco do Limão, que distava mais ou menos uma légua e meia da cidade de Feira de Santana. Seus pais eram africanos e se chamavam Ignácio e Maria. Seu proprietário era o padre José Alves Franco, de quem fugiu em 1828 (alguns autores falam em 1823) para nunca mais voltar, após uma sequência de pequenas fugas.

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Alguns anos antes dessa fuga definitiva, a Bahia passava por uma guerra civil entre Portugueses e baianos que seria um dos capítulos fundamentais na “independência do Brasil”. Contudo, vencida a guerra pelo lado “brasileiro”, novas contendas seriam deflagradas e a paz social tão almejada pelos plantadores, criadores e comerciantes da Bahia, não se consolidou. Revoltas federalistas e liberais, em meio a inúmeras insurreições escravas, além da Sabinada, atormentavam a ordem social imperial. Os conflitos políticos armados deixavam expostas as dificuldades de controle social por parte do poder provincial e inúmeras rebeldias e visões de liberdades dos grupos sociais subalternos se impuseram emergencialmente. “O banditismo após as guerras de independência na Bahia e as subsequentes lutas federalistas (...) tomaram conta do recôncavo até Feira de Santana”.2

Em que pese à rigorosa distinção que fazem os historiadores entre o recôncavo e os demais territórios baianos, percebemos que, nesse contexto, o recôncavo, o agreste e o sertão eram territórios continuamente rompidos por diversos grupos sociais, também pelos escravizados em fuga. O “recôncavo rebelde” se espraiou pelo agreste e sertões, não apenas pela consequência de suas “revoluções” e “contra revoluções”, mas porque vilas como a de Feira de Santana eram contínuo abrigo de rebeldes, desertores e escravos em fuga.

O termo de Feira de Santana no início da década de 1830 foi emancipado à condição de Vila. Duas eram as razões principais para tal ato: o fato de que a feira de gado de Feira de Santana obteve um enorme crescimento nos anos finais da década de 1820, fazendo-se necessária uma melhor regulamentação dessa relação comercial com funcionários locais, posturas, etc., e a vontade das autoridades centrais da província de que ali fosse criada uma tropa da Guarda Nacional para ficar de prontidão para debelar qualquer tentativa de sedição, pois Feira de Santana era vista como um lugarejo rebelde, onde existiam apoiadores dos movimentos federalistas.

No entanto, os planos foram por água a abaixo. A Guarda nacional constituiu-se como um dos focos das sedições e distúrbios políticos da vila e foi por ela que as ações da Sabinada tiveram penetração na Vila. Feira de Santana se transformou num palco sucessivo de conflitos armados entre juízes, guardas nacionais, fazendeiros e políticos, que faziam uso continuamente de forasteiros, desertores, homens negros escravizados e livres, vaqueiros e famosos bandidos da região para resolver suas contendas. A Feira de Gado também se constituiu num espaço de desenvolvimento social e econômico para a vila, ao mesmo tempo em que a tornou um destino de homens “turbulentos”, “facinorosos”, “vadios” e “criminosos” que lutavam em contendas das classes dominantes.

Por volta de 1838, ainda sob os escombros da Sabinada na Vila, o grupo de Lucas começou a produzir seus primeiros atos. O contexto deve ter sido propício para que vários escravos fugidos do recôncavo e de áreas mais próximas ao agreste decidissem por viver sua liberdade através do salteamento nas estradas.3 Foi nesse ambiente que Lucas deixou de ser um reles ladrão de bichinhos, como ele falava de si, para compor um grupo de salteadores de escravos que atormentou os caminhos e chegou a travar a realização da feira de gado.

Existem várias suposições quanto ao número de crimes praticados por este grupo de escravos. Os historiadores especularam com números bem diferentes, entre 44 e 150 crimes. Estes crimes, segundo a maioria de seus pesquisadores, eram acobertados ou pensados em parceria com comerciantes e lideranças políticas locais e isso explicaria, para as autoridades provinciais, a durabilidade de um grupo de escravos fugidos numa vila tão próxima ao recôncavo. Na pesquisa que venho desenvolvendo há uma plausível possibilidade de que a alcunha “da Feira”, atrelada ao seu nome, tenha sido uma pecha designada ao fato de que as autoridades centrais acreditassem que o povo “da Feira” corroborasse com o “malvado Lucas”. Lucas era da Feira assim como as sedições e os atritos com o poder provincial. Lucas era um rebelde, bem como o era a vila de Feira de Santana. Criminalizava-se a vila e seu povo, através dos crimes de Lucas, que eram atribuídos aos seus conluios, ora com a população em geral, ora com os comerciantes e políticos, como já foi dito. Os jornais passaram, assim, a designar o outrora Lucas Evangelista, ou simplesmente Lucas, como Lucas “da vila de Feira de Santana”.

Mas há indícios, rastros e sinais de que houve fortes relações dele com a gente pobre e comum de Feira de Santana. Consequentemente, entre os assassinados por Lucas e seu grupo, estão várias pessoas que eles acusavam de traição, de não pagar negócios feitos, de usar de conhecimentos que tinham de esconderijos de Lucas para colaborar com a repressão, confirmando uma rede de alianças que iam desde a parceria nas ações armadas até o papel de correios entre os moradores da vila e da senzala onde o próprio Lucas nasceu.

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O grupo, a despeito do que a imprensa soteropolitana dizia sobre a colaboração dos feirenses, foi intensamente perseguido, com muitos prêmios oferecidos pelas suas capturas ou mortes. De 1843 em diante o grupo não parou de perder membros, seja para o recrutamento, para as emboscadas ou para as prisões. Em 1848, era apenas Lucas o remanescente ainda fora das cadeias ou das forcas. No final de 1848 essa situação mudou e ele foi capturado por moradores da vila de Feira de Santana. Em duas tentativas de prendê-lo foi alvejado no mesmo braço esquerdo, criando um alerta generalizado sobre pessoas que circulassem com medicações. Assim foi preso Lucas, num casebre, um dos seus esconderijos, próximo ao rio Subaé, a poucas léguas da cidade. Foi presa uma mulher com a medicação que lhe seria entregue e foi forçada a revelar onde se escondia Lucas.

Lucas foi enforcado no dia 26 de setembro de 1849, mas até hoje persiste na memória de muitos que lutam cotidianamente na cidade de Feira de Santana (que invariavelmente a chamam de “Terra de Lucas”) e que emprestam às suas bandas de música, ocupações de solo urbano, ruas, entre outras coisas, o nome de Lucas, associado hoje às novas perspectivas de Liberdade.


Notas
1Mestre e doutorando em história, ambos pela Universidade Federal Fluminense, atualmente professor no IFBA. Para saber mais sobre o autor e sua produção acadêmica, consulte: Currículo Lattes.
2FONSECA, Denise Pini Rosalem. Cooperação e Confronto. Resistência social na periferia dos engenhos de açúcar da Bahia, 1791 – 1835. Rio de Janeiro: Historia y vida; Sete Letras, 2002, p. 137.
3Eram eles, além de Lucas, Nicolau, José, Manoel, Flaviano, Bernardino, Lourenço, Benedito. O grupo variou de quantidade de membros, mas exponho aqui apenas os mais fixos.

Referências
Imagem 01. Fonte: CAMPOS, Sabino. Lucas, o demônio negro. Rio de Janeiro: Irmãos Pongeti, 1957.
Imagem 02. Fonte: REYS, Virgílio César Martins & LIMA, Arthur Cerqueira da Rocha. Lucas da Feira, o Salteador. Histórico da sua vida até o seu julgamento e execução, acompanhado do processo dos seus célebres companheiros Januário e Flaviano. Cachoeira (BA): Libro Thypographia, 1896.

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