A trajetória de um professor, historiador, pesquisador, e acadêmico: Luís Henrique Dias Tavares.

INTRODUÇÂO

Reconhecendo-se as dificuldades para acompanhar em exíguo espaço, a rica trajetória de vida e expressiva produção intelectual de uma pessoa tão singular quanto o professor Luís Henrique Dias Tavares, decidiu-se registrar aqui, apenas os momentos mais relevantes da existência desse professor, historiador e pesquisador da História do Brasil, cujo caminho tem sido marcado pelo trabalho profícuo, preciso e critico.

O COMEÇO DE TUDO

Luís Henrique Dias Tavares nasceu a 25 de janeiro de 1926, na cidade de Nazaré, situada no recôncavo baiano.Filho do Sr. Luís Dias Tavares, que exercia na cidade o cargo coletor estadual e da professora Elza Dias Tavares.Alfabetizado por sua mãe, freqüentou pela primeira vez a escola em Nazaré, aos sete anos de idade, em classe com crianças de vários níveis, sob a responsabilidade de uma única professora, como era comum na época.

Em 1938/1939 cursou as duas primeiras series do ginasial, ainda em sua cidade natal, no conceituado Colégio Clemente Caldas. Entre 1941/1943 o jovem Luís Henrique já encontrava-se em Salvador onde concluiu o ginásio nos colégios Nossa Senhora da Vitória (Maristas) e Ypiranga respectivamente. Cursou o Clássico no Colégio Estadual da Bahia entre 1945/1947, requerendo em fevereiro de 1948 inscrição para o exame vestibular para o Curso de Geografia e História na Faculdade de Filosofia da Universidade da Bahia , no qual foi aprovado.

Entre 1948/1950 ele cursou o bacharelado em Geografia e Historia na referida Universidade, cumprindo as disciplinas pedagógicas até março de 1952, quando colou grau como licenciado em Geografia e História.

O ACADÊMICO.

Um ano após, encontrava-se o jovem Luis Henrique, após aprovação em concurso público que constou de títulos e provas orais e escritas, nomeado professor para o Colégio Estadual da Bahia, lecionando as disciplinas História Geral e do Brasil.

Esse seu primeiro “trabalho formal” foi certamente, sua grande escola. Estudioso, dedicado e inquieto tornou-se logo pesquisador do Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos, (INEP) órgão ligado ao Ministério da Educação e Cultura, atuando aí entre 1955/1961.Em 1957, foi contratado para o Departamento de História da Faculdade de Filosofia da Universidade da Bahia, assumindo a cadeira de História do Brasil em substituição ao Dr. Luís Viana Filho, então titular. Em 1961, pediu demissão do INEP, após aprovação em concurso para Livre Docente que incluiu provas orais e escritas além da defesa de tese. O seu tema de Livre Docência – Movimento Revolucionário Baiano de 1798, além de ser título de sua tese, o acompanha por toda a vida. A cada dia amplia suas pesquisas, e publica novos trabalhos, tornando assim, seus textos sobre o assunto, referência obrigatória não apenas em salas de aula, mas para o desenvolvimento de trabalhos afins e participações em congressos e seminários nacionais e internacionais.

Em dezembro de1961, após brilhante desempenho no concurso, foi nomeado Professor Catedrático de História do Brasil, em virtude do impedimento do seu titular Dr. Luís Viana Filho, que encontrava em função legislativa.

Destaca-se ainda, que durante dez anos entre abril de 1959 e outubro de1969, ocupou o professor Luís Henrique Dias Tavares a função de diretor do Arquivo Público do Estado da Bahia. Entre abril de 1967 e janeiro de 1969, ele respondeu também pela Diretoria do Departamento da Educação Superior e da Cultura da Secretaria da Educação do Estado da Bahia, cuja atuação foi utilizada como justificativa para sua prisão e sucessivos depoimentos prestados á VI Região Militar, no período de vigência do AI-5.

Em 1969, integrou o elenco de Professores Fundadores do Curso de Pós-Graduação em Ciências Humanas, posteriormente Ciências Sociais da UFBA, assumindo, no biênio 1980/82, o cargo de Coordenador desse Mestrado.

Na Universidade Federal da Bahia, o Professor Luis Henrique Dias Tavares ocupou diversos cargos, alguns deles em vários biênios como a chefia do Departamento de História. Presidiu também a Câmara de Ensino de Pós-Graduação e Pesquisa da UFBA entre 1984/85, além de ter assumido em inúmeras oportunidades o cargo de diretor da Faculdade e de coordenador do Colegiado de História, no impedimento de seus titulares. Com tal trajetória de vida, é óbvio que esse acadêmico participe de várias instituições culturais nacionais e estrangeiras. Lembremos por exemplo, da Academia de Letras da Bahia, do Conselho Estadual de Cultura, dos Institutos Históricos do Brasil e da Bahia e da Universidade Federal da Bahia, da qual é Professor Emérito.

Não podemos deixar de fazer referência às diversas e proveitosas viagens ao exterior, feitas pelo professor Luís Henrique Dias Tavares entre 1959/1990, com o objetivo de realizar leituras em bibliotecas especializadas, pronunciar conferências, participar de colóquios internacionais, realizar prospecção de fontes ou desenvolver pesquisas em arquivos dos Estados Unidos, Portugal, Espanha, França e Inglaterra. Visando aprofundar suas pesquisas sobre o “tráfico de escravos,”tema do seu pós-doutorado, esse historiador, esteve em 1979-1980, 1982, 1985-1986 em Londres, onde freqüentou arquivos e bibliotecas debruçando-se sobre farta documentação em inglês.Em 1990, ele retornou a arquivos de Lisboa, Madri, Paris e Londres, dessa vez, para ampliar suas pesquisas sobre os envolvidos na Conjuração Baiana de 1798, tema que examina desde 1961, quando escreveu e defendeu sua tese de Livre Docência.

Apesar de ter se aposentado da UFBA em 1991, dela jamais se afastou. Durante anos freqüentou cotidianamente o seu gabinete na Faculdade de Filosofia, onde atendia a diversos alunos de Cursos de Pós-Graduação em História e ou participava de bancas de teses ou concursos na UFBA ou em outras instituições do País.Atualmente, mesmo fisicamente distante, ele continua tendo a postura do Mestre combativo e responsável pela formação de gerações de historiadores baianos, preocupado com o destino do ensino público no Brasil e com a fragilidade de um projeto universitário que pouco privilegia a produção do conhecimento.

A PRODUÇÃO HISTORIOGRÁFICA.

Considera-se impossível nesse exíguo espaço comentar, ainda que sucintamente, a diversificada e profícua produção historiográfica do professor Luís Henrique Dias Tavares.Visando dar apenas uma brevíssima notícia a esquematizamos em cinco abordagens que contemplam a maioria dos seus textos: A História da Bahia com mais de 10 edições.Texto abrangente, preciso e indagativo teve sua primeira edição em 1959, sendo escrito com a finalidade de atender ao curso pedagógico. Já essa primeira edição é um livro de História metodologicamente inovador, pois a sensibilidade do seu autor, o cotidiano da sala de aula e suas inquietações ideológicas ensinaram-lhe que, escrever um livro de História, era muito mais do que relatar fatos, mas sobretudo, fazer o aluno refletir sobre o homem e a construção de sua história.Esse livro, ampliado nas várias edições é atualmente outro, tanto metodologicamente quanto em relação aos conteúdos.Além de inserir inúmeras e atualizadas indicações bibliográficas durante a exposição dos diversos temas, apresenta a História da Bahia Republicana completamente reescrita.

Esse é um livro que tem sua marca na historiografia baiana. É uma síntese, mas não só isso, trás uma abordagem política e socioeconômica mas vai além, é um livro que indica uma rica bibliografia e muito mais, levanta polêmicas e propõe novos temas para pesquisa.

Em segundo lugar estão os seus inúmeros livros e artigos sobre a Conjuração Baiana de 1798, tema que ele persegue há mais de 50 anos, pesquisando em arquivos e bibliotecas nacionais e estrangeiros. Além de sua produção sobre o tema, coube ao professor Luís Henrique coordenar a edição do processo crime instalado no Brasil para julgar os “possíveis envolvidos”. Foi publicada pelo Arquivo Público da Bahia, para marcar o segundo centenário da Conjuração, sob o título: Autos de Devassa da Conjuração dos Alfaiates, em 2 vol. Essa obra é resultante de um trabalho de detetive, em que esse professor rastreou fontes dispersas durante anos de pesquisa, tornando-a por isso mesmo trabalho de consulta obrigatória aos que se dedicam a esse tema ou afins.

Em terceiro lugar se encontram os seus livros e artigos sobre a Independência do Brasil e da Bahia. Temática da sua preferência e especialidade, garantiu a esse professor/historiador a publicação de artigos, livros didáticos e temáticos, exposições, conferências, entrevistas e aulas inesquecíveis. Reconstituiu em várias abordagens o processo histórico, contando com a fidelidade aos documentos e com a sua capacidade de fazer conexões e especulações a defesa de posições inovadoras, muitas delas desdobradas e aprofundadas por seus discípulos.

Em quarto lugar merece destaque o seu trabalho do pós-doutorado cujo livro é intitulado:Comércio proibido de escravos.(Ática.1988).Do imenso acervo documental que pesquisou, o Professor Luís Henrique extraiu as questões que envolveram os interesses ingleses e brasileiros, os negócios que transcorriam no Atlântico, no bojo dos próprios tumbeiros.Esse é um estudo inovador sobre a participação de capitais e mercadorias britânicas, e de embarcações portuguesas, britânicas e norte-americanas no lucrativo tráfico de escravos e mercadorias que circulavam clandestinamente no Atlântico Sul, cujos interesses chocavam-se com os interesses britânicos de dominação do continente africano, mas que eram suficientemente poderosos a ponto de resistirem às pressões da política oficial britânica.

Em quinto lugar, não se pode deixar de fazer referência aos seus trabalhos paradidáticos, um desafio de professores, educadores e editores para tornar a escola mais atrativa para crianças e adolescentes.Nesse caso, o professor Luís Henrique consegue unir de forma magistral, sua experiência de professor, historiador e profundo conhecedor dos acervos históricos à de cronista, novelista, e ensaísta, ao produzir, com sensibilidade e rigor historiográficos dois trabalhos paradidáticos obrigatoriamente conhecidos pelos profissionais envolvidos com os níveis fundamental e médio da educação básica.O primeiro, é intitulado “O fracasso do Imperador”, que atualmente ganhou novo texto, o segundo “A Conjuração Baiana”, tema de sua especialidade. Em ambos, ele traz para o cenário histórico “o homem comum”, o cidadão anônimo, o jornalista, o estudante, os artesãos, os libertos e escravos, aqueles que viveram, lutaram, participaram e até morreram defendendo seus ideais, mas que a História parece ter esquecido.

Assim, ele foi tecendo as tramas e construindo uma História mais interessante, curiosa e atraente, porque mais próxima do aluno.

Como suspeitou-se inicialmente, agora se comprova, que não é possível concluir nesse exíguo espaço uma apresentação sobre a produção historiográfica do mestre e pesquisador Luís Henrique Dias Tavares.

Sua enorme produção, merece respeito e reconhecimento; sua didática simples marcada pela honestidade intelectual, reflexão e capacidade de fazer correlações, que prende a atenção dos seus leitores e/ou ouvintes, uma evidência; e o seu estímulo a novas pesquisas, leituras e questionamentos, uma marca de sua postura enquanto professor/historiador/pesquisador.

Esse é um pouquinho do professor Luís Henrique Dias Tavares com quem todos os seus discípulos têm o prazer de conviver.



Maria José de Souza Andrade e Marli Geralda Teixeira